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Internet, tsunami de dados, poluição e mudanças climáticas. Como resolver isso?

Claudio Yuge

Quando estamos em casa curtindo um serviço de streaming, navegando em redes sociais ou simplesmente escutando música, não temos ideia de que também estejamos participando de uma cadeia de emissão de carbono tão grande quanto as fumaças que saem de escapamentos de carros ou de fábricas convencionais. Essa é uma questão bastante delicada e promete se agravar nos próximos anos, causando consequências sérias para o setor de tecnologia e a economia mundial.

Segundo um estudo de 2016 atualizado recentemente pelo site Climate Home News, especializado em analisar as mudanças climáticas do planeta, os bilhões de dispositivos que muitos de nós usamos diariamente devem ser responsáveis por 3,5% das emissões globais nos próximos dez anos e 14% até 2040. Isso resultaria na indústria usando aproximadamente 20% de toda a eletricidade do mundo até 2025 — e os países com maior consumo devem ser China, Índia e Estados Unidos.

O pesquisador sueco Anders Andrae, que trabalhou nos dados desse levantamento, acredita que a demanda de energia do setor aumentará de 200-300 terawatt-hora (TWh) de eletricidade por ano para algo entre 1,2 mil e 3 mil TWh em 2025. “A situação é alarmante. Temos um tsunami de dados se aproximando. Tudo o que pode ser, está sendo digitalizado. É uma tempestade perfeita. O 5G está chegando, o tráfego de IP [protocolo da Internet] é muito maior do que o estimado e todos os carros e máquinas, robôs e inteligência artificial estão sendo digitalizados, produzindo grandes quantidades de dados que são armazenados nos data centers", contabiliza.

A alta demanda de energia massiva para alimentar servidores e bancos de dados, além do que já consumimos para manter cada dispositivo e produto eletrônico funcionando ao nosso redor todos os dias, vem acelerando a mudança climática de uma maneira que pode ser irreversível muito em breve.

Impactos ambientais e econômicos

Imagem: Reprodução/Pixabay

Paul Barford, cientista da computação da Universidade de Wisconsin, que descobriu que a maior parte da infraestrutura costeira da Internet nos Estados Unidos está prestes a se afogar na próxima década, acredita que a internet ficará muito menos confiável. A falta de conexão e outros impactos provavelmente serão muito díspares, dependendo da geografia e da riqueza.

"Com países que não têm a escala de infraestrutura que desfrutamos nos Estados Unidos, a situação é potencialmente terrível”, diz Barford. Contudo, para as maiores empresas, os negócios continuarão inabaláveis. “O Google vai cair? A Amazon vai cair? Claro que não”, complementa. A projeção é que os próprios problemas de infraestrutura passem a se misturar com a crescente poluição e mudanças climática, causando um “combo” capaz de definir rupturas bruscas nos modelos de negócios.

Gary Cook, especialista em tecnologia da informação do Greenpeace, diz que as desigualdades financeiras vão definir o futuro do acesso à Internet. As gigantes encontrarão maneiras de fortalecer e proteger suas unidades e devem oferecer uma “web diferenciada”, oferecendo aos indivíduos mais ricos a capacidade de salvaguardar seus estilos de vida com acesso, pois o futuro breve indica maior dependência de conexão permanente, principalmente com a crescente chegada de aparelhos domésticos e acessórios inteligentes. "Os clientes com os meios necessários para pagar por serviços mais confiáveis ​​ainda os receberão. Haverá uma divisão mais ampla entre aqueles que poderão pagar por isso e aqueles que não”, diz.

Essas previsões concordam com um relatório recente entregue ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, que projeta uma próxima era do “Apartheid climático”, em que as pessoas com melhor situação financeira pagarão o que custar para escapar de regiões quentes, famintas e cheias de conflitos, enquanto o resto da população sofre.

O historiador Mike Davis previu tudo isso há uma década, em um ensaio de 2010 chamado Quem construirá a arca?. Ele alertou que um clima cada vez mais quente e instável aceleraria a divisão existente entre ricos e pobres. Os "passageiros de primeira classe" da Terra, como ele os chamava, investiriam em medidas seletivas de adaptação e proteção para se cercarem de "oásis verdes e fechados de afluência permanente em um planeta atingido".

“Era do streaming” acelera o consumo

Imagem: Reprodução/Investireoggi

A compactação de arquivos, o gerenciamento e transmissão de dados têm se tornado mais eficientes, e por isso será muito difícil conter o “tsunami de dados” que bilhões de novos usuários desencadearão. "Estamos vivendo uma era de ouro de dados baratos, e as pessoas só começam a economizar algo, com água, quando pensam que há um limite de quanto elas podem usar", destaca Tom Greenwood, cofundador da agência digital Wholegrain Digital.

Serviços baseados em assinatura e publicidade vêm crescendo exponencialmente, e o carregamento de dados só vai aumentar com a expansão da rede sem fio 5G, contando com transmissões de vídeos 4K e 8K, jogos na nuvem e realidades virtual e aumentada. Tudo isso significa mais poluição.

Além disso, a cultura global e o comportamento dos usuários têm mudado a própria comunicação, o que também afeta esse cenário. Estamos falando mais por meio de vídeos, memes e animações. A maioria dos sites que usamos é repleta de players de vídeo, anúncios em banner, pop-ups e layouts elaborados. E tudo causa um excesso de dados e energia elétrica que nos pensar: realmente precisamos disso?

