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Inflação sobe 0,59%, surpreende analistas e deixa para trás 3 meses de queda

***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 19.04.2022 - Movimentação de consumidores em feira livre no Largo do Machado, no Catete, zona sul do Rio. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 19.04.2022 - Movimentação de consumidores em feira livre no Largo do Machado, no Catete, zona sul do Rio. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Após três meses consecutivos de deflação, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) voltou a subir em outubro, informou nesta quinta-feira (10) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Puxado pelos alimentos, o indicador oficial de inflação do país teve alta de 0,59% no mês passado. A taxa ficou acima das projeções de analistas consultados pela agência Bloomberg, que esperavam avanço de 0,49%.

O novo resultado veio após quedas de 0,29% em setembro, de 0,36% em agosto e de 0,68% em julho.

Em 12 meses, o IPCA acumulou alta de 6,47% até outubro, a menor desde março de 2021 (6,10%). O acumulado estava em 7,17% até setembro deste ano.

Mesmo com o alívio em 12 meses, o IPCA caminha para estourar a meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central) pelo segundo ano consecutivo.

O mercado financeiro projeta alta de 5,63% até dezembro, conforme a mediana do boletim Focus divulgado na segunda (7) pelo BC. O centro da meta é de 3,50% em 2022. O teto é de 5%.

"A mensagem é que a inflação segue preocupando. O patamar segue alto", afirma Mirella Hirakawa, economista sênior da gestora AZ Quest.

ALIMENTOS VOLTAM A SUBIR

Dos 9 grupos de produtos e serviços do IPCA, 8 tiveram avanço em outubro. Os segmentos de alimentação e bebidas e de transportes, que haviam recuado 0,51% e 1,98% em setembro, voltaram a subir no mês passado. Isso ajudou a pressionar o IPCA.

O grupo dos alimentos avançou 0,72%. Assim, teve a maior contribuição para o índice de outubro, de 0,16 ponto percentual.

A alta foi puxada pela alimentação no domicílio (0,80%). O IBGE destacou os avanços da batata-inglesa (23,36%) e do tomate (17,63%). Também houve aumentos expressivos na cebola (9,31%) e nas frutas (3,56%).

Do lado das quedas, os destaques foram para o leite longa vida (-6,32%), que já havia recuado 13,71% em setembro, e o óleo de soja (-2,85%), que marcou a quinta redução consecutiva.

Pedro Kislanov, gerente da pesquisa do IPCA, lembrou que os alimentos vêm sendo pressionados neste ano por choques de oferta devido a efeitos do clima. "Você vê questões do campo influenciando", disse.

Segundo ele, também há o peso do aumento nos custos de produção após o início da Guerra da Ucrânia. Kislanov ainda mencionou que os preços da comida costumam subir na reta final do ano.

"Agora a gente começa a perceber o efeito sazonal, com aumento de chuvas, o que é bom para o leite, mas ruim para outros alimentos", apontou.

Depois de alimentação e bebidas, os principais impactos dos grupos vieram de saúde e cuidados pessoais (1,16%) e transportes (0,58%).

As contribuições foram de 0,15 ponto percentual e 0,12 ponto percentual, respectivamente. Os três segmentos responderam por cerca de 73% do IPCA de outubro.

Nos transportes, o recuo dos combustíveis (-1,27%) foi menos intenso do que no mês anterior (-8,50%). Gasolina (-1,56%), óleo diesel (-2,19%) e gás veicular (-1,21%) seguiram em queda, enquanto o etanol registrou alta de 1,34%.

Para tentar conter a inflação no ano eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro (PL) sancionou em junho o teto para cobrança de ICMS (tributo estadual) sobre combustíveis. A medida veio acompanhada pela redução dos preços praticados nas refinarias da Petrobras.

Em conjunto, os dois fatores levaram os combustíveis para baixo, o que puxou a deflação do IPCA às vésperas das eleições. A trégua nas bombas dos postos, contudo, agora dá sinais de perda de ímpeto.

Ainda em transportes, houve aumento expressivo nos preços das passagens aéreas de outubro (27,38%). Os bilhetes exerceram a maior contribuição individual no IPCA do mês passado (0,16 ponto percentual).

ROUPAS MAIS CARAS

A maior variação entre os grupos veio de vestuário. O ramo subiu 1,22% em outubro. Em 12 meses, acumula alta de 18,48%.

"Isso está relacionado com a retomada da demanda, no contexto de melhora da pandemia", disse Kislanov.

Custos de produção pressionados também tiveram influência na carestia das roupas, acrescentou o pesquisador.

Apenas o grupo comunicação teve queda de preços em outubro. A baixa foi de 0,48%.

De acordo com Mirella Hirakawa, da AZ Quest, a tendência é que o impacto da redução de ICMS, que também atingiu energia, transporte e telecomunicações, diminua até o final do ano. Assim, não há perspectiva de nova deflação em 2022, diz a analista.

O banco Original vê uma tendência de pressões inflacionárias vindas de alimentação e transportes, apontou relatório dos economistas Marco Caruso e Eduardo Vilarim.

Nesse sentido, a instituição sublinha que a gasolina está subindo nos postos, conforme pesquisa da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). A alta deve gerar reflexos na inflação de novembro.

Análises preliminares do Original sugerem IPCA de 0,47% em novembro e de 0,73% em dezembro. O banco projeta alta de 6% no acumulado do ano.

CENÁRIO PARA 2023

Durante a pandemia, a inflação elevada afetou produtos sensíveis ao bolso dos brasileiros mais pobres, como os alimentos. Isso serviu como munição para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu Bolsonaro no segundo turno das eleições.

Para 2023, a estimativa do boletim Focus sinaliza IPCA de 4,94%. O mercado ainda aguarda a montagem da equipe econômica de Lula para avaliar os possíveis rumos do novo governo a partir do próximo ano.

Na visão de analistas, um dos principais desafios petistas será conciliar responsabilidade fiscal com pagamento de benefícios sociais prometidos durante a campanha, incluindo a manutenção do valor mínimo de R$ 600 do Auxílio Brasil, que deve ser rebatizado como Bolsa Família.