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A Importância da conectividade como direito humano em uma pandemia

José Otero
·5 minuto de leitura

Nos últimos anos, vimos um interesse crescente por parte de vários governos em declarar os serviços de Internet como direito humano. O significado dessa ação muitas vezes passa despercebido por grande parte da população, pois não é possível mensurar o impacto que essa tecnologia tem na vida de cada pessoa. Ao declarar a Internet um direito humano, os governos reconhecem sua importância como plataforma de desenvolvimento, como forma de promover os direitos humanos e uma ferramenta que ajuda a reduzir os níveis de pobreza.

A atual pandemia global aumentou a importância da Internet, pois sua versatilidade permitiu a adaptação de modelos de negócios tradicionais para transformar pelo menos parte de sua cadeia de valor em um processo virtual. A adequação da logística, o aumento das transações financeiras e o crescimento do uso de aplicativos bancários são apenas uma pequena amostra de como pessoas de todas as idades tiveram que abraçar a Internet como forma de manter um certo grau de normalidade em suas vidas.

Paradoxalmente, é essa mesma pandemia que tem destacado a falta de planejamento de muitos governos em questões nevrálgicas como a disseminação e adoção da Internet pelos mais vulneráveis, aqueles que vivem em localidades sem serviço ou por algum motivo enfrentam obstáculos de acessibilidade, variando de custos de serviço ou dispositivo à disponibilidade de pontos de venda próximos. Todos os problemas tradicionalmente resolvidos ou que estão sendo resolvidos por meio do estabelecimento de um plano nacional de desenvolvimento digital.

Se olharmos para a experiência latino-americana, vemos que um dos elementos-chave em qualquer proposta de conectividade nacional é a transparência. Os planos do governo para impulsionar o crescimento da Internet e de outras tecnologias de informação e comunicação (TIC) são tornados públicos. Frequentemente, todas as partes interessadas (leia-se sociedade civil e setor privado) são solicitadas a fornecer seus comentários, reações e sugestões sobre os planos do governo.

A constante é a mesma: para que a Internet realmente se torne um direito humano, deve haver um plano governamental detalhado que traça os passos a seguir para reduzir as diferenças de acesso às TIC nas diferentes localidades do país. Você tem que planejar e agir para obter resultados.

Um exemplo de como um bom planejamento permite a realização de ações para a promoção de um objetivo é observado nos resultados obtidos por diversos países latino-americanos, que, para fazer frente à emergência econômica provocada pela COVID-19, começaram a implementar medidas para amortecer seu impacto. Segundo o estudo “Panorama Social da América Latina 2020”, publicado em março de 2021 pela Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), a pobreza na América Latina teria aumentado para 33,7% da população regional. No entanto, segundo a análise da CEPAL, se os países da região não tivessem instituído medidas de proteção à população, o nível de pobreza poderia ter aumentado para 37,2%.

Assim, enquanto a Argentina, em 2020, aumentou o percentual de sua população urbana abaixo dos níveis de pobreza para 37% e o Brasil o reduziu para 16,3%, sem a aprovação da ajuda governamental, a pobreza em ambos os países teria aumentado para 38,8% e 24%, respectivamente. As medidas de ajuda durante a COVID-19, populares ou não, tiveram um impacto positivo na região, segundo a CEPAL.

O que acontecerá se um país não tomar as medidas necessárias para promover um objetivo do governo, como a redução da pobreza? Infelizmente, o mesmo relatório da CEPAL responde a essa pergunta apresentando Honduras, México e Nicarágua como casos em que as autoridades governamentais decidiram não implementar medidas importantes para reduzir o impacto econômico da pandemia. O resultado é claro: um aumento da pobreza de 52,3% para 58,6% em Honduras, 41,5% para 50,6% no México e de 46,3% para 50,7% na Nicarágua, em 2020.

Traduzindo os percentuais em cifras mais fáceis de entender, o que o relatório da CEPAL nos diz é que as medidas para minimizar o impacto econômico da COVID-19 na população, implementadas no Brasil, evitaram que 14 milhões de pessoas chegassem à pobreza extrema. Os números da Colômbia e da Guatemala nesta questão são de 1,1 milhão e 876.000 pessoas, respectivamente. Enquanto isso, a falta de medidas econômicas para ajudar a população durante a pandemia resultou em um aumento de 10 milhões de pessoas em extrema pobreza e 11,8 milhões de pessoas que entraram em níveis de pobreza no México.

A falta de um plano nacional de desenvolvimento das TICs pode ter consequências semelhantes para a população, pois a inovação tecnológica, além de nos trazer novas gerações em telecomunicações, também aumenta a diversidade de lacunas digitais que podem ser identificadas na população. A falta de uma política de conectividade implica não saber como implementar uma estratégia de transformação digital e revela a incapacidade do governo de se apropriar de novas tecnologias para se tornar mais eficiente.

Vivemos em um mundo onde a adoção de novas tecnologias se torna um diferencial a cada dia, por competir comercialmente com empresas nacionais e internacionais. A falta de uma estratégia proativa e holística para promover a Internet e outras tecnologias em um país acabará impactando negativamente sua economia.

Não basta fazer da Internet um direito humano, é preciso trabalhar para que esta chegue a todos os seres humanos que compõem a população do país.

*José F. Otero tem mais de 3 décadas de experiência no setor das TIC.

Fonte: Canaltech

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