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Ilha italiana de Lampedusa, saturada com a chegada de mais migrantes

Catherine MARCIANO
·4 minutos de leitura
Migrantes do barco "Louise Michel", fretado pelo artista urbano Banksy, são transferidos por membros da tripulação do navio humanitário "Sea-Watch 4", em operação de resgate em 29 de agosto de 2020, frente à costa de Malta

Ilha italiana de Lampedusa, saturada com a chegada de mais migrantes

Migrantes do barco "Louise Michel", fretado pelo artista urbano Banksy, são transferidos por membros da tripulação do navio humanitário "Sea-Watch 4", em operação de resgate em 29 de agosto de 2020, frente à costa de Malta

A pequena ilha italiana de Lampedusa, cujo principal centro de recepção está saturado em meio à pandemia do novo coronavírus, recebeu mais cerca de 370 migrantes, que viajavam em um antigo barco de pesca na noite de sábado (29), enquanto o navio humanitário "Sea-Watch-4", com uma quantidade similar de pessoas a bordo, aguardava um porto de desembarque.

O pesqueiro transportava 367 migrantes, conforme dados revisados para baixo pelas autoridades locais. Entre eles, há 13 mulheres e 33 menores. 

Localizado ao largo de Lampedusa e ameaçando afundar devido aos fortes ventos, o barco foi escoltado pela Guarda Costeira italiana e pela polícia até o porto de Lampedusa, noticiou a agência italiana de notícias Ansa.

Os migrantes, cuja nacionalidade não foi divulgada, desembarcaram em pequenos grupos e foram submetidos a controles de temperatura, antes de serem transferidos para um centro da ilha administrado por uma paróquia. 

Em sua chegada, foram "recepcionados" por um grupo de manifestantes da Liga de extrema direita, que se reuniu no porto.

- "Situação sem precedentes" -

O centro de acolhimento de urgências de Lampedusa já está superlotado, com 1.160 migrantes, dez vezes sua capacidade máxima.

Referindo-se a uma "situação sem precedentes", o prefeito de Lampedusa, Totò Martello, anunciou um encontro na segunda-feira com representantes dos sindicatos profissionais da ilha para convocar uma "greve geral".

"Vamos parar. O governo nacional continua a manter um silêncio terrível", disse ele em um comunicado.

"Se um barco pesqueiro deste tamanho chega com centenas de pessoas, e ninguém o detecta, isso significa que não há controles no Mediterrâneo. O que fazem os navios militares? Não estamos em guerra, por que não os utilizam para intervenções de segurança no mar e para transferir migrantes?", questionou.

Desde sexta-feira, antes deste desembarque em massa, cerca de 30 pequenos barcos, principalmente da costa tunisiana, chegaram à ilha com 500 migrantes a bordo, de acordo com a imprensa italiana.

A Sicília registrou neste domingo 34 novos casos de covid-19, entre eles 4 migrantes, o que eleva o número de contágios a 1.114.

O presidente da região da Sicília, Nello Musumeci, alertou no domingo que uma "crise humanitária e de saúde" se aproxima.

A região "não pode continuar a pagar pela indiferença de Bruxelas e pelo silêncio de Roma", reclamou Musumeci, no poder graças a uma aliança da direita e da extrema direita.

Há uma semana, ele aprovou um decreto para fechar todos os centros de acolhimento na Sicília (região da qual Lampedusa faz parte), denunciando condições de higiene inaceitáveis, devido à epidemia. Sua decisão foi rejeitada pela Justiça italiana.

Ontem, a Guarda Costeira italiana também transferiu 49 pessoas para Lampedusa, a maioria mulheres e crianças. O grupo foi resgatado no Mediterrâneo pelo barco fretado pelo artista urbano Banksy, o "Louise Michel". 

Os 150 passageiros restantes deste navio foram transferidos na noite de sábado para o navio humanitário "Sea-Watch 4", que hoje tem 350 pessoas a bordo e procura um porto para desembarcar.

Muitos dos migrantes apresentam um quadro de desidratação, ou têm ferimentos graves, segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras.

- Um lugar seguro - 

"Pedimos um lugar seguro para todos os sobreviventes", escreveu a tripulação do "Louise Michel", ao anunciar a transferência de passageiros no sábado.

Assim batizado em homenagem a uma anarquista francesa do século XIX e decorado com um grafite do artista britânico, "Louise-Michel" zarpou em 18 de agosto do porto espanhol de Borriana, perto de Valência.

Sua capitã é Pia Klemp, uma ativista alemã de direitos humanos conhecida por ter comandado outros navios de resgate, como o "Sea-Watch 3". Klemp está sendo investigada pela Justiça italiana por "ajudar na imigração ilegal", entre outras acusações.

Banksy, cuja identidade é um mistério, explicou no sábado ter comprado o barco porque "as autoridades da UE ignoram de forma deliberada os pedidos de socorro feitos por não europeus".

Neste domingo, uma embarcação de migrantes, rebocada pela polícia, pegou fogo acidentalmente quando se aproximava da costa da Calábria, no sul da Itália, deixando quatro mortos, dois desaparecidos e cinco feridos, segundo as forças de segurança.

De acordo com os últimos dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), as tentativas de cruzar o Mediterrâneo - a rota de migração mais mortal do mundo - estão aumentando. 

Entre o início de janeiro e o final de julho passado, as tentativas de saída da Líbia aumentaram 91%, em relação ao mesmo período de 2019, representando 14.481 pessoas que realizaram a perigosa travessia.

cm/me/es/tt/mvv