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Inflação sem controle: por que está tão caro comer o básico no Brasil?

·9 min de leitura

Na semana que marca o Dia Mundial da Alimentação, o Yahoo Finanças inicia uma série de vídeos de receitas que trazem muito mais do que apenas um prato: trazem todo o ato político que há em comê-lo.

"Comer: Ato Político" é apresentada pelo chef e gastrólogo Zeh Barreto, que comanda a cozinha com receitas prática e dicas preciosas para você economizar e melhorar a qualidade da sua alimentação e bem-estar.

Com início nesta segunda-feira (18), o Yahoo vai publicar até sábado (23) seis episódios diários com os temas: Inflação dos alimentos; Vegetarianismo; Alimentos ultraprocessados; Dicas para evitar o desperdício; Como reduzir o delivery; e Como fazer o descarte correto.

Acompanhem!

Por Ethieny Karen e Thalya Godoy

"Certeza eu não tenho se vou ter comida todos os dias. Realmente dá medo da comida acabar antes do fim do mês. E as compras não dão para o mês todo porque tudo está muito caro, é arroz, carne, leite, verdura. Está muito difícil…"

O relato de Isabel Cristina ilustra as incertezas sobre a alimentação de cada dia de muitos brasileiros, especialmente neste período de pandemia. O volume e diversidade de comida no prato está rareando com a compra do mês cada vez mais cara.

Alimentos que são usados com frequência nas cozinhas dos brasileiros chegaram a ter aumento de 91,88% nos preços, como o caso do óleo de soja. O cenário, que lembra os anos 80 para quem viveu, traz de volta uma grande conhecida do brasileiro: a inflação.

Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP), outros alimentos também tiveram uma alta significativa em 2020, como o arroz (76%), batata (68%), tomate (53%), carnes (18%) sendo a proteína suína (30%), leite (17%), aves e ovos (15%) e pães (6,5%). Há mais de duas décadas não estava tão caro comer no Brasil.

Uma pesquisa do Datafolha entrevistou 3.667 brasileiros, em 190 municípios, entre 13 a 15 de setembro para saber sobre o consumo de alimentos neste ano.

Entre os entrevistados, 67% relatam terem reduzido a carne bovina; refrigerantes e sucos foram 51%, e lacticínios, como leite, queijo e iogurte foram diminuídos entre 46% da população. Frango, porco e outros tipos de carnes caíram 39%. Nem mesmo o Exército brasileiro deixou de ser afetado pela oscilação no preço dos alimentos, para se ter ideia do impacto disso no cotidiano.

O ovo, visto como uma proteína substituta mais barata diante das concorrentes bovina, suína e de frango, ganhou mais espaço na dieta neste ano, com crescimento de 50% no consumo.

Os alimentos que apresentaram maior estabilidade são os clássicos do prato brasileiro. O arroz, com 41%, e, logo em seguida, o feijão, com 40% dos entrevistados que relataram não terem mudado o consumo.

Segundo estimativas da FGV, em abril de 2021, 27,7 milhões de brasileiros (12,98%) estavam abaixo da linha da pobreza, com renda de R$ 261 mensais (US$ 49). Em 2019, o número era de 23,1 milhões de pobres (10,97%).

Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP), outros alimentos também tiveram uma alta significativa em 2020, como o arroz (76%), batata (68%), tomate (53%), carnes (18%) sendo a proteína suína (30%), leite (17%), aves e ovos (15%) e pães (6,5%). (Yahoo Notícias)
Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP), outros alimentos também tiveram uma alta significativa em 2020, como o arroz (76%), batata (68%), tomate (53%), carnes (18%) sendo a proteína suína (30%), leite (17%), aves e ovos (15%) e pães (6,5%). (Yahoo Notícias)

Daniela Farias, moradora da zona oeste de Salvador, capital da Bahia, é mãe de seis filhos e relata a dificuldade em comprar alimentos básicos.

“Tem meses que eu não compro uma carne vermelha. Ultimamente, nem frango consigo comprar. Compro este steak [frango ultraprocessado] porque estava na promoção, igual os ovos e salsichas”, conta.

