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Incertezas no Brasil e no exterior pesam e anulam alta do Ibovespa na semana

Juliana Machado

Perda de 0,52% foi puxada por sexta-feira conturbada pela guerra comercial e os reflexos da decisão que permitiu a saída do ex-presidente Lula da prisão A decisão que permitiu a saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva da cadeia nesta tarde se somou à menor demanda por ativos de risco no exterior e ajudou a derrubar o Ibovespa até a faixa dos 107 mil pontos, fazendo o índice anular tudo que havia ganhado na semana em que renovou recordes acima dos 109 mil pontos.

A preocupação dos gestores é em relação ao sentimento dos estrangeiros em termos de segurança jurídica, em um momento em que o Brasil disputa o interesse internacional na sua agenda de venda de ativos, concessões e privatizações.

No fim da sessão, o Ibovespa caiu 1,78%, aos 107.629 pontos, depois de tocar a mínima de 107.127 pontos, baixa de 2,24%. O volume financeiro ficou em R$ 15,3 bilhões, acima da média diária negociada nos pregões de 2019, de R$ 12,5 bilhões. Com a intensa baixa de hoje, o índice virou para o vermelho na semana e acumulou queda de 0,52%. O último recorde havia sido batido ontem, quando o Ibovespa encerrou nos 109.581 pontos.

Entre as perdas do dia, ficaram praticamente todos os ativos de peso e liquidez da bolsa, caso dos bancos Bradesco (-3% a ON -2,89% a PN), Itaú Unibanco (-1,49%) e Banco do Brasil (-1,41%), além de Petrobras (-1,61% a ON e -2,85% a PN) e Vale (-1,86%). Das 68 ações do índice, 40 acumularam queda na semana e só 27 subiram no período; uma ação (Itaúsa) ficou estável.

As eleições presidenciais no Brasil ainda estão distantes, em 2022, mas o efeito psicológico provocado pela saída de Lula da cadeia estimula investidores alocados em bolsa a se preocupar com as articulações políticas que poderão ser feitas pelo petista agora.

Além disso, dizem especialistas, há um temor grande em termos de segurança institucional, que pode afastar o estrangeiro em um momento em que o país disputa o interesse do capital internacional. Vale lembrar que esse interesse já foi testado — e falhou — nos dois megaleilões do pré-sal realizados na quarta e na quinta-feira.

Num ambiente já menos propenso à tomada de risco no exterior e com um mercado que já se valorizou bastante até aqui (o Ibovespa acumula avanço de 22,5% no ano), fica completo o cenário para as ações acentuarem as baixas. “A insegurança jurídica gerada passou a ser um fator relevante agora. Estamos iniciando um processo de venda de ativos via privatizações, concessões e leilões, e o que ocorreu no STF [Supremo Tribunal Federal] aumenta o fator de risco para o capital estrangeiro, que já está distante do Brasil”, afirma Fernando Barroso, diretor da asset da CM Capital Markets.

Ontem, o STF decidiu, por seis votos a cinco, que é inconstitucional a prisão após segunda instância. A prisão só poderá ocorrer após o trânsito em julgado, ou seja, quando esgotadas todas as instâncias de julgamento.

Cada juiz terá o poder de decidir, caso a caso, sobre a liberdade de presos a partir de agora e a medida já beneficiou Lula, que teve a soltura decretada pelo juiz titular da 12ª Vara de Execuções Penais de Curitiba, Danilo Pereira Júnior.

Lá fora, a notícia de que o acordo preliminar firmado entre EUA e China não está evoluindo conforme o esperado não chegou a atingir as bolsas americanas, mas reduziu a demanda por emergentes, mercados considerados mais arriscados, com queda das bolsas e alta do dólar contra divisas nesses países.

“Houve uma oposição do presidente Donald Trump às notícias que circularam, sobre um pacto comercial entre EUA e China. Concomitantemente, houve alta firme do mercado nos últimos dias, o que ajuda no movimento de correção. É a tempestade perfeita na visão tática de Brasil”, afirma Bruno Di Giacomo, sócio-fundador do escritório de gestão de patrimônio Blackbird Investimentos.