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Inflação fecha 2022 em 5,79% e estoura meta pelo segundo ano consecutivo

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 09.06.2022 - Pesquisadora faz coleta de preços em supermercado para índices de inflação da FGV.  (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 09.06.2022 - Pesquisadora faz coleta de preços em supermercado para índices de inflação da FGV. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), fechou o ano de 2022 com alta acumulada de 5,79%, informou nesta terça-feira (10) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Com os cortes de impostos sobre combustíveis e energia elétrica, o IPCA perdeu força em relação a 2021, quando havia subido 10,06%.

Apesar da trégua, os preços seguem em um patamar elevado para o bolso dos brasileiros. Sinal disso é que o IPCA estourou pelo segundo ano consecutivo a meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central).

A variação também surpreendeu o mercado financeiro ao ficar acima das projeções. Analistas consultados pela agência Bloomberg esperavam acumulado de 5,60% em 2022.

O centro da meta de inflação era de 3,5% no ano passado, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima (5%) ou para baixo (2%).

Com o dado final acima dessa faixa, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, terá de escrever uma carta explicando o descumprimento da medida de referência.

Na variação de dezembro, o IPCA subiu 0,62%, depois da alta de 0,41% em novembro, conforme o IBGE.

Esse resultado também veio acima das estimativas. Analistas consultados pela Bloomberg projetavam variação de 0,44% em dezembro.

A devolução de parte dos descontos da Black Friday de novembro ajuda a explicar o resultado maior no último mês do ano, dizem economistas.

As projeções ainda sugerem uma inflação elevada em 2023, o que representa um desafio para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em um cenário de incertezas fiscais com possíveis gastos da gestão petista, instituições do mercado financeiro aumentaram as estimativas para o IPCA deste ano.

A alta prevista para o acumulado de 2023 subiu de 5,31% para 5,36%, conforme a edição mais recente do boletim Focus, divulgada pelo BC na segunda (9).

Se a projeção for confirmada, 2023 marcará o terceiro estouro consecutivo da meta de inflação. O centro da medida foi definido em 3,25% para este ano.

O intervalo de tolerância, novamente, é de 1,5 ponto percentual para mais (4,75%) ou para menos (1,75%).

O economista Luca Mercadante, da Rio Bravo Investimentos, avalia que o país atravessa um período de "inflação muito pressionada" e diz que a alta dos juros promovida pelo BC ainda não conseguiu controlar totalmente o avanço dos preços.

Recentemente, a Rio Bravo elevou a previsão para o IPCA de 2023, de 5,2% para 5,4%.

"A preocupação fiscal vai ganhando força. Faz com que as expectativas de inflação se deteriorem", afirma Mercadante.

Conforme o economista, a retomada da demanda por serviços, após as restrições na pandemia, é outro fator que desafia a trégua do IPCA neste ano.

ALIMENTOS SOBEM, GASOLINA CAI

A alta acumulada pelo índice oficial em 2022 (5,79%) foi puxada pelo grupo alimentação e bebidas, apontou o IBGE. O segmento subiu 11,64% no ano.

Com isso, teve o maior impacto no IPCA (2,41 pontos percentuais) entre os nove grupos pesquisados.

Marcos de Oliveira Julio, 38, precisou adaptar a rotina para lidar com a carestia. O morador da capital paulista reduziu o consumo de carne e substituiu produtos em busca de preços mais em conta no supermercado.

"A inflação vai acabando com os planos", afirma Julio, que trabalha como editor de vídeos e mora com a namorada desde fevereiro de 2022.

"Como colocamos tudo na ponta do lápis, iríamos pagar o aluguel e guardar parte do dinheiro para comprar um imóvel próprio. Mas esse dinheiro foi corroído", lamenta.

Por outro lado, o grupo dos transportes registrou a maior queda do IPCA em 2022 (-1,29%). O segmento teve o impacto negativo mais intenso entre os ramos pesquisados (-0,28 ponto percentual).

O recuo de transportes é explicado, em grande parte, pela gasolina, que caiu 25,78%. De forma individual, o produto foi o responsável pelo impacto negativo mais intenso (-1,70 ponto percentual) entre os 377 subitens do IPCA.

Os preços da gasolina caíram em decorrência das reduções nas refinarias e da aplicação da lei que limitou a cobrança de ICMS (imposto estadual) sobre os combustíveis.

Esse alívio tributário também afetou serviços como a energia elétrica residencial, que recuou 19,01% em 2022.

Em uma situação hipotética, se a gasolina e a energia elétrica fossem desconsideradas do cálculo do IPCA, o índice teria subido 9,56% no ano passado, e não 5,79%, conforme André Almeida, analista do IBGE.

A alta de alimentação e bebidas refletiu em grande parte a carestia da alimentação no domicílio (13,23%).

Os destaques foram a cebola, que saltou 130,14%, a maior variação entre os 377 subitens do IPCA, e o leite longa vida (26,18%). O leite contribuiu com o maior impacto (0,17 ponto percentual) entre os alimentos para consumo no domicílio.

Nos transportes, houve alta em emplacamento e licença (22,59%). Esse foi o subitem com a maior influência individual (0,49 ponto percentual) para o avanço do IPCA de 2022.

O IBGE destacou que a alta do IPVA deve-se sobretudo ao aumento nos preços dos automóveis em 2021, já que a cobrança é baseada no valor venal dos veículos no final do ano anterior.

Entre os grupos, vestuário foi aquele que registrou a variação de preços mais intensa: 18,02%. Foi a maior alta do segmento desde dezembro de 1994, segundo o IBGE.

"Quando a gente olha os dados fechados de 2022, vê que a inflação dos preços livres subiu bastante, mas foi parcialmente compensada por preços administrados no terreno negativo. A energia elétrica caiu, a gasolina caiu bastante", analisa a economista Júlia Passabom, do Itaú Unibanco.

Em 2023, o banco prevê IPCA de 5,7%. No curto prazo, há um viés de alta nas projeções em razão da surpresa com o resultado de dezembro e do avanço dos preços da gasolina neste início de ano, diz Passabom.

IPCA SUPEROU 12% AO LONGO DE 2022

Ao longo de 2022, o IPCA acumulado chegou a bater em 12,13% até abril. A perda de fôlego nas divulgações posteriores foi puxada pelos cortes tributários sobre produtos e serviços como combustíveis e energia elétrica.

Nesse contexto, o índice registrou três meses consecutivos de deflação (queda), de julho a setembro. O corte de tributos veio em meio aos planos de reeleição de Jair Bolsonaro (PL), que acabaram frustrados pela derrota para Lula nas urnas.

Enquanto isso, os preços dos alimentos seguiram pressionados com os efeitos do clima adverso e da Guerra da Ucrânia, que elevou as cotações de commodities agrícolas.

INPC FECHA 2022 EM 5,93%

O IBGE também informou nesta terça que o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) fechou 2022 com alta acumulada de 5,93%, abaixo de 2021 (10,16%).

O INPC é usado como referência para correção de aposentadorias e do salário mínimo. O indicador avalia os preços de bens e serviços com maior peso no consumo das famílias de renda menor (entre um e cinco salários mínimos).