Mercado fechado

Itaú deve repensar a participação se estiver desconfortável, diz sócio da XP

ISABELA BOLZANI
***FOTO DE ARQUIVO*** FRANCA, SP, BRASIL, 15-05-2012: Fachada do banco Itaú no centro de Franca. No primeiro dia de vigência da lei, o Itaú descumpriu o horário de funcionamento das agências em Franca. As oito agências fecharam às 15 horas, uma hora antes do horário estabelecido, segundo a divisão de fiscalização da Secretaria de Obras da cidade. A lei prevê multa de R$ 4.000 por agência. ( Foto: Edson Silva/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O sócio diretor da XP, Gabriel Leal, afirmou nesta quinta-feira (25) que caso o Itaú esteja desconfortável ou insatisfeito com a atuação da XP no mercado, o banco deveria repensar o investimento que fez na corretora.

"Não sou sócio do Itaú, sou sócio da XP. Minha obrigação fiduciária é sempre entregar o que tem de melhor no mercado para os nossos clientes. E se o Itaú estiver desconfortável ou achar que [o negócio] não faz mais sentido, deveria repensar sua participação", afirmou Leal em entrevistas a jornalistas. O Itaú tem 49,9% da XP.

A rixa entre as instituições financeiras teve início com o lançamento da nova campanha de investimentos do Personnalité, braço de alta renda do Itaú.

Na propaganda, que começou a ser veiculada na terça-feira (23), o ator Marcos Veras aparece na tela em 2019, durante o período de euforia com a alta dos mercados financeiros, e em 2020, após a queda provocada pela pandemia.

"A moda aqui em 2019 é ter conta em corretora. Assessor [financeiro] também tá na moda. Insiste o tempo todo, 'investe nisso, investe naquilo, não tem risco'. Estou me sentido o rei de Wall Street", afirma o ator.

O investidor de 2020 afirma: "Aqui em 2020, deu para ver que não tinha risco para ele [assessor financeiro], que ganhava comissão por tipo de investimento. Ainda bem que você deixou seu dinheiro no Personnalité. São especialistas isentos. Aprendeu?"

Segundo o executivo da XP, a migração de recursos diários do Itaú Personnalité para a XP chega a R$ 150 milhões.

"Isso nada mais é do que uma empresa desesperada que não tem mais nenhum diferencial a explorar e não existe outra saída a não ser agredir seus competidores. É uma instituição que não tem proposta de valor para seus clientes. Se em três anos não mudar, é provável que o Personnalité nem exista mais", disse Leal.

A propaganda foi entendida por diversos agentes de mercado como uma afronta à ética e conduta profissional, e que dá a entender que a oferta de produtos por corretoras independentes e agentes autônomos de investimentos é feita com base no que esses profissionais ganhariam de rebate (comissão).

Segundo Carlos Constantini, diretor-executivo de serviços de gestão de patrimônio do Itaú, a campanha tem o intuito de reforçar pilares do banco, como a experiência de atuação no mercado e a chamada prateleira aberta (oferta de produtos de terceiros a clientes que investem pelo banco).

"O terceiro pilar é a isenção. Temos um ferramental com algoritmos e simulações que permitem a escolha da melhor carteira para o cliente sem nenhum viés", afirmou Constantini e acrescentou que a remuneração do profissional do banco que monta a carteira de investimentos não depende da escolha de produtos.

De acordo com o diretor do Itaú, os profissionais do banco são remunerados se levarem mais dinheiro à instituição e se o cliente estiver satisfeito com a performance e o aconselhamento de investimentos.

"Mas o mercado tem diferentes formas de remuneração e algumas delas carregam um conflito de interesse inerente. Se ao recomendar o produto A, o profissional ganha um valor e, ao recomendar o produto B, ganha outro, ele vai acabar pendendo para o gera receita maior. É uma verdade inconveniente, mas que precisa ser dita", afirmou Constantini em transmissão ao vivo promovida pelo Itaú Personnalité nesta quinta-feira (25).

O maior banco privado do país já havia informado, na quarta-feira (24), que a campanha tem como objetivo ressaltar seus atributos positivos e que acredita que "ética independe de modelo e há bons profissionais em todas as configurações, seja um agente autônomo ou um gerente do banco."

O banco também defendeu o anúncio e afirmou que a corretora também é uma concorrente.

Ainda na quarta-feira, a ABAAI (Associação Brasileira de Agentes Autônomos de Investimentos) também divulgou nota afirmando repudiar a propaganda veiculada pelo Itaú e que defende a transparência nas informações aos seus investidores.

Também em nota, a Ancord (associação das corretoras) afirmou que o papel dos agentes autônomos de investimento é fundamental para o crescimento da base de investidores no mercado de capitais e um elo vital entre investidores e produtos e serviços disponíveis.