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Importante é aprovar matérias, não falar com Paulo Guedes, diz Maia

DANIEL CARVALHO E FÁBIO PUPO
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*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 11.08.2020 - O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 11.08.2020 - O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Depois de um período de aparente reaproximação entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro da Economia, Paulo Guedes, eles estão rompidos.

"Para mim, é importante aprovar as matérias, não falar com o Paulo Guedes", disse Maia à Folha de S.Paulo no fim da noite de quinta-feira (3).

O presidente da Câmara quer tratar a pauta econômica do governo Jair Bolsonaro (sem partido) com o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos.

Em entrevista à GloboNews no início da noite de quinta, o presidente da Câmara disse que Guedes proibiu seus auxiliares de conversar com ele.

"Ontem [quarta (2)], a gente tinha um almoço com o Esteves [Colnago, assessor especial da Economia] e com o secretário do Tesouro [Bruno Funchal] para tratar do Plano Mansueto, e os secretários foram proibidos de ir à reunião", disse Maia.

Afastados desde março, quando Maia fez críticas públicas à reação de Guedes à pandemia que, naquele momento, começava a paralisar o Brasil, os dois haviam se reaproximado em meados de julho, quando o ministro Fábio Faria (Comunicações) promoveu um almoço de reconciliação.

Pelo lado de Rodrigo Maia, ele não acreditou na disposição de Guedes para esta reaproximação. O presidente da Câmara vê o ministro da Economia como alguém vaidoso e que não lida bem com o fato de o parlamentar levar sozinho o mérito pelas principais vitórias da pauta econômica, como a reforma da Previdência, no ano passado.

Maia também já ganhou a paternidade de matérias que ainda nem foram aprovadas e que o governo demorou a entrar na discussão -e, quando entrou, foi de maneira tímida--, caso da reforma tributária.

Na sexta-feira (28), o presidente da Câmara telefonou para Colnago e combinaram de conversar nesta semana para discutir o Plano Mansueto, conjunto de ações de médio a longo prazo para aliviar o caixa de estados e municípios.

Na terça-feira (1º), Maia procurou o assessor especial de Guedes para confirmar o almoço do dia seguinte, mas foi informado de que, antes, o ministro da Economia queria conversar com os líderes do governo.

O deputado encarou a justificativa como uma desculpa. Conversou com o ministro Ramos e voltou a falar com Colnago para cancelar o encontro. Informou que o deputado Mauro Benevides (PDT-CE) apresentaria uma proposta, que seria levada a Ramos.

Na noite de quarta-feira, Maia ficou incomodado com o fato de, pouco depois de ele ter apresentado a reforma administrativa da Câmara, a equipe econômica ter começado a vazar informações da proposta de reforma do governo, aguardada desde o ano passado.

O deputado foi informado de que Guedes iria ao Congresso entregar a reforma e mandou o recado de que não recepcionaria o ministro da Economia. Argumentou que, se não pode receber seus secretários, também não poderia recebê-lo.

A irritação aumentou quando chegou a Maia a informação de que alguém da Economia estaria tentando plantar a versão de que, na quinta, Maia iria ao Nordeste tratar da criação de um fundo milionário, estratégia para viabilizar sua reeleição na presidência da Câmara.

Ele esteve no Recife neste dia em uma reunião com secretários da Fazenda da região. O encontro estava na agenda de Maia e a pauta era a reforma tributária.

Já Paulo Guedes, segundo interlocutores do governo, vê nas conversas de Maia com sua equipe uma estratégia usada pelo presidente da Câmara para colher informações e números que acabam sendo usados depois contra os interesses do próprio ministério na tramitação de propostas.

Esse ponto teria ficado mais evidente durante a discussão da reforma tributária. Maia, segundo integrantes da equipe econômica, estaria estimulando o repasse de recursos a estados e municípios, a título de compensação pelas futuras mudanças, em detrimento da União (ponto que desagrada Guedes).

Com o distanciamento dos dois durante a pandemia, eles passaram a se comunicar por meio de interlocutores, o que teve seguimento porque o governo não tinha uma base de interlocução eficiente no Congresso, principalmente quando o assunto eram as pautas econômicas.

A visão da equipe de Guedes era que o antigo líder do governo na Câmara, Vitor Hugo (PSL-GO), tinha boas intenções, mas não garantia a celeridade que os temas demandavam.

Agora, esse cenário mudou com o fortalecimento da liderança do governo na Câmara. A função passou a ser exercida por Ricardo Barros (PP-PR), considerado pelo Executivo bem mais experiente e eficiente que o antecessor.

Guedes aproveitou o novo cenário para dar um basta nas conversas entre Maia e sua equipe e o primeiro sinal desse novo momento foi a proibição de seu time participar de almoço com o presidente da Câmara.