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Investidores seguem cautelosos e Ibovespa opera em queda; dólar avança

Ana Carolina Neira, Marcelo Osakabe e Victor Rezende

Caso EUA-Irã permanece no radar dos agentes assim como o movimento dos preços do petróleo Apesar da expectativa de que o Ibovespa teria um pregão mais positivo hoje, após duas sessões em baixa e conforme os investidores assimilam os efeitos da tensão no Oriente Médio, o índice continuou em queda nesta terça-feira.

Às 14 horas, o Ibovespa perdia 0,60%, aos 116.171 pontos, na mesma direção que os índices americanos Dow Jones e S&P 500. O giro financeiro também está dentro do esperado para este horário e soma R$ 5,7 bilhões até agora, o que pode indicar que os investidores seguem cautelosos, mas sem indícios de euforia e movimentos mais acentuados em busca de proteção.

Na avaliação de Enrico Cozzolino, analista de investimentos do banco Daycoval, são a especulação e a incerteza as responsáveis por manter os mercados globais ainda em queda. "É muito difícil prever o que acontece neste tipo de situação e ainda não vimos gestos efetivos de avanço do conflito nem de algum arrefecimento. Então o mercado opera em cima desta incerteza", diz.

O Pentágono afirmou na segunda-feira que planeja enviar bombardeiros B-52 e tropas adicionais ao Oriente Médio, mas os mercados parecem adotar uma abordagem de esperar para ver o desdobramento dos fatos.

As quedas do setor bancário continuam a pressionar o índice, com Banco do Brasil ON (-1,17%), Bradesco (-1,53% a ON e -1,79% a PN), Itaú Unibanco PN (-1,62%) e as units do Santander (-0,61%), assim como a Petrobras (-1,57% a ON e -0,84% a PN). A estatal é monitorada de perto pelos investidores, que buscam entender quais os efeitos da recente alta no preço do petróleo no valor dos combustíveis e como o governo federal resolverá a situação.

"A questão do preço do combustível é algo que sempre assombra o mercado desde a greve dos caminhoneiros e por isso vimos essa volatilidade do ativo desde sexta-feira, que não necessariamente acompanha os preços do petróleo de imediato. Enquanto houver dúvidas sobre a condução da questão, o papel sofre mesmo", afirma Cozzolino, que reforça que existe um esforço do governo federal em não deixar a "situação desandar", o que frustraria os investidores.

Porém, diante da continuidade das discussões em torno do conflito entre Estados Unidos e Irã, é possível que o preço do petróleo siga oscilando fortemente e afetando as ações da Petrobras.

A maior queda do índice é Qualicorp ON (-2,98%), que passa por uma realização após acumular ganhos de 8,76% em uma semana e de 14,79% em um mês.

Entre as maiores altas, os destaques são Cemig PN (3,45%) e Marfrig ON (2,48%).

As ações da Cemig reagem ao esforço para vender sua participação na Taesa, um total de 21,68% em uma oferta que poderá render R$ 2,3 bilhões à estatal. O negócio é bem visto pelo mercado.

Em relatório, a XP Investimentos afirma que vê a iniciativa como potencialmente positiva para a Cemig, mas destaca que a eficácia pode ser menor do que o esperado caso o governo de Minas Gerais não obtenha autorização do processo de privatização do Congresso. Assim, a XP mantém recomendação "neutra" para o papel, com preço-alvo de R$16 por ação.

Já a Marfrig, além de figurar entre as maiores altas do dia, também traz um giro financeiro forte. O avanço acontece após o Santander divulgar relatório recomendando a compra do ativo, com preço-alvo passando de R$ 12 para R$ 16. Entre as razões indicadas para o aumento de recomendação estão o fluxo de caixa melhorado e o perfil de dívida da Marfrig.

Câmbio

O enfraquecimento do rali do petróleo tira força das divisas associadas a commodities neste pregão, levando o dólar a se fortalecer contra praticamente todo o complexo emergente. O Brasil não foge à regra e o dólar comercial avançava 0,54%, aos R$ 4,0840, por volta das 14 horas.

Embora os mercados tenham descontado boa parte da surpresa inicial com o ataque dos EUA que matou um general iraniano na sexta-feira, ainda resta saber quais serão os próximos passos da crise, diz Victor Beyruti, economista da Guide. “Para os mercados, no entanto, é bom que o risco seja de uma retaliação apenas econômica e não uma guerra em si”, diz o profissional.

Na visão de analistas do Brown Brothers Harriman (BBH), o clima no Golfo Pérsico permanece frágil. “A situação deve manter os mercados inquietos, tornando qualquer rali de ativos de risco algo muito difícil de sustentar”, diz o banco americano, lembrando que EUA enviaram três navios com mais de 2 mil fuzileiros navais para a região, que se somarão aos 3,5 mil soldados enviados na semana passada.

Juros

O cenário externo continuou a ditar o rumo dos negócios no mercado de juros futuros nesta terça-feira e as taxas se ajustaram em alta, especialmente nos contratos de longo prazo, em linha com o comportamento do dólar ante o real e outras moedas de mercados emergentes. Números de inflação abaixo do esperado, porém, tiveram influência nas taxas curtas, com os agentes à espera de novos dados econômicos que comprovem a retomada da atividade no Brasil no fim de 2019.

Por volta de 14h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 passava de 4,53% no ajuste anterior para 4,50%; a do DI para janeiro de 2022 ia de 5,29% para 5,25%; a do contrato para janeiro de 2023 recuava de 5,82% para 5,80% e a do DI para janeiro de 2025 estava a 6,46%.

Neste início de tarde, a moeda americana ultrapassou a marca simbólica de R$ 4,09, em linha com o movimento internacional. As tensões entre Estados Unidos e Irã após o ataque que matou o general iraniano Qassem Soleimani. Nesta manhã, autoridades iranianas disseram que têm 13 cenários possíveis para retaliar os americanos.

Os desdobramentos das tensões entre Estados Unidos e Irã levaram o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, a dizer ontem que não recebeu “nenhuma pressão” em relação à política de preços da estatal. Como alternativa para baratear os combustíveis, o presidente Jair Bolsonaro defendeu a cobrança do ICMS nas refinarias, mas reconheceu a dificuldade de compensar os estados, cuja situação econômica atual já é apertada.

“Penso que é uma ideia razoável para limitar o aumento dos preços”, afirma José Raymundo Faria Junior, sócio e diretor da Wagner Investimentos. Para ele, a medida teria pouco impacto fiscal e, por isso, é apenas monitorada pelos investidores. Assim, Faria Junior também credita ao dólar e ao mercado internacional o avanço das taxas futuras nesta terça-feira.

Nesta manhã, a Fipe informou que a inflação na cidade de São Paulo ficou em 0,94% em dezembro, o que mostra uma aceleração em relação a novembro (+0,68%), mas uma perda de fôlego na comparação com a terceira leitura do mês passado (+1,14%). No ano, o IPC-Fipe ficou em 4,40%. Os dados oficiais de inflação de dezembro e de todo o ano de 2019 serão conhecidos na sexta-feira.