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Incertezas com fim de auxílio fomentam protestos contra restrições ao comércio

NICOLA PAMPLONA
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nesta segunda (28), trabalhadores de Angra dos Reis, no litoral sul do Rio de Janeiro, bloquearam o acesso à cidade em protesto contra restrições ao turismo na cidade. A cerca de 300 quilômetros dali, em Juiz de Fora (MG), houve ato em frente à prefeitura contra o fechamento do comércio. As mobilizações das duas cidades repetem movimentos já ocorridos em Búzios, também no litoral fluminense, e em Manaus, que conseguiram reverter a adoção de medidas restritivas à circulação de pessoas para tentar conter o repique de casos de Covid-19. A maior resistência ao distanciamento social e ao fechamento dos estabelecimentos ocorre dias antes do encerramento dos programas do governo que socorreram empresas e trabalhadores, como o auxílio emergencial. Na avaliação de especialistas, os sinais são que a falta de apoio de uma política pública, associada ao fechamento de lojas, bares e restaurantes, está fomentando o temor de que possa ocorrer uma piora no mercado de trabalho e na capacidade de compra do consumidor. "Há uma incerteza muito grande em relação ao ano que vem, com o fim do auxílio e a piora dos casos de Covid, e isso pode estar ajudando a fomentar esses casos extremos nos últimos dias", avalia Rodolpho Tobler economista da FGV-Ibre. "Sem socorro, muitas empresas não terão fôlego suficiente para fechar outra vez." Em Angra, o ato reuniu proprietários e trabalhadores do comércio e do turismo. Eles protestaram contra decreto da prefeitura que proíbe turistas de apenas um dia e reduz o horário de funcionamento de bares e restaurantes até o dia 12 de janeiro. Em Juiz de Fora, diante do aumento de casos, a prefeitura decidiu, na semana passada, regredir para a onda vermelha, que permite o funcionamento apenas do comércio essencial, entre sexta (25) e o dia 7 de janeiro. Presidente da CDL (Câmara dos Diretores Lojistas) local, o empresário Marcos Casarin fala em "caos total" se as restrições forem mantidas. "Se o poder público não der o oxigênio para as empresas, teremos outro problema, que será a quebradeira", diz ele. Casarin afirma que o protesto foi organizado pelos próprios lojistas, sem participação da CDL. "Muitas empresas contraíram empréstimos para pagar salário, e, não tendo venda, será um caos total." Nas duas cidades, como ocorre no restante do país, o número de casos vem crescendo nas últimas semanas. Em Angra dos Reis, a taxa de utilização de leitos está hoje em 80%. Em Juiz de Fora, passa de 90%. Sem o distanciamento para reduzir o contágio, a tendência é de lotação e incapacidade da estrutura hospitalar para atender os casos mais graves. Até esta segunda, as prefeituras de Angra e de Juiz de Fora permaneciam dispostas a manter as restrições, apesar dos protestos. Em Búzios, no primeiro grande protesto deste fim de ano, empresários e trabalhadores conseguiram reverter decisão judicial do dia 17 que fechava a cidade para turistas no período de festas de fim de ano. No Amazonas, o recuo veio apenas depois da segunda mobilização em uma semana. No domingo (27), o governo do estado anunciou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com representantes do comércio e dos serviços para reverter o fechamento de estabelecimentos não essenciais até o dia 11 de janeiro, conforme anunciado na terça-feira (23). O governo do Amazonas defendia que o fechamento era necessário diante do aumento da taxa de ocupação dos leitos de UTI no estado, que chegou a 85%. Ao anunciar o recuo, o governador Wilson Lima (PSC) disse que os setores beneficiados se comprometeram a ajudar na conscientização dos clientes. "As preocupações do governador são pertinentes, são realmente preocupantes, e a gente está com a nossa responsabilidade de atender à população, mas também de proteger a vida em todos esses momentos", disse, em nota, o presidente da Fecomércio do Amazonas, Anderson Frota. Além das incertezas geradas pelo fim dos auxílios, Tobler vê falhas na atuação dos governos locais, que poderiam ajudar a conter o repique com maior fiscalização sobre os serviços. "Uma fiscalização maior, ajudando a combater aglomerações e o espalhamento do vírus, deixaria as pessoas um pouco mais seguras", afirma. Ainda assim, o presidente da Fecomércio do Amazonas acredita que uma sinalização de segurança do governo federal poderia melhorar a confiança do empresário em relação ao futuro. "A primeira ação que o governo poderia tomar como política pública é acabar com a incerteza, divulgar um calendário de vacinação", afirma Anderson Frota. "Mas o governo tem que realmente começar a pensar que, se a piora dos casos for levar a um momento de fechamento de estabelecimentos, talvez seja o caso de estender os auxílios", acrescenta, ressaltando que a situação fiscal é um empecilho à decisão por eventuais novos benefícios. Resistente desde o início a medidas de distanciamento social, porém, a base de apoio do governo do presidente Jair Bolsonaro vem celebrando em redes sociais os protestos contra o aumento das restrições. "Primeiro Búzios e agora Manaus. Todo poder emana do povo", comentou, em rede social, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). A retomada da economia após o período mais duro da pandemia levou o comércio a bater recordes de vendas nos últimos meses, mas a situação é desigual entre os segmentos, com melhor desempenho daqueles ligados a bens essenciais ou produtos do lar, enquanto roupas, calçados e veículos ainda não recuperaram as perdas da pandemia do novo coronavírus. O nível de emprego no setor permanece 13,5% menor do que no mesmo período de 2019, em um indicativo de que, mesmo com a alta nas vendas, as lojas ainda não conseguiram repor os trabalhadores demitidos no pior momento da crise.