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Inflação desacelera para 0,47% em maio, abaixo das projeções

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 27.04.2022 - Vista do supermercado Chama, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 27.04.2022 - Vista do supermercado Chama, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), desacelerou para 0,47% em maio, informou nesta quinta-feira (9) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A variação veio após três meses de altas superiores a 1% —avanços de 1,01% em fevereiro, 1,62% em março e 1,06% em abril.

O resultado de maio ficou abaixo das expectativas do mercado financeiro. Na mediana, analistas consultados pela agência Bloomberg projetavam variação de 0,6%.

Mesmo com o sinal de trégua, o IPCA segue em dois dígitos no acumulado de 12 meses. O avanço até maio foi de 11,73%. Nessa base de comparação, a alta havia sido de 12,13% até o mês anterior.

Para analistas, o novo resultado sinaliza que a inflação pode ter alcançado o pico anual em abril. Isso, porém, não elimina o cenário de preocupação com o IPCA. Pressões disseminadas sobre os preços ainda deixam analistas em alerta, já que dificultam a retomada do consumo no país.

"A leitura reforça nossa visão de que a inflação atingiu o pico, mas as medidas subjacentes permanecem bastante desfavoráveis", afirma o economista Daniel Karp, do Santander Brasil.

"Apesar da surpresa positiva do IPCA de maio, ainda estamos falando de uma inflação com qualitativo muito ruim", diz o economista Luis Menon, da gestora Garde.

OITO GRUPOS TÊM ALTA NO MÊS

Oito dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados tiveram avanço de preços em maio.

A maior variação veio do ramo de vestuário. A alta chegou a 2,11%, com 0,09 ponto percentual de contribuição no IPCA mensal.

Já o maior impacto entre os grupos, de 0,30 ponto percentual, foi do segmento de transportes. O grupo subiu 1,34%, menos do que em abril (1,91%).

A alta dos transportes foi puxada pelas passagens aéreas, que aceleraram para 18,33% em maio. O avanço havia sido de 9,48% no mês anterior.

Conforme o IBGE, as passagens aéreas responderam pelo maior impacto individual no IPCA do mês passado, de 0,08 ponto percentual. Foi a mesma contribuição dos produtos farmacêuticos, que subiram 2,51%.

Os produtos farmacêuticos integram o grupo saúde e cuidados pessoais. O ramo avançou 1,01%.

"A coleta das passagens aéreas é feita dois meses antes. Neste caso, os preços das passagens aéreas foram coletados em março para viagens que seriam realizadas em maio", explicou Pedro Kislanov, gerente do IPCA.

"A alta deve-se a dois fatores: elevação dos custos devido ao aumento nos preços dos combustíveis e pressão de demanda, com o aumento do consumo, após um período de demanda reprimida por serviços, especialmente aqueles prestados às famílias", acrescentou.

O IBGE lembrou que, em relação aos produtos farmacêuticos, foi autorizado em abril um reajuste de até 10,89% nos medicamentos. Esse aumento pode ter sido aplicado pelos varejistas de forma gradual, segundo o instituto.

COMBUSTÍVEIS E ALIMENTOS PERDEM FÔLEGO, ENERGIA CAI

Ainda dentro do grupo de transportes, os combustíveis (1%) desaceleraram em relação ao mês anterior (3,20%). A alta da gasolina passou de 2,48% em abril para 0,92% em maio. Houve ainda queda no etanol (-0,43%), que havia subido 8,44% na divulgação anterior.

O grupo de alimentos e bebidas, por sua vez, desacelerou após fortes pressões causadas pelo clima adverso no começo do ano. A alta foi de 0,48% em maio, depois de uma variação de 2,06% em abril.

Houve quedas em tomate (-23,72%), batata-inglesa (-3,94%) e cenoura (-24,07%). O trio vinha de fortes altas em meses anteriores, devido a restrições de oferta geradas por temporais ou seca em regiões produtoras.

Em maio, o único grupo a apresentar queda nos preços foi habitação: -1,70%. O resultado está relacionado ao recuo da energia elétrica (-7,95%) pelo segundo mês consecutivo. A mudança de bandeira tarifária em abril acabou com a cobrança adicional nas contas de luz.

