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Ibovespa volta a sofrer com preocupação fiscal e cai

Lucas Hirata
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Com a baixa nesta terça-feira, o Ibovespa acumula queda de 3,52% em duas sessões O mercado financeiro enfrentou mais um dia de tensão com as incertezas sobre os rumos das contas públicas no país. Em uma nova evidência da piora da percepção de risco por aqui, o Ibovespa recuou mais de 1% em uma sessão marcada pela volatilidade em um momento que os investidores reagem a cada notícia envolvendo as fontes de financiamento do programa Renda Cidadã. Sob pressão também das perdas em Wall Street, o principal índice da bolsa de valores fechou em baixa de 1,15%, aos 93.580 pontos, depois de registrar breves momentos de alívio durante o dia. O volume financeiro somou R$ 17,9 bilhões, abaixo da média em setembro de R$ 19,6 bilhões e do ano de 2020, de R$ 20,6 bilhões. Com a baixa nesta terça-feira, o Ibovespa acumula queda de 3,52% em duas sessões, o que leva a uma perda de 5,83% no mês de setembro até aqui. Mantida essa desvalorização amanhã, último pregão de setembro, essa será a maior baixa mensal desde março, quando recuou 29,9%. O mercado financeiro continua mostrando uma sensibilidade extrema a qualquer assunto relacionado à situação fiscal, depois da reação bastante negativa dos investidores aos planos do governo para encaixar o Renda Cidadã no orçamento. De fato, o clima no mercado é de tensão já que o próprio presidente Jair Bolsonaro reclamou hoje das críticas à sugestão de seu governo de utilizar recursos de precatórios e do Fundeb para financiar o Renda Cidadã. Para o sócio e gestor da Grou Capital, Tiago Sampaio Cunha, ainda há expectativa no mercado de que a equipe econômica encontre alternativas para o financiamento do programa Renda Cidadã - seja com corte de gastos ou com uma reforma tributária mais profunda. Isso evita uma deterioração ainda maior no preço dos ativos neste momento, mas o risco de perda de credibilidade fiscal mantém o ambiente de negócios bastante tenso. “O governo tem definido que é preciso fazer o programa Renda Cidadã, mas como vai fazer o financiamento ainda parece estar em aberto”, afirma. Durante a tarde, o secretário do Tesouro Nacional, Bruno Funchal, afirmou que o governo não tem intenção ou tenta driblar o teto de gastos, e que os próximos dias serão importantes para avançar no debate. “A solução política foi apresentada e cabe a nós mostrar a repercussão que isso tem”, disse o secretário, que viu a reação negativa do mercado como um alerta do aumento da percepção de risco. Diante da piora no ambiente de negócios, ele destacou que a posição do Tesouro é de comprometimento com consolidação fiscal e teto de gastos. “Observamos também esse comprometimento por parte dos parlamentares”, acrescentou. Analistas do Morgan Stanley observam que o mercado local está bastante cauteloso em relação aos rumos das contas públicas. “Nosso cenário-base continua a ser o de um arcabouço fiscal intacto. Ainda assim, a barra para uma reforma robusta no curto prazo continua a ser muito alta. Embora o prêmio de risco sobre os ativos locais continue sendo muito atrativo, preferimos nos manter de lado, esperando para assumir posições”, dizem os profissionais em relatório a clientes. De fato, a palavra cautela tem sido bastante usada por gestores neste momento para descrever a estratégia de investimentos. Um profissional que preferiu não ser identificado afirma que já reduziu sua exposição no mercado local e, agora, aguarda mais informações para definir os próximos passos. “Estamos vendo um impasse: o presidente não abre mão do programa, mas não sabe como financiá-lo”, diz. Outro gestor vislumbra dias de bastante volatilidade daqui para frente e se apoia em uma carteira de ações defensivas, como de exportadoras e empresas do setor elétrico. Ele explica que a proximidade dos 90 mil pontos no Ibovespa chama a atenção e poderia até atrair fluxo comprador. No entanto, para o profissional, o mercado deve continuar operando com freio de mão puxado dado o pouco espaço para aprovação de reformas neste ano, as preocupações fiscais e as incertezas com a eleição americana. Gerd Altmann / Pixabay