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Igreja Universal lança ofensiva contra Bancada Evangélica Popular por ser considerada de "esquerda"

Ana Paula Ramos
·4 minutos de leitura
Samuel de Oliveira, coordenador da Bancada Evangélica Popular (Foto: Arquivo Pessoal)
Samuel de Oliveira, coordenador da Bancada Evangélica Popular (Foto: Arquivo Pessoal)

A formação de uma bancada evangélica progressista vem incomodando alguns tradicionais políticos evangélicos.

Pela primeira vez, líderes religiosos alinhados com o pensamento de esquerda se uniram e lançaram a Bancada Evangélica Popular nas eleições de 2020.

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“Queremos oferecer uma alternativa ao público evangélico, que acha importante votar em políticos com uma identidade de fé, mas que só consegue encontrar propostas conservadoras”, diz Samuel de Oliveira, coordenador do movimento. “As lutas populares estão verdadeiramente ligadas ao Evangelho”.

Nas pautas, estão políticas voltadas à diminuição da desigualdade social e a defesa do Estado laico, garantindo a liberdade dos indivíduos.

Por outro lado, o movimento não tem consenso teológico sobre questões polêmicas, como o aborto, mas eles acreditam que “não se pode privar o indivíduo de direitos civis por uma tentativa de dominação religiosa pseudo-moralista”.

Para Samuel de Oliveira, a chamada Bancada da Bíblia no Congresso e na política em geral está ligada às pautas conservadoras, antidemocráticas e que defendem os privilégios das elites.

“Algumas lideranças religiosas usam os fiéis para a manutenção de um projeto de poder deles, ligado às elites e à serviço do capital”.

Candidato a vereador de São Paulo pelo PCdoB, o estudante afirma que está mais preocupado em defender “pautas ligadas ao Evangelho, como o direito a comida, o acolhimento e a justiça social que impor seus padrões de fé aos outros”.

Na bancada popular progressista, segundo ele, existe uma diversidade política, e ele rechaça que o grupo seja de “esquerda”. Mas acrescenta que a “fé não combina com o capitalismo”.

O coordenador destaca que o próprio setor evangélico não é homogêneo, nem do ponto de vista eclesiástico, porque não há uma única igreja, nem do ponto de vista político.

“Ao ter essa visão preconceituosa sobre os evangélicos, de que todos pertencem ao conservadorismo moral, é um prejuízo para a sociedade também, que deixa de dialogar com o setor”, diz ele.

O movimento, segundo Oliveira, “tem incomodado os acomodados, acostumados a usar o povo como curral eleitoral para seu projeto de poder, de dominação pela fé”.

“A partir do momento em que passamos a apresentar um projeto alternativo ao público evangélico, principalmente o da periferia, isso causa incômodo”, diz.

Ele conta que estão circulando vídeos com notícias falsas a respeito da Bancada Evangélica Popular.

“Esses políticos pregam um pseudo-moralismo. Quando é conveniente usam de uma torção teológica para manutenção do poder. Diante dos últimos acontecimentos, o caso da Flordelis, a prisão do Pastor Everaldo, não há críticas, mas gastam energia diante da nossa ‘ameaça’ de disputar a base evangélica”.

Bancada evangélica de esquerda?

A Igreja Universal, do bispo Edir Macedo, lançou uma ofensiva contra o movimento considerado de “esquerda”.

“Esse é um tipo de movimento que surge para tentar deturpar a Palavra de Deus. Há duas razões para justificar o fato de um cristão ser de esquerda: ou ele não entende o que é ser esquerda ou não sabe o que é ser cristão”, diz o manifesto divulgado nas mídias da igreja.

“Isso porque países que adotam políticas de esquerda vivem sob regime absolutista, que tem como um de seus objetivos cercear a liberdade dos indivíduos, inclusive, a religiosa”.

“Outra característica de países que adotam posturas de esquerda é o comunismo”.

Ao rebater as críticas, o estudante de Filosofia e Teologia diz que associar a esquerda ao comunismo parte do princípio de um conceito deturpado no imaginário social do comunismo.

“Faz parte da manipulação de informações junto ao povo. A esquerda é diversa, inclui os trabalhadores, os socialistas e até os comunistas”, explica. “Além disso, tentam usar experiências históricas de outros países contra a militância comunista do Brasil”.

Samuel de Oliveira lembra que foi Jorge Amado, deputado pelo Partido Comunista, o autor da lei que garante a liberdade de culto religioso no país. “Quem está tentando transformar o Brasil em um estado teocrático é essa turma que flerta com o fascismo”, diz ele.

O coordenador da Bancada Evangélica Popular lamenta os ataques e as mentiras, “cujo pai é o Diabo”.

“Não queremos dividir, mas romper com essa lógica que defende privilégios, e apresentar os valores do Reino de Deus, de justiça social, paz e bem”.