PERCENTUAL DE ALTAS ACIMA DE 70%

O IBGE também informou que o chamado índice de difusão recuou pela primeira vez desde janeiro, mas segue acima do patamar de 70%.

O indicador mede o percentual de bens e serviços com alta de preços em uma amostra com 377 componentes.

Em maio, a difusão passou de 78% para 72%, impactada principalmente pela perda de fôlego dos alimentos.

"A difusão ainda é alta em 72%, apesar da queda em relação a abril", indica Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter.

A economista avalia que a inflação de serviços dá sinais de aceleração em meio à reabertura da economia e que a inércia inflacionária —reajuste de preços com base na inflação passada— "ainda é um risco".

Porém, Vitoria entende que o IPCA trouxe uma "surpresa positiva" na variação de maio e deve desacelerar para perto de 9% até o final do ano no recorte de 12 meses.

DISPARADA AO LONGO DA PANDEMIA

A escalada do IPCA ganhou forma ao longo da pandemia devido a uma combinação de fatores.

Entre eles, estão a escassez de insumos, a alta dos preços de alimentos e energia e o avanço do dólar em meio a turbulências políticas do país.

No primeiro semestre deste ano, houve o impacto adicional da Guerra da Ucrânia. O conflito provocou aumento do petróleo e de commodities agrícolas no mercado internacional, o que pressiona preços de combustíveis e comida no Brasil.

Para tentar conter o IPCA, o Copom (Comitê de Política Monetária), do BC (Banco Central), vem aumentando os juros, o que dificulta o consumo das famílias e encarece os investimentos produtivos de empresas.

A taxa básica de juros, a Selic, está em 12,75% ao ano. A próxima reunião do Copom, que definirá o novo patamar da taxa, está marcada para os dias 14 e 15 de junho.

"Apesar dos riscos no cenário, a leitura do IPCA confirma que o Copom deve dar mais uma alta na próxima reunião de 0,5 ponto percentual, mas deve encerrar o ciclo com a Selic em 13,25%", projeta Vitoria, do Inter.

O IPCA está em dois dígitos no acumulado de 12 meses desde setembro do ano passado. Assim, caminha para estourar a meta de inflação perseguida pelo BC pelo segundo ano consecutivo.

Em 2022, o centro da medida de referência é de 3,50%. O teto é de 5%.

"A gente parece ter deixado o pico de inflação para trás no acumulado, mas a perda de fôlego deve ser lenta. A inflação deve chegar a algo em torno de 8,5% ao final do ano, talvez um pouco acima, talvez um pouco abaixo", diz o economista Fábio Astrauskas, da consultoria Siegen.

"A expectativa é de um crescimento mais vagaroso dos preços, mais suave", acrescenta.

INPC SOBE 0,45% EM MAIO

Além do IPCA, o IBGE também divulgou o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) nesta quinta.

Em maio, o INPC teve alta de 0,45%, abaixo do avanço registrado no mês anterior (1,04%). Nos últimos 12 meses, a alta desacelerou para 11,90%, após a marca de 12,47% observada em abril.

O INPC concentra-se na inflação sentida pelos brasileiros com renda menor. O indicador reflete o avanço dos preços para famílias com rendimento entre um e cinco salários mínimos. Assim, serve de referência para correção de benefícios sociais e do salário mínimo.

PREOCUPAÇÃO PARA O GOVERNO

Com a proximidade das eleições, a escalada da inflação virou dor de cabeça para o presidente Jair Bolsonaro (PL). A carestia de itens como os combustíveis é vista por membros da campanha de Bolsonaro como principal obstáculo para a reeleição.

O presidente, incomodado com a situação, anunciou na segunda-feira (6) um pacote de medidas para tentar reduzir o preço dos combustíveis.

As iniciativas valeriam até o fim do ano, mas despertam incertezas em relação ao impacto fiscal e ainda dependem da aprovação do Congresso Nacional.

Na mediana, o mercado financeiro projeta IPCA de 8,89% até dezembro, de acordo com a edição mais recente do boletim Focus, divulgada na segunda-feira pelo BC.

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