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Investidores internacionais não querem vir para Brasil por conta de questões ambientais, diz cofundador da Natura

BRUNA NARCIZO
·9 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dos primeiros empresários brasileiros a defender e a implantar uma agenda ambientalmente correta, Guilherme Leal, cofundador da Natura e copresidente do conselho de administração da empresa, está preocupado com o Brasil. Conta que a imagem do país no exterior está em franca deterioração em diferentes frentes, especialmente na questão ambiental, e já representa uma ameaça para negócios e investimentos no Brasil. “Investidores internacionais estão dizendo que não querem vir para cá por conta das questões ambientais. Parceiros comerciais estão com uma série de ruídos. E existe um risco disso chegar em consumidores, e aí não tem quem controle”, afirma. Segundo Leal, a resposta do governo de Jair Bolsonaro para o desmatamento da Amazônia, alvo das maiores críticas internacionais, tem ficado abaixo das expectativas. Como exemplo cita a resposta dada ao manifesto que empresários entregaram ao vice-presidente Hamilton Mourão. “As realizações estão deixando muito a dever. Se algo foi feito, tudo indica que é insuficiente para enfrentar o problema mais imediato que é o desmatamento ilegal”, diz. Nesta quinta (22) e sexta-feira (23) ocorre a Cúpula do Clima, com participação de Bolsonaro –seu maior desafio na arena internacional. Na área ambiental, Bolsonaro é visto por lideranças internacionais como um chefe de Estado descompromissado com a preservação do ambiente, adversário de povos indígenas e obstáculo para a proteção da Amazônia. No que se refere à pandemia, Leal qualifica como “indecente” que empresas possam vacinar funcionários quando faltam vacinas para a população. Candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva, pelo Partido Verde, durante campanha presidencial de 2010, ele recomenda cautela aos empresários que buscam uma terceira via para a campanha de 2022. “Se for uma terceira via da elites, do pibão, vai tomar de lavada nas urnas”. * Pergunta - Pelas críticas que ouvimos, a imagem do Brasil no exterior não é boa. Qual é a sua percepção? Guilherme Leal - As pessoas tentam ser educadas, mas há um espanto e uma frustração com o Brasil. Juntando questões relacionadas com pandemia, as econômicas e a ambiental, nessas três pautas, o Brasil não está nada bem. Também chama a atenção questões como democracia e diplomacia. O Brasil tinha uma reputação de país amigável, pacífico, um ator de colaboração no cenário mundial, com uma diplomacia de excelente qualidade. No governo Fernando Henrique Cardoso e no primeiro mandato de Lula, parecia que o Brasil ia decolar. Eu, como liderança empresarial, sempre senti uma simpatia, uma boa vontade, quase que uma torcida: o Brasil era visto como liderança, o país do futuro que nunca chega, mas o país do futuro. Está perdendo tudo isso. Na América Latina, onde sempre foi visto com uma referência, está perdendo o protagonismo. Na questão ambiental, a Colômbia está assumindo essa posição. A perda do capital reputacional é grande e difícil de ser mensurada. Tudo isso provoca uma erosão da imagem do país e da nossa capacidade enquanto sociedade. Temos que desenvolver esforços para que isso melhore. Existe algum movimento para tentar descolar a imagem do governo brasileiro da imagem de empresários e empresas? GL - Não sei se descolar é o melhor termo. O governo brasileiro é o governo eleito, limitado pelos outros Poderes, e a sociedade é mais ampla e complexa do que o governo. Acho, sim, importante que lideranças empresariais, sociais e culturais possam falar como veem a questão climática, seus desafios e oportunidades, por exemplo. Governos vêm e vão e a sociedade fica. O Brasil precisa olhar para frente e dizer o que quer fazer. A agenda climática está aí. Existem conversas e pontes sendo criadas? Sim. Não é contra governo nenhum, mas a favor das sociedades dialogarem mais. Os Estados Unidos e o Brasil são as duas maiores nações da América, é necessário que tenhamos diálogos mais ricos, não apenas o oficial. Que tipo de diálogos? Gl - A concertação pela Amazônia é um processo de estímulo ao diálogo que reúne lideranças empresariais e políticas. Há mais de ano que a gente conversa. Temos diálogo. No Brasil e fora. E os investidores internacionais estão dizendo que não querem vir para cá por conta das questões ambientais. Parceiros comerciais estão com uma série de ruídos. E existe um risco disso chegar em consumidores, e aí não tem quem controle. Isso preocupa, obviamente, a todas as lideranças empresariais ligadas a diferentes setores de negócio, porque precisamos mudar essa direção. O mundo articulado está dizendo que é pra valer [a agenda climática] e o Brasil, que tem protagonismo desde sempre, está na contramão da história. É importante que as lideranças se manifestem, o Brasil não é só governo. Tem governo. Democracia é diálogo. É a primeira vez que existe a necessidade de uma interferência extragovernamental neste tema? GL - É a primeira vez que isso acontece como contenção de danos, como um momento em que negócios e investimentos estão ameaçados. Mas a gente tem um débito histórico e, em parte, se dá por falta de uma participação e discussão. Defendo