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Ivan Moré fala de saída da Globo: “Não concordei com alguns gestores”

Renan Nievola
·10 minutos de leitura
Ivan Moré (Arquivo Pessoal)
Ivan Moré (Arquivo Pessoal)

Há pouco mais de um ano e meio, o jornalista Ivan Moré saía do Grupo Globo após mais de 19 anos na emissora. Na ocasião, o canal da família Marinho informou ao ex-apresentador do Globo Esporte que queria que ele voltasse a ser repórter e deixasse a apresentação do telejornal esportivo, o que não foi aceito por Moré e culminou em uma divergência entre as partes, que acabou decretando a saída do comunicador da emissora.

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Hoje, Moré produz conteúdo digital, dá palestras e explora o empreendedorismo por meio da comunicação. Em bate-papo exclusivo com o Yahoo Esportes, ele comentou detalhes sobre a saída da Globo e algumas restrições impostas pelo canal durante sua passagem por lá, falou do porquê não aceitou propostas da Record e da Band, relembrou entrevistas da carreira que foram marcantes para ele e revelou quais são seus projetos presentes e futuros.

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Depois de sair da Globo, você passou a produzir conteúdo digital. Como está sendo essa experiência para você? Está se sentindo mais livre para criar sem a restrição que era imposta pela emissora?

Ivan Moré: Quando eu estava dentro da TV Globo, eu era impedido de ter o meu canal de podcast, o meu canal de YouTube, a minha plataforma de conteúdo digital, esses canais de comunicação diretos com a minha audiência, com aqueles que gostam do que o Ivan Moré faz. Todo o meu conteúdo era entregue com exclusividade à emissora na qual eu trabalhava. Agora, eu percebi que eu posso ser o empreendedor de mim mesmo. Eu sou um produto e eu mesmo tenho o meu canal de comunicação direto com a minha audiência. Eu não necessariamente preciso de um intermediário. As mídias sociais são as minhas auxiliares nisso e eu não preciso pagar nada a elas por isso. E, a partir do momento em que eu começo a gerar valor para a minha audiência, eu posso ter a oportunidade de começar a monetizar por meio das visualizações. Essa nova dinâmica permite que você tenha controle sobre seu conteúdo e o disponibilize e o gerencie da forma como você quiser.

Por que você optou especificamente pelo formato de podcast para veicular o conteúdo que você produz?

Porque eu acho que esse formato de áudio é muito rico. Os podcasts nada mais são do que a reformulação do rádio como nós conhecemos hoje em dia, com a diferença que você pode ouvir e consumir aquele conteúdo no momento em que for mais adequado para você. E o conteúdo de rádio é legal porque pode ser consumido no momento em que você dirige, em que você viaja, em que você está em algum transporte do trabalho até a sua casa, no momento em que você está fazendo um exercício ou uma atividade dentro de casa... Você pode estar concentrado em alguma tarefa e recebendo aquele conteúdo de áudio, que tem um nível de concentração e de assertividade muito grandes.

Um dos seus podcasts é o Desobediência Produtiva”. Do que ele se trata? O que significa exatamente esse conceito?

Desobediência produtiva nada mais é do que você encontrar e respeitar a maneira que você tem de funcionar em um ambiente em que você se proponha a desenvolver algum tipo de conteúdo, a trabalhar, a empreender, e montar suas regras de modo que você respeite as suas potencialidades e a forma como você se adequa às situações. Nesse momento em que a hierarquia das empresas está se mostrando ultrapassada, a ideia da desobediência produtiva é fazer com que o gestor do presente e do futuro respeite as potencialidades do colaborador fazendo um mapeamento daquilo que ele pode entregar de melhor. Isso se relaciona muito com o mundo do empreendedorismo. Hoje, muita gente quer empreender, mas não sabe como, porque não sabe mapear quais são suas próprias potencialidades e de que forma elas podem entregar e gerar valor. Acredito que, a partir do momento em que a pessoa tenha consciência do conceito de desobediência produtiva, ela passa a olhar para dentro de si, para suas potencialidades e para a forma como elas podem se adequar ao mundo corporativo. A desobediência produtiva também é quebrar alguns protocolos pré-estabelecidos de modo a fazer uma adequação para um modo de trabalhar que pode funcionar melhor para você.

Além do podcast “Desobediência Produtiva”, você também produz o Qualé, Moré”. Qual o tipo de conteúdo que ele traz ao público?

No “Qualé, Moré”, a gente sempre tenta trazer alguma figura interessante do mundo do esporte e contar o que muitas vezes essa figura nunca revelou. Não é contar o lado B, mas sim o lado C dessa pessoa. É extrair conteúdo do ponto de vista pessoal de cada atleta para gerar algumas provocações na audiência. No primeiro episódio, consegui juntar Marcelinho (Carioca) e Marcão (Do Palmeiras), no mesmo estúdio, depois do pênalti de 2000 (que marcou a eliminação do Corinthians da Libertadores daquele ano). Eles jamais tinham se encontrado pessoalmente depois daquela ocasião. Recentemente, também no “Qualé, Moré”, optei por abordar alguns conteúdos relacionados a pessoas que estão enxergando novas maneiras de comunicar esportes nesse momento de transformação. É também uma maneira de eu me comunicar com jornalistas e pessoas que estão transformando a linguagem do esporte.

Qual foi a entrevista de toda sua carreira que você mais gostou de ter feito?

