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Incerteza no setor financeiro do Reino Unido por futuro pós-Brexit

Véronique DUPONT
·3 minuto de leitura
Edifícios do bairro financeiro de Londres, Reino Unido, em 28 de dezembro de 2020

O Brexit já é uma realidade, mas o futuro dos serviços financeiros britânicos fora da União Europeia é incerto, com negociações bilaterais difíceis e o risco de perda de atividade neste setor importante do Reino Unido.

O acordo comercial pós-Brexit assinado no Natal entre Londres e Bruxelas "é apenas o começo, haverá meses" de discussões, disse à AFP Simon Gleeson, advogado do escritório Clifford Chance.

O acordo comercial entre Bruxelas e Londres, de mais de 1.200 páginas, faz pouca alusão ao setor financeiro, que movimenta cerca de 150 bilhões de libras por ano (165 bilhões de euros, 204 bilhões de dólares), muito mais do que o simbólico setor da pesca.

As duas partes estabeleceram como meta chegar a um acordo-quadro de cooperação em serviços financeiros até o final de março.

Fora da UE, a poderosa City já perdeu seu "passaporte", que oferecia acesso global ao mercado único europeu. A capacidade de fazer negócios na UE agora depende da obtenção de equivalências em áreas restritas e especializadas, facilmente revogáveis.

Há um total de 59 domínios de equivalência financeira. Londres já os concedeu a empresas financeiras europeias em muitas áreas, mas Bruxelas até agora concedeu apenas dois, incluindo compensação de derivativos.

É menos do que no acordo comercial entre a UE e o Japão, observa Clifford Chance, que prevê uma redução substancial no acesso aos mercados europeus.

Para os demais é preciso aguardar o status quo e a imprecisão até o final das negociações financeiras.

E a Comissão não parece ter pressa: examina neste momento 28 pedidos de equivalência, mas pediu informações adicionais.

Bruxelas quer que o Reino Unido se comprometa a manter um tipo de regulamentação financeira em linha com a europeia.

Isso, de acordo com Simon Gleeson, não representa um problema, porque a regulamentação financeira europeia é em grande parte obra dos britânicos.

Mas politicamente, o governo do primeiro-ministro Boris Johnson, que fez campanha pelo Brexit, terá dificuldade em aceitar essa condição.

E o dilema político envolve outro mais filosófico: o Reino Unido exige a possibilidade de um alinhamento sobre os "resultados", mas afirma poder alcançá-lo por meio de regras que não são necessariamente idênticas às da UE.

Bruxelas o vê como um cavalo de Troia que anunciaria o afrouxamento da regulamentação e uma concorrência desleal, embora o governo britânico repita incansavelmente que deseja manter altos padrões prudenciais.

Enquanto isso, as empresas britânicas do setor se prepararam para uma redução acentuada nas transações financeiras com a UE.

Realocaram pelo menos 7.500 empregos do Reino Unido para lugares como Paris, Frankfurt, Dublin ou Amsterdã. É muito menos do que se acreditava inicialmente, quando se temia perder 50.000 empregos na City. Além disso, movimentaram 1 trilhão de libras em ativos.

E embora o início do ano tenha corrido bem nos mercados de Londres ou da UE, as transações iniciadas na segunda-feira mostraram uma forte migração de ações europeias das plataformas britânicas para outras na Europa.

Ao mesmo tempo, vários bancos do Reino Unido já começaram a fechar algumas relações comerciais com clientes localizados na Europa, o que pode levar a litígios no futuro devido à incerteza jurídica.

A tendência deve se intensificar. "Mesmo que as equivalências sejam estabelecidas, os mercados vão querer depender menos das bases britânicas para suas atividades (na Europa), sabendo que as equivalências podem ser revogadas", diz Mark Simpson, do escritório de advocacia Baker Makenzie.

Ele estima, porém, que Londres continuará a reinar "na Europa em áreas como corretagem ou compensação de derivativos, o mercado de câmbio".

Além disso, a migração de certas atividades da City para vários lugares acentua uma certa "balcanização" das finanças europeias, diz Simpson.

A City poderia escolher se concentrar mais em negócios com centros financeiros não europeus - Wall Street, Hong Kong ou Singapura, e em tecnologia financeira ou finanças verdes, onde está na vanguarda.

Abhinay Muthoo, professor da Universidade de Warwick, diz que o potencial de atividade que pode ser perdido no curto prazo "terá impacto limitado".

O risco, dizem os especialistas, é que muitas empresas escolham mercados não europeus, especialmente Nova York, para suas transações para, assim, eliminar qualquer risco com regulamentação.

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