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Idoso não é peso: por que viver mais é boa notícia para economia

Mari Shibata - BBC Work Life
·8 minutos de leitura

Os jovens podem estar preparados para herdar o futuro, mas é o envelhecimento da população que está definindo o nosso tempo.

Em 2018, pela primeira vez na história, o percentual de pessoas com 65 anos ou mais ultrapassou o de crianças com menos de cinco anos no mundo. E a previsão é que o número de indivíduos com 80 anos ou mais triplique – de 143 milhões em 2019 para 426 milhões em 2050.

A população com 65 anos ou mais está crescendo mais rapidamente do que todas as outras faixas etárias, sobretudo porque a taxa de natalidade global vem caindo desde a segunda metade do século 20.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as taxas de fecundidade em todas as regiões, exceto na África, estão próximas ou abaixo do que é considerado a “taxa de reposição” – ou seja, a taxa necessária para manter a população estável. Na maioria dos países de alta renda, gira em torno de 2,1 filhos por mulher.

Mas a população não está apenas envelhecendo: as pessoas estão vivendo mais e aumentando sua "expectativa de vida saudável".

Isso significa que, à medida que a população de idosos aumenta, cresce também um grupo de consumidores, trabalhadores e empreendedores.

Em outras palavras, eles não precisam necessariamente dos serviços da chamada “silver economy”, voltada exclusivamente para pessoas idosas – a população mais velha pode continuar participando integralmente da economia global.

“Estamos falando agora de uma nova fase da vida, que equivale à última parte da vida adulta", diz Joseph Coughlin, diretor do AgeLab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) e autor do livro The Longevity Economy: Unlocking the World’s Fastest-Growing, Most Misunderstood Market (“A Economia da Longevidade: desvendando o mercado em mais rápida expansão e mais mal entendido do mundo”, em tradução livre).

À medida que os idosos vivem mais e com saúde, participando ativamente da economia global, são abertas novas possibilidades de converter a longevidade em um ativo para a sociedade.

Em 2015, os americanos com 50 anos ou mais geraram quase US$ 8 trilhões em atividades econômicas.

O Boston Consulting Group estima que, em 2030, a população com mais de 55 anos nos EUA representará metade de todo o crescimento do gasto do consumidor doméstico desde a crise financeira global. Esse percentual sobe para 67% no Japão, e 86% na Alemanha.

Com os idosos impulsionando uma parte substancial da atividade econômica do mundo, hoje e no futuro, a "economia da longevidade" pode ser uma oportunidade de crescimento ainda não explorada.

Desafiando a 'velhice'

Grupo de japoneses à beira mar
O Japão, país cuja população envelhece mais rapidamente no mundo, pode ser o maior mercado para a economia da longevidade

O envelhecimento da sociedade global geralmente é considerado prejudicial à saúde econômica de um país, uma vez que reduz a força de trabalho e aumenta os encargos sobre os sistemas de saúde.

Na reunião do ano passado do G20 no Japão, o envelhecimento entrou na lista de prioridades pela primeira vez.

Na ocasião, o presidente do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, afirmou que o envelhecimento da população pode representar "sérios desafios" para os bancos centrais.

Um relatório recente da Organização das Nações Unidas (ONU) também alertou que o envelhecimento global aumentaria as “pressões fiscais que muitos países vão enfrentar nas próximas décadas, enquanto buscam construir e manter sistemas públicos de assistência à saúde, aposentadoria e proteção social para idosos”.

Isso pode ser particularmente impactante para muitos países do mundo, com um número cada vez maior de aposentados.

Mas Coughlin, do MIT, acredita que, embora as populações estejam envelhecendo em números significativos, não podemos deixar a ideia de 'velhice' e suas implicações reprimirem a maneira como pensamos as oportunidades econômicas.

Ele argumenta que a velhice é uma construção social que não reflete como as pessoas vivem realisticamente após a meia-idade – e diz que as empresas precisam oferecer o que as pessoas mais velhas realmente querem, e não o que a sabedoria popular sugere que elas precisam.

E isso não se refere apenas a carros para homens mais velhos, por exemplo, mas diversão, moda, turismo e muito mais.

"Se trata de não ter idade – coisas mais personalizadas, mais focadas no bem-estar, em facilitar a vida.”

“Esses conjuntos de valores valem para todas as gerações”, acrescenta Coughlin.

Segundo ele, embora as necessidades dos millennials (nascidos entre 1980 e 1995) estejam ligadas à ascensão da chamada economia sob demanda, a conveniência deste sistema também beneficia imensamente os idosos.

