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Internet brasileira sentiu impacto do coronavírus, mas pior já passou, diz CGI

Foto: Getty Images

Não foi só a economia que sentiu o impacto das medidas de isolamento impostas pela pandemia do novo coronavírus no Brasil. Com mais gente em casa por mais tempo, a infraestrutura da internet também balançou, mas o risco de uma sobrecarga séria já foi superado.

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É o que garante um estudo feito pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (Nic.br), grupo de trabalho do Comitê Gestor da Internet (CGI). O levantamento aponta que, embora o tráfego tenha aumentado consideravelmente, a velocidade das conexões mudou pouco - em alguns casos, até aumentou.

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Através do IX.br, plataforma do CGI que monitora 33 pontos de troca de tráfego (PTTs) em todo o país, o estudo revelou que o pico de acessos à internet brasileira foi atingido em 23 de março, quando a rede registrou o tráfego de mais de 11 Terabits por segundo (Tbps).

Dias antes, em 18 de março, já havia sido registrado o tráfego de 10 Tbps. Os picos acompanham uma tendência de aumento geral: o tráfego agregado cresceu 60% em comparação com o mesmo período do ano passado, com um aumento de 43% em seis meses, e 25% nos três últimos.

Paralelamente ao aumento de tráfego, a insatisfação de usuários com suas conexões também cresceu. O número de reclamações feitas para a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) cresceu 32% na segunda metade de março.

Além disso, o número de vezes em que usuários acessaram ferramentas de medição de velocidade da internet - um indicativo de que estão insatisfeitos - também cresceu. Entre os dias 23 e 27 de março, o Sistema de Medição de Tráfego (Simet) do CGI fez mais de 20 mil medições por dia.

Gráfico: Relatório Influência da Covid-19 na Qualidade da Internet no Brasil (NIC.br, 2020)

Na plataforma SpeedTest, uma popular ferramenta de medição de velocidade da internet, mantida pela empresa norte-americana Ookla, o volume de brasileiros querendo checar a qualidade da própria conexão também cresceu. Na semana iniciada em 23 de março, o SpeedTest viu um aumento de quase 60% no volume de testes de velocidade só no Brasil.

O Measurement Lab, que oferece uma ferramenta de medição de velocidades embutida no buscador do Google, confirma a tendência. Na semana do dia 23 de março, a plataforma fez mais de 700 testes de velocidade por minuto na região de São Paulo, epicentro da pandemia de covid-19 no Brasil.

A internet ficou mais lenta?

Quando mais pessoas procuram saber a velocidade da própria internet, é sinal de que elas estão insatisfeitas. Mas os testes feitos por essas três plataformas - Simet, SpeedTest e Measurement Lab - indicam que a percepção dos usuários pode nem sempre coincidir com a realidade.

Aparentemente, a velocidade da internet não caiu tanto quanto as pessoas pensam, indica o estudo do CGI. O grupo analisou as taxas de download, upload e de latência registradas pelos testes do Simet e constatou que, em algumas regiões do país, a internet, na verdade, melhorou.

É o caso de São Paulo, onde houve um aumento das velocidades médias de download e upload desde o fim de março. Já na Bahia, houve um pequeno aumento de latência em provedores de grande porte. Em cinco estados, além do Distrito Federal, não houve qualquer mudança que fugisse ao normal na qualidade da internet.

O SpeedTest, da Ookla, por sua vez, viu uma leve queda de 2% na velocidade média da internet fixa do Brasil em março - variação considerada comum pela plataforma. Já a internet móvel ficou mais rápida: aumento de 5% na velocidade média das conexões de celular no mesmo período.

Velocidade da internet brasileira medida pelo SpeedTest: a linha verde representa a internet fixa, a linha púrpura representa a internet móvel. Gráfico: Ookla

O único registro que caminhou na direção contrária foi o do Measurement Lab. Segundo os teste de velocidade feitos pela plataforma, a taxa média de download no Brasil caiu de 4 para 2 megabits por segundo (Mbps) desde 23 de março.

O que explica, então, a impressão geral de que a velocidade da internet pirou? Milton Kaoru Kashiwakura, diretor de projetos especiais e de desenvolvimento do Nic.br, acredita que uma série de problemas locais, não relacionados à pandemia do coronavírus, podem ter contribuído.

"Em São Paulo, por exemplo, na extremidade da zona sul, a banda é baixa já naturalmente. O serviço que é prestado lá não oferece bandas altas. Quanto mais próximo da região da Berrini, centro, zona oeste, ali é melhor atendido. Essas reclamações podem vir das regiões mais afastadas", explica.

Além disso, Milton acredita que muitos usuários podem estar sentindo a internet mais lenta agora porque estão passando mais tempo e realizando mais tarefas quando conectados às suas redes domésticas - e nunca perceberam, antes, que ela é naturalmente mais lenta que a rede do trabalho, por exemplo.

Há risco de sobrecarga (apagão)?

Segundo o CGI, parte do estresse que a internet brasileira viu durante a pandemia se deve ao crescente número de transmissões ao vivo realizadas durante a quarentena em diversas plataformas e redes sociais.

Nessa categoria entram as lives de cantores populares - como a de Marília Mendonça, que em 9 de abril chegou a concentrar 3,2 milhões de dispositivos conectados simultaneamente - e chamadas de vídeo realizadas por escritórios em home office, parentes e amigos afastados pela quarentena - o que levou à popularidade do controverso aplicativo Zoom.

Mas mesmo com o avanço da pandemia e o aumento das medidas restritivas de circulação pelo Brasil como resposta, a infraestrutura de tráfego da internet suportou os picos de março "com folga", explica Milton: "A gente nunca chegou a ultrapassar a capacidade da metade [da infraestrutura]".

O que contribuiu para isso foi a decisão de provedores de conteúdo, como YouTube e Netflix, de limitar a velocidade do streaming. No início de abril, as duas plataformas diminuíram a qualidade máxima dos vídeos para o padrão HD (720p), o que ajudou a aliviar o estresse sobre a rede brasileira.

Com o pico já ultrapassado e o fim da quarentena no horizonte em muitas cidades e estados do Brasil, dá para dizer, segundo o CGI, que o risco de uma sobrecarga - ou até de um apagão - na internet brasileira ficou para trás.

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