Quando trabalhava Daniela, gastava, em média, R$ 700 com as compras mensais do mercado, mas desde que se encontra desempregada tem tido dificuldade para gastar metade deste valor quando vai às compras. 

O aumento no preços dos alimentos impossibilita Daniela inclusive de procurar emprego, uma vez que não sobra dinheiro para comprar comida e pagar o transporte para se deslocar até a uma agência de emprego. Daniela precisa escolher entre os dois: comer ou procurar trabalho.

A falta de alimentação adequada é um problema para a saúde de adultos e crianças, como explica a nutricionista Mayana Silva. “Uma alimentação restrita em apenas arroz e feijão tem uma quantidade bacana de carboidratos e proteína, só que não vai ter vitaminas, minerais e lipídios. Isso que vai fazer nosso corpo ficar em deficiência”.

Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), de agosto deste ano, apontam que o custo médio da cesta básica subiu em 13 das 17 capitais analisadas. As mais caras estão em Porto Alegre (RS), com o valor de R$ 664,67, e em Florianópolis, ao custo de R$ 659.

As mais baratas foram a de Aracaju, avaliada a R$ 456,40 e em Salvador, a R$ 485,44.

Na capital gaúcha, o salário mínimo para uma família composta por dois adultos e duas crianças deveria ter sido equivalente a R$ 5.583,90, o que corresponde a 5,08 vezes o piso nacional vigente, de R$ 1.100,00.

A pesquisa do Dieese ainda revela que o valor da cesta básica consome até 65% do salário mínimo líquido, ou seja, quando descontado o valor referente à Previdência Social (7,5%).

[UNVERIFIED CONTENT] 3/4/2013- sao jose dos campos/sp/vale do paraiba - o governo federal distribuiu hoje pela manha 1700 cestas básicas para os moradores da ex ocupacao do PINHEIRINHO. a entrega foi feita em conjunto com a associacao dos moradores do pinheirinho. photo nilton cardin
Segundo dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), coletados em agosto de 2021, o custo médio da cesta básica subiu em 13 das 17 capitais estudadas. (Foto: Nilton Cardin/Getty Images)

Pessoas de menor renda são mais afetadas pela inflação

A inflação dos alimentos foi mais severa especialmente com os mais pobres. A avaliação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - responsável por medir a inflação referente ao consumo das famílias, aponta que o custo de vida da classe de renda alta subiu 3% em 2020, enquanto a classe pobre sofreu com o dobro, 6%. A classe média registrou 4%.

Em 2021, o cenário se repete, castigando as pessoas com menos renda. A inflação para este grupo ficou acima de 9%; a classe média com 8%, e atrás as famílias com renda alta, entre 6 a 7%, diz o Ipea.

O IPCA geral fechou em 2020 com avanço de 4,52%, maior taxa desde 2016. A inflação dos alimentos, em especial, foi três vezes maior, com 14,1%.

O que explica a alta da inflação?

O cenário de alta da inflação está ligado às mudanças nos padrões de consumo associadas à pandemia, o timing e o montante alto da transferência pública de renda (auxílio emergencial), os desarranjos das cadeias produtivas, problemas climáticos, a elevação dos preços internacionais das commodities e, principalmente, a disparada do dólar, explica o coordenador científico do Cepea, Geraldo Barros.

Vitor Benites tem 21 anos e trabalha como web designer. Durante a pandemia, ele sentiu o seu poder de compra diminuir. Carnes, óleos e alimentos supérfluos foram os principais alimentos que cortou da lista na ida ao supermercado e algumas medidas foram tomadas para que os alimentos durem mais.

“Agora eu faço a feira a cada duas semanas, evito o desperdício de alimentos, fazendo receitas que aproveitam partes como cascas de vegetais. Compro em quantidades menores e troquei os refrigerantes por sucos, e acabo comendo fora bem menos”, ele conta.