"Para os mais velhos, se tornou uma assistência virtual."

Embora não haja muita pesquisa disponível sobre a economia da longevidade propriamente dita, o que está claro é que, se as empresas conseguirem aproveitar essa base de consumidores que envelheceu, nesta nova fase de suas vidas, poderá significar uma grande oportunidade.

Afinal de contas, esses grupos estão consumindo. O relatório de 2017 da KPMG sobre consumidores online, realizado em 51 países, mostrou que os baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964) gastam em média US$ 203 por transação na internet, enquanto os millennials "entendidos em tecnologia" gastam uma média de US$ 173 .

O maior mercado para a economia da longevidade pode ser o Japão, nação que envelhece mais rapidamente no mundo.

O país precisou se adaptar às necessidades cotidianas desta população. E passou a oferecer pequenas conveniências, como disponibilizar óculos de leitura em agências dos correios, bancos e hotéis, com o dizer: “Sinta-se à vontade para usá-los”.

E também implementou melhorias estruturais, como a instalação de botões nas faixas de pedestres que, quando pressionados, oferecem mais tempo para atravessar o sinal.

Com pelo menos 20% da população acima de 70 anos, o Japão desenvolveu uma cultura inclusiva, que se reflete na maneira como os idosos consomem junto às gerações mais jovens – nas piscinas, nas viagens de férias e nas aulas de ginástica, por exemplo.

homem trabalhando
Manter os profissionais mais velhos por mais tempo trabalhando pode criar um 'dividendo de longevidade' significativo para os países

O surgimento de uma nova geração de idosos online – como o casal Bon e Pon, que compartilha no Instagram fotos de suas viagens e atividades usando roupas combinadas – é um exemplo de como os idosos estão consumindo e aproveitando a vida como os mais jovens.

Prolongando a vida profissional

Uma parte essencial da longevidade e do aumento da expectativa de vida saudável é a liberdade para trabalhar.

Quando os profissionais vivem mais e com saúde, pode ser uma oportunidade de colher o que a consultoria Deloitte chama de “dividendo da longevidade” – ou seja, aumentar a produtividade econômica a partir de profissionais mais velhos.

Na Alemanha, manter os trabalhadores idosos ativos é uma questão de estabilidade econômica nacional. Mais de 21% da população alemã tem mais de 65 anos.

A Moody's, agência de classificação de risco, afirmou que o envelhecimento da população apresenta uma ameaça à força econômica do país europeu.

Se a Alemanha perder a nota de crédito triplo A (AAA), a Moody´s alertou que provavelmente será por causa do" impacto da mudança demográfica na economia e nos sistemas de seguridade social" do país.

Diante dos avanços na expectativa de saúde e de vida, espera-se que um alemão de 65 anos viva hoje mais 20 anos, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

No entanto, devido à natureza fisicamente exigente da indústria de transformação, manter trabalhadores no chão de fábrica até a idade da aposentadoria continuará sendo um desafio.

Algumas empresas alemãs estão recorrendo à tecnologia para acomodar trabalhadores idosos e mantê-los ativos. A fábrica da Porsche em Leipzig, por exemplo, implementou medidas de ergonomia na linha de produção para ajudar os trabalhadores.

Os funcionários normalmente trabalham em turnos de uma hora, e vão trocando de estação ao longo do dia.

Toda a fábrica foi mapeada com um sistema de semáforos que indica o grau de conforto ergonômico de cada estação, para que os gestores possam programar turnos que garantam que nenhuma parte do corpo do funcionário ficará sobrecarregada.

"O objetivo da ergonomia não é reagir, mas prevenir", diz Alissa Frey, especialista em ergonomia da Porsche em Leipzig.

“A rotação entre as diferentes etapas da linha de produção ajuda a evitar tensões unilaterais. Além disso, ajustes de processos e componentes, limitação de força, estações de trabalho de altura ajustável, dispositivos de manipulação e sistemas de suporte, assim como o destacamento adequado de nossos funcionários, evitam uma sobrecarga física.”

Mas se o aumento da longevidade vai se tornar um fardo ou um dividendo, dependerá de quanto as sociedades vão se preparar para enfrentar os desafios do envelhecimento da população, além de identificar e maximizar seus benefícios.

"Os baby boomers representam uma nova geração", diz Coughlin.

"Portanto, existe a expectativa de que, embora não sejam mais jovens, eles se sintam jovens. E não apenas esperam, mas em muitos casos exigem novos produtos, novos serviços, novas experiências, para tornar cada etapa da vida – se não todos os dias – um pouco melhor.”

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Work Life.

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