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Irmã de estudante morta por bala perdida diz que ela 'estava no melhor momento da vida'

Pedro Zuazo
·4 minuto de leitura
Lady Ane foi morta aos 34 anos
Lady Ane foi morta aos 34 anos

Aos 34 anos, Lady Ane Paulino Targino desfrutava do melhor momento da vida. Após ser aprovada em um concurso público na prefeitura de Maricá, no ano passado, ela comprou um carro e financiou um apartamento na planta, que seria entregue até o fim deste ano. Nascida e criada no Morro da Mineira, filha de pais semianalfabetos, a jovem superou todas as dificuldades e conquistou uma vaga na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela estava no último ano do curso e sonhava em prestar concurso para a área jurídica após se formar. A trajetória de Lady Ane, no entanto, foi interrompida por uma bala perdida.

A jovem estava fechando um trailer, no qual vendia churrasquinho para complementar a renda, na Rua Frei Caneca, próximo à Praça da Apoteose, quando foi atingida por um tiro na cabeça durante uma perseguição de policiais militares a um carro ocupado por suspeitos, na noite de quinta-feira.

Na mesma ação, outros dois inocentes foram feridos. Um homem identificado como Nilton, que estava no Túnel Martim de Sá, também foi baleado e levado para o Hospital municipal Souza Aguiar, no Centro. Outra pessoa foi ferida na Rua Catumbi e encaminhada para a mesma unidade de saúde. Um suspeito baleado também seguiu para o Souza Aguiar, onde permanece sob custódia.

Irmã de Lady Ane, Viviane Paulino Targino, de 35 anos, havia conversado com ela três horas antes da tragédia. Ela conta que a jovem comemorava um mês do novo negócio, o trailer de churrasquinho. Ela se revezava nas vendas com a namorada, Kenia Paixão, com quem tinha união estável, e um amigo.

— Ontem (quinta-feira) ela estava especialmente feliz. As mesas estavam todas ocupadas, na hora em que a gente chegou, e ela estava comemorando o sucesso. Ela serviu meu filho e me serviu. Três horas depois, aconteceu a tragédia — lembra Viviane, que é servidora da Defensoria Pública estadual do Rio de Janeiro.

Segundo a Polícia Militar, a perseguição começou após uma equipe do 4º BPM (São Cristóvão) flagrar um carro em atitude suspeita. Os agentes tentaram abordar o veículo, e o motorista atirou contra os policiais, que reagiram. A perseguição se estendeu até a Rua Frei Caneca, onde houve novo confronto. Lady Ane foi encontrada já morta. O local onde ela foi baleada foi periciado por policiais da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC).

Em nota, a PM informou que "um procedimento apuratório será instaurado para averiguar as circunstâncias da ocorrência".

O corpo foi sepultado às 16h, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. A UFRJ, em nota, se solidarizou com a família e amigos de Lady Ane. "Além da pandemia de COVID-19, ainda somos forçados a conviver com a dura violência no estado do Rio de Janeiro, deixando a população desabrigada do direito constitucional da segurança", diz um trecho da nota.

Nas redes sociais, um amigo de Lady Ane, Thiago Marreiro Tomaz, a descreveu como uma sonhadora e deixou uma mensagem emocionada: “Que continue brilhando, Lady, em paz, porque és um astro e continuarás nos aquecendo e iluminando sempre. Te amo”, escreveu ele em um post.

Pai de Lady Ane, o paraibano Antônio Targino chegou ao Rio aos 17 anos. Ele começou a trabalhar com obras, mas depois tornou-se porteiro de um prédio no qual trabalha há mais de 20 anos. Apesar de ser semianalfabeto, incentivou as filhas a estudarem. Viviane formou-se em moda. Lady Ane conseguiu uma bolsa integral para estudar Administração no IBMEC, mas trocou o curso pela faculdade de Letras, na UFRJ, que também acabou não concluindo. Por fim, encontrou no Direito sua vocação. Ela chegou a estagiar no Ministério Público.

Em agosto do ano passado, ela passou em um concurso para a prefeitura de Maricá, onde trabalhava como fiscal de postura e transporte da Secretaria municipal de Transporte.

— Quando ela passou para o concurso de Maricá, achamos que fosse ficar satisfeita. Mas ela queria mais. Queria dar uma vida melhor para o meu pai — conta a irmã.

Lady Ane morava com o pai no Morro da Mineira e comprou um apartamento no Catumbi com o objetivo de tirá-lo da comunidade. Antônio ainda não se havia refeito da dor de perder a esposa, Josefa Paulino, há quatro anos, após ser diagnosticada com um câncer no cérebro. No enterro de Lady Ane, ontem, o pai da jovem teve pressão alta e precisou ser amparado.

A Subsecretaria de Estado de Vitimados ofereceu atendimento social e psicológico à família de Lady Ane Paulino. A equipe psicossocial está em contato com parentes da vítima e vai acompanhar o enterro da jovem.

Segundo a Polícia Civil, agentes da DHC fazem diligências para localizar testemunhas e imagens de câmeras de vigilância que ajudem a identificar os demais envolvidos no tiroteio. Com relação ao suspeito baleado, a corporação esclareceu que ele, mesmo hospitalizado, foi autuado em flagrante na 5ª DP (Mem de Sá) por resistência, porte de arma, receptação e associação criminosa.