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Alimentos pressionam e IPCA termina 2020 com maior taxa em 4 anos, mas dentro da meta

Camila Moreira
·4 minuto de leitura
Feira no Rio de Janeiro

Por Camila Moreira

SÃO PAULO (Reuters) - A inflação oficial do Brasil encerrou 2020 dentro do limite da meta do governo, mas acima do centro do objetivo e com a maior taxa em quatro anos, sob forte pressão dos alimentos ao longo do ano passado.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) terminou 2020 com alta acumulada de 4,52%, contra 4,31% em 2019, de acordo com os dados divulgados nesta terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado mostra que a inflação ficou acima do centro da meta do governo, de 4%, mas dentro do intervalo de tolerência, já que a margem era de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.

Essa foi a maior taxa acumulada no ano desde 2016, quando o IPCA subiu 6,29%. Ainda assim, marcou o terceiro ano seguido dentro da banda, após em 2017 terminar ligeiramente abaixo do piso.

Para 2021, a meta de inflação estabelecida pelo governo é de 3,75%, também com margem de 1,5 ponto, e o ano começa com cautela em relação aos preços devido principalmente à desvalorização do real --somente neste início de 2021 a moeda brasileira já perde 5% ante o dólar.

Em dezembro, o IPCA registrou alta de 1,35%, terminando o ano com aceleração sobre o avanço de 0,89% de novembro. Esse é o resultado mensal mais elevado desde fevereiro de 2003 (1,57%) e o maior para um mês de dezembro desde 2002 (2,10%).

Os resultados ficaram acima das expectativas em pesquisa da Reuters com analistas de alta de 1,21% em dezembro, acumulando em 12 meses avanço de 4,38%.

ALIMENTOS

Em dezembro todos os grupos pesquisados tiveram alta, com destaque para o salto de 2,88% de Habitação, contra 0,44% em novembro. Isso porque os preços da energia elétrica subiram 9,34% no mês com a bandeira tarifária vermelha patamar 2.

Alimentação e bebidas registrou a segunda maior influência no último mês do ano, embora tenha desacelerando a alta a 1,74% em dezembro, de 2,54% no mês anterior.

Mas no ano foi exatamente Alimentação e Bebidas que provocou o maior impacto no índice ao disparar 14,09%, encerrando 2020 com a maior variação acumulada no ano desde 2002 (19,47%).

Na sequência vieram Habitação, com alta de 5,25%, e Artigos de residência, com avanço de 6,00%. De acordo com o IBGE, os três grupos responderam em conjunto por quase 84% do IPCA de 2020.

O único grupo a apresentar deflação em 2020 foi Vestuário, de 1,13%. "Por conta do isolamento social, as pessoas ficaram mais em casa, o que pode ter diminuído a demanda por roupas", disse o gerente da pesquisa, Pedro Kislanov.

A inflação de serviços, setor mais afetado pelas medidas de isolamento contra o coronavírus, alcançou em dezembro taxa de 0,83%, com os preços acumulando no ano alta de 1,73%, forte desaceleração sobre os 3,50% em 2019.

ÓLEO DE SOJA

O ano de 2020 começou com o cenário de preços fracos, intensificado pelas paralisações e isolamento para contenção do novo coronavírus.

Entretanto, em meados do ano os preços passaram a apresentar repique, com os alimentos entrando em destaque no final do ano em meio a exportações, fortalecimento do dólar, auxílio emergencial e também a flexibilização das medidas de isolamento.

"O câmbio mais pressionado nos últimos dias também pode pressionar um pouco o IPCA dos primeiros meses de 2021", destacou a XP em relatório Macro Watch.

As maiores variações mensais entre os alimentos foram registradas em dois períodos distintos --nos meses de março (1,13%) e abril (1,79%), logo após o início das medidas de isolamento social devido á pandemia de Covid-19; e de setembro a dezembro, com variações superiores a 1,70% nos quatro últimos meses do ano.

As principais contribuições para a alta no grupo vieram de óleo de soja (103,79%), arroz (76,01%), leite longa vida (26,93%), frutas (25,40%) e carnes (17,97%).

O Banco Central, cuja avaliação é de que os choques atuais ligados à inflação deverão ser passageiros, encerrou o ano de 2020 com a taxa básica de juros na mínima histórica de 2%. Mas destacou que, em função do quadro inflacionário, as condições para seu compromisso de não subir a Selic podem em breve não estar mais satisfeitas, ainda que isso não signifique que a taxa será mecanicamente elevada.

"O dado do mês apresenta diversos sinais de aumento de preocupação para o Banco Central, com especial destaque para avanço dos industriais subjacentes. Esperamos para janeiro arrefecimento por conta da alteração da bandeira tarifária de energia dentre outros. Por outro lado, a aceleração de industriais e a desvalorização recente do real sugere cautela", afirmou Felipe Sichel, estrategista-chefe do banco digital modalmais.

O BC projeta crescimento da economia de 3,8% em 2021, prevendo retomada mais lenta no mercado de trabalho e na volta à normalidade após as restrições impostas pela pandemia.