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Impulsionados pelo IPCA-15, juros futuros sobem

Victor Rezende e Lucas Hirata

No fim da sessão regular desta quinta, às 16h, a taxa do DI para janeiro de 2021 passou de 4,34% para 4,37% e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 5,54% para 5,57% O comportamento da inflação do setor de serviços no IPCA-15 de janeiro promoveu um ajuste de alta nas taxas de juros negociadas no mercado futuro, que voltaram a subir após uma sequência de pregões em queda. O movimento de reincorporação de prêmio de risco, contudo, foi apaziguado por comentários do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, para quem a inflação mais alta no ano passado “não influenciou a tendência” dos preços.

No fim da sessão regular desta quinta-feira (23), às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 passou de 4,34%, no ajuste anterior, para 4,37%; a do DI para janeiro de 2022 avançou de 4,95% para 4,99%; a do contrato para janeiro de 2023 subiu de 5,54% para 5,57%; e a do DI para janeiro de 2025 foi de 6,30% para 6,31%.

Os números do IPCA-15, que ficou em 0,71% entre dezembro e janeiro, praticamente em linha com o esperado (+0,70%), não mostraram grandes surpresas. É o que afirma o economista-chefe do BTG Pactual, Claudio Ferraz, que projeta o índice oficial de inflação em 3,50% neste ano. Ele, contudo, observa alguma pressão na inflação de serviços, embora não se mostre preocupado. “Não antecipamos pressões consistentes e continuamos a acreditar que esse movimento [nos serviços] é transitório.”

O sentimento é compartilhado por Julia Passabom, economista do Itaú Unibanco. Para ela, houve uma surpresa concentrada na inflação de serviços, mas isso não gera preocupação para o comportamento do IPCA ao longo do ano. “O fundamento mostra que eles seguem bem-comportados e, por isso, não geram preocupação adicional. Vamos continuar monitorando, mas continuamos a ver o IPCA em 3,3% este ano. A foto é um pouco ruim, mas o filme continua positivo.”

O Itaú, assim, mantém o cenário base de mais duas reduções de 0,25 ponto percentual na Selic este ano, o que levaria o juro básico a 4% em março. Essa era a avaliação do BTG no ano passado, mas o banco, agora, sustenta a projeção de apenas mais um corte na Selic em 2020.

“Em dezembro, antecipávamos que o juro chegaria a 4%, mas a linguagem mais cautelosa do BC fez com que tirássemos a expectativa de um segundo corte em março”, afirmou Ferraz, do BTG. Para ele, a entrevista de Campos Neto ao Valor não configura um retrocesso em relação à comunicação anterior da autoridade monetária, mas mostra “um tom mais tranquilo” do dirigente. Nesse cenário, o BTG mantém inalterada a expectativa de Selic a 4,25% no fim do atual ciclo de flexibilização.

A mesma projeção é adotada pelo economista-chefe da Vinland, Aurelio Bicalho, para quem os comentários de Campos Neto ajudaram a direcionar a visão dos agentes financeiros aos fatores que realmente importam para os rumos da política monetária. “Em meio à volatilidade do dólar e da inflação, o presidente do BC indica que é importante olhar o comportamento dos núcleos de inflação”, diz Bicalho. “Fica uma mensagem de um cenário benigno para a inflação”, acrescentou.

É no que acredita, também, a economista-chefe da BNP Paribas Asset Management, Tatiana Pinheiro. “Tivemos uma inflação média em torno de 0,3% de janeiro a novembro do ano passado. Uma vez que a pressão das carnes for absorvida e acomodada, os índices de inflação devem voltar à normalidade”, afirma. Dado esse contexto, a economista espera duas reduções de 0,25 ponto no juro, o que levaria a Selic a 4% no fim do primeiro trimestre. O processo de normalização monetária, no cenário base da BNP Asset, terá início no fim deste ano e levará a taxa de juros a 6,5% em 2021.

Em relatório enviado a clientes, o chefe de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, escreve que tanto o índice “cheio” quanto os núcleos “permanecem um pouco confortáveis”. Ele, contudo, também nota que, apesar de uma reversão parcial esperada nos próximos meses, existem sinais de um pouco mais de fôlego tanto nos núcleos de inflação quanto nos serviços, “principalmente pelo impacto nos alimentos consumidos fora de casa”. A média de sete núcleos de inflação subiu de 3,14% em dezembro para 3,20% agora, segundo o IPCA-15.

Analista econômico da CM Capital Markets, Alexandre Almeida também aponta que os núcleos permanecem em níveis confortáveis, o que permitiria ao BC cortar o juro básico uma vez mais, levando a Selic a 4,25% na primeira semana de fevereiro.

“Na última decisão, o BC deixou bem claro que o cenário exige cautela e depende tanto da evolução do nível de atividade econômica quanto das expectativas de inflação. Quando observamos os núcleos, que têm correlação muito forte com os dados de atividade, ainda vemos os números muito baixos e pouco reativos”, afirmou Almeida, que espera um novo corte na Selic no mês que vem.