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Instagram é acusado de apagar injustamente as contas de 1,3 mil atrizes pornô

Rafael Arbulu

Cerca de 1,3 mil atrizes de filmes adultos relataram o término de suas contas sem motivo aparente dentro do Instagram, de acordo com a Adult Performers Actors Guild (APAG), uma espécie de sindicato trabalhista para profissionais de filmes adultos nos EUA. Falando à BBC, a entidade acusou a rede social de propriedade do Facebook de agir sob duplos padrões, banindo atrizes pornô por supostas ações que influenciadores e atrizes tradicionais também executam, mas não sofrem nenhuma consequência.

De acordo com a APAG, a esmagadora maioria das contas foram deletadas sob justificativa de publicarem conteúdo que “violasse os padrões de comunidade da plataforma”, mesmo que o conteúdo em questão não mostrasse nenhum tipo de nudez ou fosse sexualmente explícito.

“Eu deveria poder modelar a minha conta no Instagram em inspiração à Sharon Stone ou qualquer outro perfil verificado, mas a realidade é que fazer isso faria com que eu fosse deletada”, disse a presidente da APAG, Alana Evans. “Eles [Instagram] nos discriminam porque não aprovam o que fazemos para viver”.



Evans não está sozinha nessa percepção. Falando ao The Next Web, a premiada diretora sueca de filmes adultos, Erika Lust, foi ainda mais longe, dizendo que o comportamento do Instagram age em favor da disseminação da misoginia. “Os ‘Dan Bilzerians’ do mundo são livres para continuarem mandando suas mensagens machistas de que mulheres são só um acessório para seus estilos de vida luxuosos. Quando Dan posta uma imagem usando uma mulher nua como mesa de suporte para o seu troféu, ele não é censurado”.

Lust refere-se ao post abaixo, postado pelo influenciador e herdeiro Dan Bilzerian, que ainda está no ar em sua conta oficial:

“Mas quando Rupi Kaur posta uma foto dela própria, completamente vestida, na cama, com uma manchinha de menstruação, ela é removida... que mensagem isso passa? Para mim, isso diz que nós vivemos em um mundo dominado por homens que não querem nenhuma mudança no status quo, onde a mídia permite a comodificação da mulher, mas mantém-se censurando seus corpos quando elas tomam propriedade deles”, comentou Lust. O que impede qualquer homem de fazer isso na vida real, se essa é a mensagem que a mídia social continua passando?”

A situação não se limita apenas às fotos, mas também ao conteúdo que lhes serve de legenda, como hashtags e o uso de emojis. Recentemente, o Instagram estabeleceu normas que impedem até o uso conotativo de emojis em contextos mais eróticos. Ademais, também não é mais permitido pela empresa postagens que levantem discussões sobre “preferências sexuais”, “papéis sexuais”, “nádegas” ou “seios”, entre outros termos. Há também casos de duplicidade de discurso: a hashtag "#menaretrash" ("homens são lixo", na tradução literal) tem seu uso proibido pelo Instagram. Entretanto, "#womenaretrash" ("Mulheres são lixo") ainda é pesquisável e tem postagens publicadas na rede.

No caso do cinema adulto, isso vai mais além: um caso recente é o de Carolina “Bloggeronpole” Hades, que viu diversos posts seus censurados e impedidos de aparecerem em resultados na busca do Instagram por conterem as hashtags “#poledancing” e “#femalefitness”. O Instagram voltou atrás e pediu desculpas à dançarina tempos depois, mas não sem antes ela movimentar ampla campanha a seu favor.

A dançarina de pole dancing e ativista digital Carolina "Bloggeronpole" Hades teve conteúdos de sua página removidos, sendo que não havia violação direta às políticas do Instagram (Captura de Imagem: Rafael Arbulu/Canaltech)

“As celebridades mantém suas imagens, mas nós sequer podemos postar um vídeo nosso malhando em um biquini”, disse Carolina à BBC. “Se você estiver usando o seu corpo de uma forma ou de outra, ainda que seja para educação ou para promover a positividade, você não mais poderá fazê-lo devido à forma com a qual as redes sociais são gerenciadas”.

Para muitos, a medida é prejudicial ao próprio Instagram, que se priva de discutir assuntos de grande importância e perde a oportunidade de ser um facilitador e apoiador de debates de alto interesse.

O Instagram não comentou o caso levado a público pela APAC.

Fonte: Canaltech

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