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Itaú, Bradesco, BTG ganham com boom do private banking no Brasil

Cristiane Lucchesi, Sophie Alexander e Felipe Marques

(Bloomberg) -- A família Kaufman, no Brasil, levantou R$ 1,5 bilhão no início deste ano, quando a varejista de jóias Vivara abriu seu capital. Fortunas semelhantes foram parar nas mãos de famílias como as Trajano e Setúbal com os pagamentos recordes de dividendos pelos bancos e emissões de ações no nível mais alto desde 2010.

Os ricos estão ficando mais ricos na maior economia da América Latina, e os gestores de fortunas estão respondendo com um boom de contratações e consolidação do setor.

Mais de 2.400 brasileiros têm fortunas de pelo menos US$ 50 milhões, segundo o relatório de riqueza global do Credit Suisse, e pelo menos 59 são bilionários. O Itaú Unibanco Holding SA, que já era o maior no negócio de private banking local, aumentou sua participação de mercado para mais de 30%, de cerca de 25% em 2014. O banco com sede em São Paulo dobrou o tamanho de sua equipe de investimentos para o negócio nos últimos dois anos para cerca de 100 pessoas, de acordo com Luiz Severiano, chefe de private banking global. O Itaú tem cerca de 700 pessoas no wealth management, incluindo Miami e Zurique, segundo ele.

“Os clientes estão trazendo muito dinheiro”, disse Severiano em entrevista, acrescentando que taxas de juros baixas e perspectivas de mais cortes estão aumentando a demanda por aconselhamento de qualidade sobre investimentos.

Os ingressos líquidos de recursos no private banking do Itaú subiram para R$ 35 bilhões este ano até outubro, já superando o recorde de R$ 21,5 bilhões do ano passado. O Itaú administra R$ 480 bilhões em fortunas de toda a América Latina, a maioria de brasileiros, disse Severiano.

O UBS e o Credit Suisse aumentaram suas equipes de gestão de fortunas no Brasil em mais de 10% no ano passado e pretendem contratar mais. Em 2017, o UBS, com sede em Zurique, adquiriu o maior family office do Brasil, Consenso Investimentos Ltda., que possui 60 funcionários. O Credit Suisse cresceu no negócio depois de adquirir a Hedging-Griffo em 2006.

O Banco Bradesco SA assumiu o segundo lugar na gestão de patrimônio, passando o Credit Suisse, após a aquisição da unidade brasileira do HSBC Holdings Plc em 2016. Este ano, contratou 40 funcionários para a equipe de private banking no Brasil e adquiriu o BAC Florida Bank, que possui mais de US$ 2,2 bilhões em ativos e cerca de 10.000 clientes de alta renda.

“Poderemos fazer empréstimo imobiliário nos EUA, ajudando nossos clientes que desejam, por exemplo, adquirir um apartamento em Nova York”, disse Renato Ejnisman, chefe global de private banking do Bradesco. “Nosso grande balanço, relacionamentos de longo prazo e conhecimento dos empresários brasileiros funcionarão a nosso favor, pois clientes ricos estão tomando mais empréstimos com a baixa nas taxas de juros no Brasil e nos EUA.”

O total de fortunas sob gestão no mercado local do Brasil atingiu R$ 1,2 trilhão em setembro, 13% a mais do que em dezembro de 2018, segundo a Anbima, a associação do mercado de capitais. Os empréstimos a clientes ricos saltaram 6,8%, para R$ 37,5 bilhões.

Com suas novas contratações, o Bradesco possui cerca de 450 funcionários na área de private banking, com R$ 250 bilhões em fortunas sob gestão. Ejnisman disse que espera que isso cresça junto com a economia do Brasil e que mais empresas tragam liquidez aos seus donos por meio de ofertas públicas iniciais de ações.

“A maior fonte de novos clientes será quando a economia crescer e tivermos mais eventos de liquidez, como IPOs, e mais riqueza for criada”, disse ele.

O crescimento econômico do Brasil deve desacelerar para 1% este ano, ante 1,1% em 2018, segundo estimativas dos analistas compiladas pela Bloomberg. A oferta total de ações no Brasil quase triplicou para R$ 91 bilhões até agora este ano.

Os acionistas do Itaú se beneficiaram de um recorde de R$ 22,4 bilhões em dividendos distribuídos no início deste ano, e parte desse valor foi investido na área de private banking do banco.

No Banco BTG Pactual SA, o total de fortunas sob gestão dobrou nos últimos dois anos para R$ 160 bilhões até setembro. Os sócios do banco contribuíram, tendo levantado R$ 2,2 bilhões com a venda de participação em junho.

O BTG também está “tirando clientes de outros gestores de fortunas”, de acordo com Luiz Raphael Guinle, sócio da empresa sediada em São Paulo.

Com cerca de 200 funcionários no negócio, o BTG planeja aumentar sua equipe em até 30% em 2020, contratando banqueiros, planejadores de patrimônio e gestores de portfólio, disse Guinle, acrescentando que um novo escritório em Lisboa deverá abrir em breve.

O Bradesco e o Itaú também estão decidindo se abrirão negócios de private banking em Portugal, seguindo clientes brasileiros ricos que estão se mudando para lá em número cada vez maior. Severiano, no Itaú, disse que o banco possui cerca de 10% do mercado de gestão de fortunas para brasileiros fora do Brasil. O objetivo é atingir 30% e, eventualmente, se tornar líder de mercado, afirmou.

No Bradesco, são grandes as esperanças de que os ganhos continuem.

“Todo mundo está vendo que o Brasil pode finalmente ser o mercado para se estar”, disse Ejnisman.

Repórteres da matéria original: Cristiane Lucchesi em São Paulo, clucchesi5@bloomberg.net;Sophie Alexander San Francisco, salexander82@bloomberg.net;Felipe Marques em São Paulo, fmarques10@bloomberg.net

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