O modelo de site sustentável

Imagem: Reprodução/Low-Tech Magazine

Em um pequeno apartamento na cidade costeira espanhola de El Masnou, nos arredores de Barcelona, ​​Kris de Decker administra um site completamente alimentado por um pequeno painel solar montado em sua varanda. Com seu fundo azul claro e imagens de baixa resolução, o site Low-Tech Magazine é intencionalmente retrô — um retorno aos blogs e sites auto-hospedados que pipocaram na segunda metade da década de 1990.

Cada página de seu site usa apenas 0,77 megabytes de dados, tornando-a 50% mais enxuta que uma página da web comum. O Low-Tech Magazine também é estático, o que significa que ele vive inteiramente em seu servidor local alimentado por energia solar. Como resultado, é gerado apenas uma vez, exigindo menos poder de computação do que um site dinâmico gera novamente para cada visitante. Além disso, o site não roda anúncios e nem usa cookies. Mesmo se não fosse movido pelo painel solar, essas opções já tornam esse um modelo de “site ecológico”.

De acordo com a Wholegrain Digital, a quantidade de eletricidade para fazer o Low-Tech funcionar representa emissão de cerca de 0,24 grama de carbono por visualização da página. Um artigo em um endereço de web comum emite, em média, aproximadamente de 2,6 gramas de carbono — mais de dez vezes mais. Transmitir uma hora da Netflix por semana requer mais energia, anualmente, do que a produção de dois novos refrigeradores nesse mesmo tempo.

Obviamente, existem algumas desvantagens no modelo adotado pelo Low-Tech, além da lentidão de navegação. Um dia nublado em Barcelona pode forçar o site a ficar fora do ar. E como a pesquisa do Google prioriza sites mais rápidos e confiáveis, páginas como a de Decker sempre estariam relegadas às margens da web convencional.

Gigantes e governos precisam agir

No último ano, companhias como Apple, Google, Facebook e Amazon, assim como governantes em todo o mundo, vêm sendo bastante pressionados sobre o impacto do setor de tecnologia nas mudanças climáticas. Funcionários têm se organizado cada vez mais em protestos internos para que as empresas definam planos agressivos para conter a emissão de carbono, por exemplo.

Para acalmar os ânimos, Jeff Bezos, CEO da Amazon, até mesmo anunciou um fundo de US$ 10 bilhões na sua organização, a Bezos Earth Fund, que prevê financiamento para ONGs, cientistas, ativistas e "qualquer esforço que ofereça uma possibilidade real de ajudar a preservar e proteger o mundo natural". Bezos diz que as doações devem começar no final deste primeiro semestre.

Uma das frentes que pode diminuir o impacto é a promessa da Internet distribuída por satélite, algo que tanto Bezos quanto o CEO da SpaceX e Tesla, Elon Musk, vêm trabalhando há algum tempo, e a alegação da Microsoft de que revolucionará os datacenters, armazenando nossos arquivos no "DNA fabricado" — que poderia acomodar todas as informações atualmente salvas em um centro de banco de dados do tamanho de um armazém em um espaço aproximadamente do tamanho um dado de jogo de tabuleiro.

Uma opção mais realista no curto prazo pode vir na forma de novos programas de infraestrutura e regulamentação do setor. Atualmente, Bernie Sanders é o único candidato presidencial estadunidense nas primárias democratas de 2020 a reconhecer que a Internet é essencialmente uma utilidade que será muito afetada pela crise climática. Ele propõe "construir infraestrutura de banda larga resiliente, acessível e de propriedade pública" por meio de subsídios de infraestrutura no valor de US$ 150 bilhões.

A senadora democrata Elizabeth Warren também fez uma série de propostas que capacitariam os municípios, especificamente nas áreas rurais, a construir suas próprias redes públicas, em vez de depender de empresas privadas de telecomunicações e provedores de serviços de Internet. Ela recomendou a criação de um escritório federal de acesso à banda larga, que supervisionaria US $ 85 bilhões em doações às comunidades para assumir esses projetos de infraestrutura.

Internet deve ficar mais descentralizada

O futuro que já está acontecendo agora prevê a multiplicação de “internets locais”, que sejam sustentáveis — embora isso não signifique que a maioria seja ecologicamente correta. Em 2012, por exemplo, quando o furacão Sandy atingiu a sede do grupo Goldman Sachs, localizada em uma parte relativamente vulnerável do distrito financeiro da cidade de Nova York, a empresa foi protegida por milhares de seus próprios geradores de energia de reserva.

Alguns anos antes, Greta Byrum, especialista em comunicação digital que estava trabalhando com a fundação New America na época, lançou um programa piloto para construir um sistema de intranet local nos telhados das casas da região. Essas redes independentes de pequena escala são importantes porque "permitem que as pessoas mantenham contato com seus vizinhos, independentemente do que está acontecendo no mundo inteiro", destaca Greta.

Imagem: Reprodução/YouAgro

Xiaowei Wang, pesquisadora de tecnologia e ecologia, observa uma mudança acontecer na China rural. "A China tem uma enorme quantidade de controle estatal sobre a Internet e restrições muito rígidas sobre quem consegue publicar um site. A China rural é boa em subverter isso, criando uma subcultura que é muito antigovernamental. E eles estão fazendo isso em plataformas de transmissão ao vivo”, diz.

Ela acredita que lugares como a China rural oferecem um exemplo de "inovação rudimentar e uma Internet mais gratuita e mais descentralizada". Essa internet pode ser mais lenta, mas também seria mais orientada para a comunidade e heterogênea — uma infraestrutura que permite fazer escolhas sobre governança e design, com base em princípios de equidade e resiliência.

Projeções ou soluções à parte, certo é que o atual voraz consumo de Internet é insustentável. E, para que o cenário mude, as coisas precisam ser remodeladas — ou até reconstruídas.

Fonte: Canaltech

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