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Indústria da moda vê aumento na demanda por calçados e bolsas veganas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A busca por produtos sem matéria-prima de origem animal tem seus reflexos também na indústria da moda, que vê crescer a demanda por bolsas e calçados veganos. São itens que, além do couro, dispensam qualquer detalhe em lã ou seda, por exemplo.

Criada em 2015, a Kasulo é uma marca vegana de São Paulo que já usou até "couro" de abacaxi em uma coleção. O carro-chefe da empresa é uma sandália feita com moletom e juta, fibra vegetal biodegradável, batizada de Kasulinho. Fundadora do negócio, a designer Fernanda Borges, 37, conta que a ideia foi criar modelos com design diferente, unindo conforto e baixo impacto ambiental.

"Tem [consumidor] vegano, tem aquele que se interessa pela questão ecológica e tem quem se identifica com a estética", diz Fernanda sobre o perfil de seu cliente.

Além de rejeitarem práticas de exploração animal, as marcas de calçados veganos têm um discurso de preservação do ambiente e não à toa os materiais reciclados estão entre os preferidos.

"Trocar couro animal por couro sintético, por exemplo, que é feito à base de plástico, contribui para outro problema ambiental", afirma Marcio Banfi, estilista e professor da faculdade Santa Marcelina. Na avaliação dele, hoje não é possível falar de moda sem pensar em sustentabilidade. "Estamos em uma situação complicada, basta pensar nas mudanças climáticas, e o consumidor tem pensado nisso."

A Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) diz não ter um levantamento de quantas empresas do setor se consideram veganas ou fabricam sapatos sem matéria-prima de origem animal, mas reconhece que o interesse do consumidor e do mercado é crescente.

"Existe uma demanda cada vez maior não somente por produtos veganos, mas sustentáveis de uma maneira geral. Toda semana recebemos questionamentos de players importantes em busca desse tipo de produto", afirma Haroldo Ferreira, presidente-executivo da entidade.

Segundo Ferreira, este é um fenômeno comercial que ocorre com ainda mais força no mercado internacional, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, onde o interesse por produtos veganos já está consolidado.

De acordo com a professora Francisca Dantas Mendes, coordenadora do núcleo de apoio à pesquisa em sustentabilidade têxtil e moda da USP (Universidade de São Paulo), empreendedores interessados no segmento de moda vegana devem investir em comunicação para se destacar. Explicar de onde vêm e para onde vão os materiais e detalhar o processo de produção são atitudes positivas e que aumentam o valor agregado do produto.

À frente da marca gaúcha de calçados veganos Urban Flowers, de Campo Bom (RS), os sócios Cecília Weiler, 26, e Patrick Lenz Martins, 29, encontraram na economia circular o caminho para crescer.

O conceito se baseia na ideia cíclica de transformação e renovação de materiais —emprego de energia renovável e logística reversa para reaproveitamento e descarte correto de resíduos são alguns pontos que fazem parte do modelo de produção que a marca diz ter adotado. "Acredito que esse é o modelo de negócio do futuro", afirma Cecília.

Criada em 2015, a empresa tem hoje dez funcionários e registrou faturamento de R$ 1,2 milhão no ano passado. Os calçados são produzidos com resíduos têxteis e fibras recicladas e alguns modelos têm sola de borracha reaproveitada. Já os cadarços são feitos de algodão.

Para Francisca Mendes, da USP, ainda que o investimento em pesquisa e inovação e demais custos de produção sejam altos, chegar a um valor que seja acessível para o consumidor final é um desafio que precisa ser encarado.

"Ser um produto verde não implica necessariamente preço elevado. Nem toda solução é cara, e o reaproveitamento de resíduos é uma alternativa."

Segundo dados do relatório Fios da Moda, publicado em 2021 pelo Instituto Modefica em parceria com a FGV (Fundação Getulio Vargas), somente na região do Brás, no centro de São Paulo, são coletadas 45 toneladas de lixo têxtil por dia. O bairro é conhecido por concentrar indústrias e lojas de confecção.

Presente no mercado desde 2014, a também gaúcha Insecta Shoes, marca vegana de calçados, roupas e acessórios, define sua causa e seus produtos como "ecosexy". Na confecção dos itens são usados desde algodão reciclado, tecido de reúso e roupas de brechó até garrafa PET reciclada —em um período de quatro anos, por exemplo, é possível transformar mais de 10 mil garrafas PET em calçados.

De acordo com Barbara Mattivy, 36, fundadora da marca, em 2021 a empresa cresceu 40% e registrou faturamento de quase R$ 5 milhões. "É um nicho que está crescendo."

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