Ligia Soares, 25, é estudante e mora em Curitiba com o namorado. Ela comprava muitas frutas, verduras, grãos variados e carne, mas devido a alta de preço isso se tornou mais escasso. Durante a pandemia os pais de Ligia, que enviavam dinheiro para custear sua estadia em outra cidade, ficaram desempregados, o dinheiro foi diminuindo e ela teve que recorrer ao auxílio emergencial.

Agora ela busca os sacolões de Curitiba, onde compra frutas e verduras por preços bem baixos e assim pode ter uma alimentação mais nutritiva e balanceada. O namorado de Ligia, que trabalha, acaba comprando itens como carne de aves e alimentos mais caros uma vez ao mês, o que fez com que diminuíssem o consumo de proteína animal.

O que explica a instabilidade do mercado?

A insegurança sobre o comportamento imprevisível das instituiçõesenvolvendo os três poderes da República, e seus embates, tem aumentado o risco-país (medidor de instabilidade econômica) e afastado investidores internacionais, explica o coordenador científico do Cepea. Esse cenário explica, em parte, a forte valorização do dólar sobre o Real e a permanência no patamar elevado.

Brazilian President Jair Bolsonaro (L) speaks with his Finance Minister Paulo Guedes during the signing ceremony of the Provisional Measure that changes the rules for fuel trade, at Planalto Palace in Brasilia, on August 11, 2021. - Bolsonaro questioned once again the reliability of the upcoming elections in Brazil, a day after Congress rejected a proposal to alter the electronic voting system that he criticizes, and added that the bill was not approved because part of the lawmakers had been blackmailed, but did not give further details. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
A valorização do dólar afeta toda a cadeia de produtos importados e exportados, além de funcionar como um balizador dos reajustes de preços na economia em momentos de inceråteza (EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

Em janeiro de 2020, a moeda norte-americana estava avaliada a R$ 4, e terminou o ano em R$ 5,18, acumulando alta de 29,33% no ano. Há quem diga que pode chegar a R$ 6 ainda neste ano.

“O Cepea calculou que o efeito do dólar na explicação do choque não esperado de preços dos alimentos no Brasil, foi, em 2020, cinco vezes maior do que o dos preços das commodities”, afirma o pesquisador Barros.

A valorização do dólar afeta toda a cadeia de produtos importados e exportados, além de funcionar como um balizador dos reajustes de preços na economia em momentos de incerteza, afirma Barros. Também entram nessa conta os preços dos combustíveis que afetam, por conseguinte, o frete de todos os bens.

Outro setor que onera fortemente o consumidor de baixa renda é o de transporte urbano, devido ao custo da energia que tem como fonte petróleo e derivados, muito influenciado pelo dólar.

No setor de produção de alimentos, a alta do dólar em geral favorece o segmento exportador, refletido nos dados da balança comercial das exportações do agronegócio em 2020. O faturamento somou US$ 101 bilhões, crescimento de 4% na comparação com o ano anterior, enquanto o volume embarcado subiu 10%, ambos recordes na série histórica do Cepea.

O Brasil teve uma safra de grãos no ciclo 20/21 estimada em 252,3 milhões de toneladas, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Apesar do volume impressionante, o país sofre com uma forte alta no preço dos alimentos.

O economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcelo Kfoury, afirma que a valorização no preço das commodities foi sentida mundialmente e que os preços no mercado interno não dependem somente da produção brasileira.

“Houve um grande aumento da demanda mundial por alimentos, o que fez com que os preços subissem muito. Além disso, a desvalorização da moeda fez com que os preços dos alimentos aumentassem ainda mais. Desde o início da pandemia, em fevereiro de 2020, os preços das commodities agropecuárias subiram 60%”, explica o professor.

A previsão para os próximos meses sobre os valores dos alimentos não é muito otimista, segundo Kfoury. Os preços no mercado atacadista de produtos agrícolas continuam crescendo e para os próximos meses a expectativa é que permaneçam a subir.

soybean, wheat and corn seeds in Brazil
Apesar da impressionante safra estimada em 252,3 milhões de toneladas, o Brasil sofre com uma forte alta no preço dos alimentos em 2021. (Foto: Getty Images)
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