Com o Roger Federer, pela experiência que envolveu a entrevista em si, pela oportunidade de jogar uma partida de tênis com ele. Destacou muito a minha vida e a minha carreira, porque a gente teve a oportunidade de ficar quarenta e cinco minutos com o Roger Federer. A gente conseguiu bater papo, jogar, ele foi um “gentlemen” com a gente, cumprimentou todos os membros da equipe, falamos da dificuldade que ele tinha na época de enfrentar o Rafael Nadal, que é considerado até hoje o maior adversário que ele tem na carreira dele, e do porquê o Nadal incomoda tanto. Ele disse que as bolas altas do Nadal na esquerda dele eram terríveis, e que os dois faziam com que o nível de jogo um do outro aumentasse muito. E a gente está falando dos maiores da história do tênis. Além dessa entrevista com o Federer, me marcou muito também a com o Nadal, que fiz na quadra central do Parque do Ibirapuera. As duas me marcaram muito por eu ser um fã de tênis e ter os dois como grandes ídolos no esporte.

E você fez algum ponto no Federer e no Nadal ou perdeu todos os games com zero no seu placar?

Joguei três games com o Federer e três com o Nadal. Perdi de 3 a 0 para o Federer e de 3 a 2 para o Nadal, mas com os dois jogando em um nível que não era profissional. Aquela oportunidade de entrevistá-los jogando com eles me gerou um desafio muito grande porque ali não tinha só um Ivan como pessoa se relacionando com eles. Havia pelo menos quatro Ivans: O Ivan pessoa, o Ivan jornalista, o Ivan fã e o Ivan jogador de tênis. O fã atrapalhou muito o jogador de tênis. O jogador de tênis estava muito nervoso no aquecimento e não conseguia passar uma bolinha na rede no aquecimento. O jogador de tênis tinha que ter o mínimo de contração para fazer com que o Ivan jornalista conseguisse fazer as perguntas que tinham que ser feitas no tempo que a gente tinha. E é uma situação que não acontece todos os dias, que a gente não está acostumado a lidar, você estar numa quadra com o maior de todos os tempos.

Você não aceitou o convite da Record para ser contratado na época da cobertura dos Jogos Pan-Americanos do ano passado. O que aconteceu na ocasião? A emissora chegou a anunciar a sua contratação.

Eu precisava de um tempo para respirar, para entender como a minha presença poderia ser aproveitada nesse mercado digital. Depois de eu ter ficado muito tempo dentro da TV Globo, eu só queria respirar um pouco e ter a liberdade de empreender, de gerar alguma coisa de acordo com aquilo que eu acreditava, de experimentar o mercado fora de uma corporação. Foi uma questão de “timing”. Eles queriam num tempo, e era exatamente esse tempo que eu queria me dar para entender como o mercado estava correndo por fora. Mas nada que impeça uma negociação futura. Eu não fecho a porta para nenhuma emissora. Está tudo em aberto. Mas eu estou muito feliz com as possibilidades que esse momento fora da TV têm me gerado.

Você também teve um convite da Band. Ele não te agradou?

A Band me chamou para fazer algo parecido com aquilo que eu fazia na Globo. E nesse momento, eu estou colocando a experimentação de conteúdo como prioridade. A TV já era algo que eu conhecia. Se eu aceitasse, eu iria repetir o que eu já fazia na Globo. Eu estou me propondo a fazer algo novo. Me permitindo esse tempo para fazer algo novo, para quem viveu uma carreira toda no mercado de TV.

Ficou alguma mágoa da Globo ou de alguém de lá?

As coisas aconteceram de uma maneira que eu não imaginava. Eu fui pego de surpresa e achei que as coisas não estavam mais sendo convergentes. E, a partir do momento em que as coisas não estavam mais sendo convergentes, eu optei por não dar continuidade. Mas eu tenho muita gratidão pelos dezenove anos em que eu fiquei lá e eu não posso esquecer esses dezenove anos por um momento final que não foi um momento de convergência. Existem alguns gestores que têm atitudes com as quais não concordo, mas isso não se transformou em mágoa ou ódio.

Em relação às imitações que você fez durante sua passagem pela TV – por exemplo a do Luxemburgo, Caio Ribeiro e Casagrande -, isso sempre fez parte de você? Você sempre imitou as pessoas ou passou a desenvolver isso depois que começou a trabalhar na TV?

Sempre fui imitador e sempre gostei de zoar. Você me conheceu lá, quando trabalhamos na Globo. Sempre achei que o trabalho tinha que ser um lugar em que deveria haver diversão, porque quando não tem diversão, isso se reflete no produto que você está entregando. Isso eu colocava em forma de apelidos nas pessoas com quem eu trabalhava. Por exemplo, o Felipe Diniz, jornalista do Globo Esporte. Eu que dei o apelido dele de Quati. Você, que eu apelidei de Andy Murray. Isso é um traço da minha personalidade, da minha característica.

Se você tivesse a oportunidade de voltar no tempo e conversar com o Ivan que estava entrando em jornalismo na Universidade de Londrina, o que você diria a ele?

Diria que vai ser difícil, mais do que você imagina, mas se você mantiver a persistência que você acredita que tem, você vai chegar lá. E quando você chegar lá, você vai ver que esse “chegar lá” não é um objetivo. Depois do “chegar lá”, sempre vai existir um próximo desafio, que cabe a você colocar toda a sua desobediência produtiva em prática, dar vazão aos seus sonhos e fazer aquilo que te faz bem, de acordo com seus propósitos. Então, continue sempre seguindo, porque hoje não existe um destino final. O mundo está passando por um momento de transformação.

Quais são seus planos futuros? Você pretende voltar para a TV?

Eu não descarto a volta, até porque eu fiquei vinte anos na TV Globo e eu sou um produto que surgiu na TV. O Ivan Moré é um comunicador de TV, é um produtor de conteúdo que veio da TV. Agora, eu me propus a migrar para o digital para perceber quais são os formatos que dão certo e de que forma eu posso gerar valor para a minha audiência e, consequentemente, passar a monetizar.

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