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Com dinheiro e incentivo, Israel se firma como centro de inovação

Tel Aviv, em Israel (Foto: Getty Images)

Por Matheus Mans

Espremido entre Egito e Jordânia, num terreno 10 vezes menor do que o estado do Paraná, Israel está passando por uma transformação tecnológica. Depois de fomentar empresas multinacionais e se tornar referência em agricultura em climas desfavoráveis, o País se torna competidor feroz pra abrigar um dos mais expressivos centros globais de inovação.

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Atualmente, Israel conta com mais de 6 mil startups espalhadas por seu território, de apenas 9 milhões de habitantes. Assim, além de ser o líder no ranking de startups per capita, o País também se destaca como disruptivo. É o 10º colocado no Índice Global de Inovação (IGI), ficando à frente de países como Coreia do Sul, China, Japão e França.

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Isso sem falar dos unicórnios que dali surgiram, como o Waze, vendido para o Google em 2013 por US$ 1,3 bilhão; e a Mobileye, comprada por mais de US$ 15 bilhões pela Intel.

“Israel está sempre em guerra, tem um clima desértico e enfrenta uma constante instabilidade política. No entanto, o governo soube enxergar potencial inovador para poder driblar os principais problemas do País”, contextualiza Jorge Pascualá, pesquisador de ecossistemas de inovação do Oriente-Médio. “É impressionante ver no que eles chegaram”.

Motivos do crescimento

Esse ecossistema, hoje considerado um dos mais ricos e promissores do mundo, não começou do nada. O desenvolvimento de tecnologias disruptivas iniciou há alguns anos, quando o governo começou a incentivar empresas a encontrarem maneiras de tornar o solo desértico do país hábil para conseguir desenvolver melhor as plantações em solo infértil.

Além disso, percebeu que tinha um capital humano poderoso, advindo das grandes corporações multinacionais que ali surgiram e do bom ensino de suas universidades.

“O grande diferencial de Israel, assim como dos Estados Unidos, é o fato de que governo, universidades, grandes empresas e empreendedores caminham para um mesmo lado”, afirma Carolina Bajarunas, consultora da Builders. “O dinheiro acaba indo parar no mesmo lugar, com o mesmo propósito. Não em diferentes iniciativas espalhadas em todo território”.

Hoje, há um capital abundante para startups vindo de diferentes lados. Em 2017, mais de US$ 5,2 bilhões foram investidos em empresas de tecnologia por fundos -- 84% deles, aliás, é estrangeiro. O governo israelense, enquanto isso, investe cerca de 4,2% do PIB em inovação, geralmente sem pedir nenhuma parcela da startup em troca. Apenas incentivo.

Já na área de educação, há o maior número de engenheiros e cientistas per capita -- são cerca de 135 engenheiros e 140 cientistas e técnicos a cada 1 mil empregados no País.

“Há um incentivo do governo e das universidades no desenvolvimento de startups”, diz Renato Ochman, vice-presidente da Câmara Brasil-Israel de Comércio. “Além disso, há uma noção cultural de empreendedorismo natural e é valorizada a tentativa em inovar. O empreendedor mais valorizado em Israel é aquele que teve startups que não deram certo”.

Por fim, o grande investimento na área militar também acaba transbordando para o empreendedorismo. As duas startups israelenses que se tornaram unicórnio, em 2019, são da área de segurança da informação: a Lightricks e a Monday produzem softwares que incrementam sistemas. Elas valem US$ 1 bilhão e US$ 1,9 bilhão, respectivamente.

“Em Israel, homens servem o exército por três anos; mulheres, um ano. E lá, uma das áreas mais disputadas é a de engenharia”, afirma Leandro Nunes de Castro, coordenador de Desenvolvimento e Inovação da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Há uma guerra tecnológica e essa experiência acaba sendo levada para o empreendedorismo local”.

Inspiração brasileira

E como levar esse ecossistema coeso, unido e potente para outros cenários, como o Brasil?

Primeiramente, Leandro Nunes de Castro, do Mackenzie, ressalta que há grandes diferenças entre os dois países. “A escassez gera criatividade. E Israel é um país escasso de recursos naturais, que acabou recorrendo ao empreendedorismo e à tecnologia para sobreviver”, disse. “O Brasil, enquanto isso, é rico em recursos. Precisa sair da caixinha”.

A troca de capital humano e de experiência entre as duas nações também deve ser valorizada. A Câmara Brasil-Israel de Comércio trabalha nesse sentido, levando empresários periodicamente para o país oriental. Mas Renato Ochman ressalta: “ainda falta um programa mais intenso de apoio para startups, não apenas no âmbito ‘universitário’”.

Mas o que é preciso, enfim, é que diversos setores dialoguem e entendem seus objetivos.

“O Brasil precisa deixar de lado a ideia de que setor privado é uma coisa e público é outra. Claro, cada um tem um objetivo e uma forma de encarar o mundo. Mas se eles conversarem, para não realizar apostas em coisas diferentes, as coisas fluem”, diz Jorge Pascualá, pesquisador. “Israel é uma escola de como o empreendedorismo muda um País”.