Mercado fechado

Inteligência artificial invade o mundo das finanças

Por Véronique DUPONT
Um corretor da bolsa de Londres acompanha a evolução do mercado, em 10 de novembro de 2019

A inteligência artificial está entrando no mundo das finanças a toda velocidade, embora seus algoritmos, às vezes sem controle, possam causar instabilidade nos mercados.

Há dez anos que os algorítimos são usados nas chamadas transações de alta frequência na bolsa, com sistemas que automatizam certas operações, como "vender" se as ações chegam a certo nível, ou "comprar" se o banco central reduz suas taxas de juros.

Mas a inteligência artificial dá um passo a mais com seus sistemas de aprendizagem automático ('machine learning'), capazes de analisar milhões de dados para detectar tendências, correlações, previsões e que decidem sozinhos se compram ou vendem.

Segundo a consultora Greenwich, mais de 50% das empresas do mercado utilizarão sistemas de aprendizagem automático nos próximos dois anos.

Os fundos de investimento e os gestores de ativos os utilizam para diminuir o risco sobre o que comprar, quando fazer isso e para quais clientes.

Os bancos também utilizam a aprendizagem automática para detectar fraudes e ataques cibernéticos, fixar o preço de um produto ou analisar o perfil dos clientes atípicos na hora de conceder empréstimos.

Também é uma ferramenta para reduzir custos num contexto de taxas de juros negativas, que reduzem suas margens de negócio.

Os reguladores também usam inteligência artificial para detectar possíveis "eventos catastróficos nos mercados, como a onda de falências de 2008", diz a CFTC, a agência americana que regula os mercados de futuros e opções.

Por seu lado, o banco central do Reino Unido reconhece em um relatório que, embora o aprendizado automático não crie novos riscos, "pode amplificá-los".

Vasar Dhar, professor da Universidade Stern da NYU e gestor de um fundo especulativo, acredita que os sistemas automáticos são mais seguros do que os usados por seres humanos, mais expostos a pânico e efeitos de massa.

"Os humanos nem sempre tomam as melhores decisões ... A longo prazo, as máquinas se saem melhor", afirma.

Segundo o acadêmico, todos os sistemas de inteligência artificial são acompanhados por um ser humano para corrigir certos desvios e agir em caso de urgência.

"Quando todo mundo usa os mesmos algoritmos e adota as mesmas posições, o mercado pode ficar muito desequilibrado", admite Dhar.

A inteligência artificial também serve para evitar movimentos de pânico, ainda mais em um contexto de desinformação ('notícias falsas' ou 'fake news') que pode causar "movimentos de ações baseados em informações não confirmadas", diz Thierry Philipponnat, da associação Finance Watch.

Os profissionais de finanças ainda se lembram da quebra da bolsa de 2010 em Nova York, quando o índice Dow Jones perdeu mais de 9% em dez minutos.

Um evento que colocou em destaque as transações de alta frequência e os riscos de manipulação de mercado.

Em 2016, a libra perdeu 12% em dois minutos, causando enormes prejuízos para algumas empresas.

Mas um dos problemas do aprendizado automático é que os programas não conseguem explicar o "raciocínio" que os levou a tomar uma ou outra decisão.

Por isso o setor financeiro deseja que a inteligência artificial seja compreensível para clientes e órgãos reguladores e, ao mesmo tempo, os seres humanos permaneçam responsáveis.

Segundo Greenwich, como em outros setores da economia, "os empregos estão sendo suprimidos devido à automação, com profissionais veteranos em finanças atuando com papel reduzido ou substituídos" por máquinas.