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IPCA cai em agosto, e inflação em 12 meses fica abaixo de 10%

*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 08-02-2019: Still Mercado. Calculadora de celular. (foto Gabriel Cabral/Folhapress)
*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 08-02-2019: Still Mercado. Calculadora de celular. (foto Gabriel Cabral/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Com a redução dos preços concentrada em combustíveis, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou deflação (queda) de 0,36% em agosto, informou nesta sexta-feira (9) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

É o segundo recuo consecutivo do índice oficial de inflação do país. A baixa havia sido mais intensa em julho, de 0,68%. Analistas projetavam queda de 0,40% em agosto, conforme a agência Bloomberg.

Com nova a trégua, o IPCA voltou a um dígito no acumulado de 12 meses. A alta atingiu 8,73% até agosto, após 10,07% até julho.

O acumulado estava acima de 10% desde setembro de 2021. Ou seja, nos 11 meses anteriores de divulgação –ou quase um ano.

Uma sequência tão longa não ocorria desde o intervalo de 2002 a 2003. À época, o índice permaneceu acima de 10% por 13 meses consecutivos, de novembro de 2002 a novembro de 2003.

Mesmo com a perda de força, o IPCA caminha para estourar a meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central) pelo segundo ano consecutivo. Em 2022, o centro da medida de referência é de 3,50%, com teto de 5%.

A carestia às vésperas das eleições pressiona o governo Jair Bolsonaro (PL), que teme os efeitos da perda do poder de compra dos brasileiros. Para tentar reduzir os danos, o governo aposta no corte de tributos.

Bolsonaro sancionou em 23 de junho a lei que definiu o teto para cobrança de ICMS (imposto estadual) sobre combustíveis, energia, transporte e telecomunicações.

Um dos reflexos foi a queda dos preços da gasolina, o subitem com maior peso na composição do IPCA. A Petrobras também passou a cortar os valores dos combustíveis nas refinarias com o alívio das cotações do petróleo no mercado internacional.

GASOLINA PUXA DEFLAÇÃO

Assim como já havia ocorrido em julho, o resultado do IPCA de agosto foi influenciado principalmente pela queda no grupo de transportes. Os preços desse segmento recuaram 3,37% e contribuíram com -0,72 ponto percentual no índice do mês.

A queda de transportes veio com a retração dos combustíveis (-10,82%). Em agosto, os quatro pesquisados tiveram deflação: gás veicular (-2,12%), óleo diesel (-3,76%), etanol (-8,67%) e gasolina (-11,64%).

A gasolina, sozinha, teve impacto de -0,67 ponto percentual no IPCA. Foi a principal contribuição individual para a deflação.

"Isso mostra o tamanho da distorção que a gasolina tem feito no índice como um todo, não fosse a gasolina, estaríamos vendo altas no indicador", avaliou André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, em relatório.

O grupo comunicação (-1,10%) também recuou, com impacto de -0,06 ponto percentual. A variação decorreu especialmente da baixa dos planos de telefonia fixa (-6,71%) e telefonia móvel (-2,67%).

Essa trégua pode estar associada ao teto de ICMS, indicou Pedro Kislanov, gerente da pesquisa do IPCA, em entrevista a jornalistas.

SAÚDE, ROUPAS E COMIDA EM ALTA

Os outros sete grupos pesquisados pelo IBGE, por outro lado, subiram em agosto. O destaque partiu de saúde e cuidados pessoais (1,31%), com contribuição de 0,17 ponto percentual.

O resultado do grupo veio no embalo da carestia de higiene pessoal (2,71%) e plano de saúde (1,13%). Produtos de higiene pessoal são impactados pelo aumento de custos com a carestia de insumos, sinalizou Kislanov.

A maior variação positiva entre os grupos foi de vestuário: 1,69%. Roupas femininas (1,92%), masculinas (1,84%) e calçados e acessórios (1,77%) foram as principais influências.

O grupo de alimentação e bebidas até desacelerou, mas continuou em alta. O avanço foi de 0,24% em agosto, após 1,30% em julho.

Produtos importantes na mesa das famílias registraram inflação, como frango em pedaços (2,87%), queijo (2,58%) e frutas (1,35%). Houve quedas, por outro lado, nos preços do tomate (-11,25%), da batata-inglesa (-10,07%) e do óleo de soja (-5,56%).

O IBGE ainda destacou a baixa de 1,78% no leite longa vida. O resultado ajudou a alimentação no domicílio a ficar perto da estabilidade (0,01%) em agosto.

"Nos últimos meses, os preços do leite subiram muito. Como estamos chegando ao fim do período de entressafra, que deve seguir até setembro ou outubro, isso pode melhorar a situação. Mas, no mês anterior, a alta do leite foi de 25,46%", ponderou Kislanov.

De acordo com ele, embora tenham recuado em agosto, os dados indicam que os preços do produto seguem altos.

Em 12 meses, o grupo alimentação e bebidas acumulou inflação de 13,43%. A variação só é inferior à alta de vestuário, que chegou a 17,44% em agosto.

Os transportes registram avanço de 7,62%, mesmo com o recente alívio dos combustíveis. Comunicação é o grupo com a menor alta em 12 meses: 2,26%.

PROJEÇÕES

A partir de medidas como o teto de ICMS, analistas reduziram projeções para a inflação no acumulado de 2022. A estimativa do mercado financeiro recuou para alta de 6,61%, conforme a mediana do boletim Focus, divulgado na segunda-feira (5) pelo BC.

Também na segunda, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que a "batalha" contra a inflação ainda "não está ganha".

Em uma tentativa de conter a carestia, o BC vem subindo os juros, o que joga contra a recuperação do consumo das famílias e encarece os investimentos produtivos das empresas.

Em agosto, o Copom (Comitê de Política Monetária) elevou a taxa básica (Selic) para 13,75%. O colegiado volta a se reunir nos dias 20 e 21 de setembro.

Ao longo da pandemia, a disparada de preços atingiu produtos básicos, como alimentos e bebidas. A situação afeta sobretudo os mais pobres, que têm menos condições de lidar com a carestia. Com a pressão inflacionária, brasileiros substituíram marcas ou até cortaram do cardápio mercadorias como carne e leite.

A divulgação desta sexta é a última do IPCA antes do primeiro turno das eleições, agendado para 2 de outubro. Os dados da inflação de setembro serão conhecidos em 11 de outubro.

Em relatório, Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter, sublinhou que a deflação de agosto foi puxada pelos combustíveis e também teve contribuição da desaceleração de alimentos para consumo em casa. Essa é "uma boa notícia" para as famílias de baixa renda, disse a economista.

Por outro lado, segundo ela, o processo de desinflação deve ser lento, e ainda está cedo para o BC discutir queda de juros. Vitoria projeta IPCA próximo de 0% em setembro.