que empresário é cidadão e que a democracia se constrói com participação. No caso da Amazônia, sabemos como reduzir o desmatamento, mas não sabemos como desenvolvê-la de maneira sustentável, levando prosperidade, reduzindo desigualdades. Isso é uma agenda da sociedade. Nunca como hoje foi tão necessário participar, mas essa participação faz falta há muito tempo. Nunca foi tão importante ter uma articulação entre diferentes grupos, para proteger minimamente e tentar construir pontes e soluções, que impeçam essa imagem tão deteriorada que o Brasil tem neste momento. Os seus negócios podem pagar um preço por isso. O governo costuma se defender ao dizer que a questão do desmonte ambiental na Amazônia é mais discurso. Concorda com a afirmação? GL - Não se trata de discurso olhar 4 mil km2 de desmatamento indo para 8 mil, 10 mil km2 por ano. Isso não é discurso, é dado real. Não tem como contestar. Existe um monte de indicadores que mostram que existe um fato concreto. O desmatamento ilegal tem evoluído de uma maneira assustadora e não se vê medidas concretas nem planos de desenvolvimento sendo criado para impedir isso. No ano passado, os empresários lançaram um manifesto e o enviaram ao vice-presidente da República, Hamilton Mourão. Como ficaram as medidas prometidas pelo governo? GL - As realizações estão deixando muito a dever. Se algo foi feito, tudo indica que é insuficiente para enfrentar o problema mais imediato que é o desmatamento ilegal. O governo brasileiro está devendo. Tem uma série de evidências como o desaparelhamento das instituições de controle, menor orçamento dos últimos 15 anos, e tantas outras coisas que sabemos. Sem contar os índices, que continuam a subir em cima de dois anos que já foram muito negativos. Nada indica que este ano vai mudar muito. O governo de Joe Biden pode mudar tudo isso? GL - A mudança na administração americana fez com que os três maiores blocos, União Europeia, China e EUA, estejam agora avançando nos seus compromissos com a agenda climática. Se o Brasil quiser persistir numa polícia de isolacionismo, não tem nada a ganhar. Tem que construir compromissos que o insiram nessa agenda. Não é só pedir dinheiro para combater o desmatamento. Sabemos como fazer isso e já fizemos com recursos próprios, mas temos muito mais investimentos a atrair ao longo de uma década em infraestrutura, ciência e tecnologia. Podemos atrair recursos se investirmos em uma economia de baixo carbono, por exemplo. Que contribuição podemos esperar do ESG [siga em inglês para melhores práticas ambientais, sociais e de governança, que passaram a ser cobradas institucionalmente]? GL - Sim. O ESG é parte da agenda global. A partir da revolução industrial, fomos tendo problemas ao longo do século. Lamento que tenha demorado tanto, mas celebro que lideranças empresariais, setor financeiro, os grandes investidores perceberam que temos um desafio comum, e que os negócios são parte central das soluções. Podemos ler o ESG como a percepção de que é preciso ser responsável e participar das soluções. Essa agenda vem crescendo nos últimos dois ou três anos. É o reconhecimento de algo óbvio, mas que eu celebro. E essa pressão, que recai sobre os mais diferentes setores, veio para ficar. Não é um modismo passageiro. Como o Brasil está lidando com a pandemia, na sua avaliação? GL - Tem uma série de agendas, que não estão diretamente conectadas, que ficam andando de lado hoje no país. A agenda econômica, por exemplo, está à deriva. Mas a verdade é que a pandemia precisa de uma atenção central. Porque a pandemia é dramática. Morrem 4.000 por dia. Isso a impõe como agenda central. Nada é mais importante. Uma observação que eu faria, para não ficar do lado muito deprê, é que, de fato, testemunho neste momento uma articulação de lideranças sociais, empresariais e culturais de uma maneira ampla, que eu não via há muito tempo. Não é contra o governo. É uma articulação para dizer que é comigo o problema. Isso é crescente e positivo. Não vejo outra forma de construir transformações efetivas sem isso. A sociedade está polarizada, mas mais e mais está tentando refletir sobre caminhos. Qual sua posição sobre compra de vacinas pelo setor privado? GL - Acho um absurdo furar fila porque a empresa é mais ou menos poderosa em relação a outras tantas empresas que não fazem isso. Não faz sentido nenhum. Depois que tiver vacina sobrando no mundo, é bem-vindo. E os empresários podem tentar desfazer o nó aqui ou ali. Agora, o empresário ter o direito de vacinar colaboradores e a família, eu acho indecente. Existe um grupo de grandes empresários se unindo para tentar uma terceira via com relação a Lula e Bolsonaro em 2022. Concorda com isso? GL - Se for uma terceira via da elites, do pibão, vai tomar de lavada nas urnas. Não é brincadeira. O Brasil tem que se conhecer mais e as próprias elites têm que se conhecer mais —mas acho que estão conscientes disso. É óbvio que existem lideranças que falam como alternativa do que está no poder. São alternativas que atraem? Não. Depende da visão de cada um, mas não atraem. * RAIO-X Guilherme Leal, 71, é co-fundador e co-presidente do conselho de administração da Natura &Co. Também é co-fundador da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura e da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS).