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Informalidade e recuperação lenta derrubam produtividade do trabalho

RICARDO BALTHAZAR
MARACANAÚ, CE, 15.03.2018 - Linha de produção da Delfa Bojos, que fornece material para a moda íntima, praia e fitness de todo o país (Foto: Marília Camelo/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A produtividade do trabalho está diminuindo no Brasil, três anos após o fim da prolongada recessão que fez a economia do país afundar entre 2014 e 2016, de acordo com um novo estudo feito por um grupo de economistas da Fundação Getulio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro.

O fenômeno destoa do padrão observado na saída de outras recessões no passado. Desde o início da década de 1980, ganhos acentuados de produtividade foram verificados depois que as crises ficaram para trás. Esta é a primeira vez que o contrário acontece, segundo os economistas.

Desde o início de 2017, quando a economia começou a se recuperar, só houve ganhos de produtividade nos dois primeiros trimestres após o fim da recessão. No resto do período, as estatísticas apontam crescimento próximo de zero ou queda de produtividade em todos os trimestres analisados.

Fatores que não se repetiram explicam os ganhos no início de 2017, afirma o economista Fernando Veloso, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, um dos autores do estudo. Eles foram puxados pelo desempenho da agropecuária, que colheu uma supersafra com ajuda do clima naquele ano.

Esgotado esse efeito, os ganhos de produtividade no país desapareceram. No ano passado, houve perdas em todos os trimestres, de acordo com os cálculos de Veloso e seus colegas Silvia Matos e Paulo Peruchetti, baseados em dados colhidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No último trimestre de 2015, a perda de produtividade da economia brasileira foi de 4,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, taxa negativa semelhante à observada no primeiro trimestre de 2009, quando o país ainda sofria os efeitos da crise financeira internacional deflagrada um ano antes.

No mais longo período de expansão econômica da história recente, de 2003 a 2013, houve crescimento da produtividade na maior parte do tempo, com exceção da breve interrupção provocada pela crise econômica mundial de 2008. No primeiro trimestre de 2010, o ganho de produtividade foi de 6,4%.

A perda nos últimos anos também reflete mudanças no mercado de trabalho, afirmam os economistas. A recessão que acabou em 2016 foi a primeira da história recente em que houve redução do pessoal ocupado, principalmente por causa da destruição de postos de trabalho no setor formal da economia.

Desde a retomada, é o setor informal que tem puxado a recuperação do mercado de trabalho, o que também ocorre pela primeira vez. "Isso criou oportunidades para muitas pessoas se recolocarem e atravessarem os anos mais duros da crise, mas não voltaremos a crescer com vigor assim", afirma Veloso.

Empresas do setor formal alcançam índices de produtividade quatro vezes maiores do que os observados no setor formal, estima o Ibre.

Em geral, elas têm mais acesso a crédito, empregam tecnologias mais sofisticadas e pagam melhores salários, o que contribui para tornar a economia mais dinâmica.

No setor informal, ocorre o contrário, e isso limita a capacidade de reação da economia na ausência de outros estímulos. "Houve um deslocamento da força de trabalho, inclusive de profissionais mais qualificados, para vagas que requerem baixa qualificação no setor informal", afirma Veloso.

O aumento da informalidade contribuiu com mais da metade da queda de produtividade observada na economia brasileira desde 2014, de acordo com os cálculos dos economistas.

Em setores que empregam muita mão de obra, como a construção civil e os serviços de transporte, esse efeito foi mais acentuado.

Muitos trabalhadores que aproveitaram a crise para abrir negócio próprio ou trabalhar como autônomos encontraram dificuldades, observa Veloso.

"Muita gente optou por esse caminho como uma estratégia de sobrevivência, mas nem todo o mundo tem vocação para empreendedor", diz.

Na opinião do economista, a volta de um padrão de crescimento mais vigoroso, com aumento da produtividade e da renda do trabalho, depende de reformas que incentivem setores mais dinâmicos da economia, para que voltem a gerar postos de trabalho que requeiram profissionais mais qualificados.