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Indústria atinge ociosidade recorde e menores faturamento e horas trabalhadas em abril

ARTHUR CAGLIARI
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 17.10.2016 - Industrias Nucleares Brasileira. (Foto: Ricardo Borges/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A indústria brasileira conheceu seus piores números em abril deste ano com a paralisação da economia para conter a propagação do novo coronavírus.

Na relação com o mês de março, o setor teve seu menor faturamento, o mais baixo número de horas trabalhadas e também a maior ociosidade de toda a série histórica analisada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) desde 2003. Além disso, o emprego na área foi o menor desde 2004, ainda segundo a entidade.

"Como não temos dados anteriores, da década de 1970 e 1980, fica difícil fazer comparações, mas eu diria que é um dos piores resultados mensais. Na história recente não me lembro de algo tão sério como estamos vendo agora", disse Renato da Fonseca, gerente-executivo de pesquisa da CNI.

O faturamento do setor teve um recuo de 23,3% na relação abril e março deste ano e uma retração de 26,4%, na comparação com abril de 2019. Ambos os resultados foram os mais baixos da série histórica.

O mesmo recorde foi atingido pelas horas trabalhadas, cujas quedas foram de 19,4%, na compração entre março e abril, e 21,8%, na relação com o mesmo mês do ano passado.

Já a utilização da capacidade instalada da indústria caiu 6,6 pontos percentuais em abril, na relação com março, para 69,6%. Foi a primeira vez da série que o percentual ficou abaixo de 70%, indicando a maior ociosidade já atingida pelo setor.

O emprego no segmento também foi impactado, tendo um recuo de 2,3% na relação março e abril, na maior queda mensal da série neste recorte. Contra o mesmo mês do ano passado, a retração chegou a 4%, sendo o menor emprego da indústria desde 2004.

O rendimento médio real pago aos trabalhadores do setor caiu 6,6% em abril na comparação com o mês anterior. O especialista da CNI afirmou, no entanto, que essa queda é explicada também pelo aumento que havia sido registrado em março, devido às demissões e ao pagamento de verbas rescisórias.

"Em março ocorreram já muitas demissões e isso elevou os rendimentos pagos aos trabalhadores, mas tem que tomar cuidado para não confundir esse aumento como um ganho de rendimento. Isso daí ocorreu porque o empresário teve que demitir, pagar férias, rescisão e outras pendências. Agora em abril tem a diferença", disse.

Nesta terça-feira (9), dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostraram que a produção industrial recuou em 13 dos 15 locais em abril, mês em que o setor teve o pior desempenho da história, com queda de 18,8%.

Em São Paulo, a queda foi de 23,2%, também a maior da série histórica da pesquisa, iniciada em 2002. No mês, apenas Goiás e o Pará se salvaram do tombo, recuperando-se de um março ruim. O primeiro teve crescimento de 2,3% em abril, depois de recuo de 2,5% em março, puxado pela produção de alimentos e de produtos farmacêuticos. No segundo, a produção de minério levou a uma alta de 4,9%.

Com lojas fechadas desde o final de março, a indústria não vem recebendo encomendas e, por isso, reduziu a produção em diversos setores. Só vêm se salvando os setores relacionados a farmácias, alimentos e produtos de limpeza.

A CNI também divulgou que a crise causada pelo novo coronavírus fez com que o ganho de produtividade da indústria no país nos anos 2018 e 2019 fosse perdido.

O indicador da entidade para a produtividade do setor subiu de 107,7 para 108,6 pontos, em 2018 e, no ano seguinte, para 109,3 pontos. Apenas nos primeiros três meses de 2020, o índice recuou para 107,2 pontos.

Segundo a CNI, a produtividade perdida nos três primeiros meses poderia ser recuperada ao longo do ano, como ocorreu em 2018 com a paralisação dos caminhoneiros, mas a tendência é continuar caindo no segundo trimestre.