Irlandeses protestam contra medidas de austeridade do governo

Dublin, 24 nov (EFE).- Cerca de 20 mil pessoas saíram às ruas de Dublin, neste sábado, para protestar contra a política de austeridade do Governo irlandês e advertir que, após vários anos de duros ajustes, os cidadãos estão "fartos" e prontos "para brigar".

Essas palavras foram ditas por Kay Wilson, uma idosa de aparência frágil que, junto a outras companheiras da "Associação de Viúvas da Irlanda", participaram da manifestação aos gritos contra os cortes.

"Estamos aqui porque o Governo quer diminuir as previdências e eliminar benefícios, como a gratuidade do transporte, algo que não podemos permitir. Queremos que os cortes sejam aplicados para os ricos e que deixe em paz os mais vulneráveis. Se querem brigar, terão briga", assegurou à Efe a viúva de 76 anos com experiência em campanhas de resistência.

Sua organização já participou de outro protesto, neste ano, contra uma proposta do Executivo encaminhada para retirar o cartão de saúde dos maiores de 70 anos que superassem certas rendas, iniciativa que foi paralisada sob a pressão deste coletivo.

Este caso é um exemplo da maneira como os irlandeses se manifestam, muito ativos em pequenas campanhas para protestar sobre assuntos muito concretos, segundo explicou Tina McVeight, da "Campanha Contra os Impostos de habitação e a Água" (CAH&WT), um dos grupos organizadores da passeata de hoje.

No entanto, esta manifestação poderia servir "para canalizar toda a raiva acumulada" e "enviar uma clara mensagem" ao governo de coalizão entre conservadores e trabalhistas, que apresentará, no próximo dia 5 de dezembro, os orçamentos gerais de 2013, algo que devem implicar em "mais cortes e medidas de ajuste", assegurou a ativista.

Junto à CAH&WT, a manifestação foi convocada pelos grupos cidadãos "Amostra de Desafio e Esperança" (SDH), "Comunidades Contra os Cortes" (CAC) e o "Conselho de Sindicatos de Dublin" (DCTU), aos que se uniram também diversas associações cívicas vindas de diferentes pontos do país com reivindicações distintas.

Embora a presença policial tenha sido numerosa, a manifestação transcorreu pacificamente durante horas pelo centro da cidade, até acabar em frente ao Escritório Geral dos Correios, um dos edifícios mais emblemáticos da revolução irlandesa de 1916 contra a ocupação britânica.

Ali, o presidente do DCTU, Michael O'Reilly, recalcou que a sociedade irlandesa deu um primeiro passo para "obrigar o Governo a reverter sua política de austeridade", a qual qualificou de "fracasso econômico" e "catástrofe social".

Desde que a Irlanda solicitou em novembro de 2010 um resgate de 85 bilhões de euros à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional, seu cidadãos confiaram, em maior ou menor grau, no rumo marcado neste programa de ajuda ao Governo.

De fato, as inspeções internacionais certificaram a cada trimestre os progressos de Dublin para alcançar todos os objetivos fixados no resgate, o que transformou este país em um exemplo para os parceiros comunitários que, como a Alemanha, asseguram que as políticas de austeridade funcionam.

Segundo O'Reilly, a realidade é que é "impossível sair da recessão com base na austeridade", porque "com cada corte do gasto público e com cada euro que tiramos do bolso do trabalhador, estamos cavando nossa próprio túmulo".

"Nem nós e nem a economia podem permitir outro orçamento geral austero", insistiu o sindicalista em referência às contas para 2013 com as quais o Estado prevê economizar 3,5 bilhões de euros através de um corte do gasto público de 2,25 bilhões e da introdução de medidas fiscais com as quais espera arrecadar 1,25 bilhão de euros.

Seu discurso foi aplaudido por Tom Healy, diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas Nevin (NERI), que desfilou com outros colegas de profissão carregando um cartaz que dizia: "Economistas Contra os cortes".

"Cada vez há mais analistas que pensam que é impossível combinar as políticas de austeridade com as de crescimento. Com os cortes, secamos a economia, os negócios fecham e aumenta o desemprego. Nossas receitas fiscais caem e a fatura da seguridade social cresce", assinalou Healy.

Na sua opinião, o governo deveria centrar seus esforços em "investir dinheiro em projetos de criação de emprego, em ajudar o pequeno empresário e aumentar os impostos dos mais ricos". EFE

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