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Ibovespa tem queda discreta confinado por indefinição fiscal

Por Paula Arend Laier

SÃO PAULO (Reuters) - O Ibovespa fechou com um declínio discreto nesta quarta-feira, após mais uma sessão volátil em que chegou a trabalhar abaixo dos 108 mil pontos no pior momento, uma vez que segue confinado principalmente por incertezas sobre o rumo fiscal do país.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa caiu 0,18%, a 108.841,15 pontos. Na máxima do dia, chegou a 109.285,24 pontos. Na mínima, alcançou 107.901,91 pontos. O volume financeiro somou 23,7 bilhões de reais.

Para Enrico Cozzolino, sócio e chefe de análise da Levante Investimentos, "há muito ruído e pouco fato", o que mantém o Ibovespa em patamares conhecidos. "Nada de novo... Nenhuma novidade que de fato dite tendência nova", afirmou.

No Brasil, a PEC da Transição continua dominando as atenções, mas sem avanços concretos na proposta apresentada pela equipe de transição do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, que eleva o espaço para gastos públicos a partir de 2023 ao retirar despesas federais da contabilidade do teto de gastos.

Prevista para ser apresentada nesta quarta-feira, a PEC deve ser mais uma vez adiada por falta de consenso sobre o prazo de exceção do programa Bolsa Família do teto de gastos, segundo a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, que vê essa questão como o maior ruído da proposta.

Em paralelo, o senador Marcelo Castro (MDB-PI), relator-geral do Orçamento do próximo ano, disse à Reuters que considera que a PEC da Transição deve contemplar um piso de despesas fora do teto de gastos de pelo menos 100 bilhões de reais, sem as quais as contas de 2023 seriam inexequíveis.

Em meio a essas negociações, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que "é importante conseguir equacionar essa necessidade do social, de atender aos necessitados e atender as pessoas que sofreram com o efeito da pandemia, mas também gerar um equilíbrio fiscal".

Na visão de César Mikail, gestor de renda variável na Western Asset, há ainda muito ruído de Brasília com a questão da PEC da Transição, mas sem nenhuma definição e aparentemente ainda longe de se definir algo, o que tem deixado o mercado volátil, descolado do movimento de praças acionárias no exterior.

Em Wall Street, o S&P 500 subiu 0,59% nesta quarta-feira, ajudado pela ata da última decisão de juros do Federal Reserve, antes do Dia de Ação de Graças, feriado nos Estados Unidos que fechará as bolsas daquele país na quinta-feira.

A ata do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) mostrou que uma "maioria substancial" dos formuladores de política monetária do banco central norte-americano concordou que "provavelmente seria apropriado em breve" desacelerar o ritmo das altas das taxas de juros.

Mikail, da Western Asset, não descarta mais volatilidade na bolsa paulista na quinta-feira, dado que o feriado nos EUA tende a reduzir a liquidez no pregão brasileiro e o foco deve ficar "só em cima do barulho de Brasília".

Para Dan Kawa, diretor de investimentos da TAG Investimentos, a bolsa do Brasil parece barata por "valuation" e tecnicamente saudável, mas não parece haver um gatilho de curto prazo para uma reversão deste quadro de incertezas.

"Investidores gostam de visibilidade e previsibilidade, mas o cenário local me parece incerto e imprevisível no curto prazo", afirmou em comentário a clientes nesta quarta-feira.

DESTAQUES

- CVC BRASIL ON recuou 7,22%, a 5,14 reais, dado o cenário desfavorável para a taxa de câmbio e os juros, além do aumento de casos de Covid no país, com a Anvisa voltando a exigir o uso de máscaras em aviões e aeroportos. O Brasil registrou um aumento nos casos de mais de 230% na comparação da semana passada com o início do mês de novembro, retornando a um patamar visto pela última vez no fim de agosto.

- CIELO ON caiu 6,82%, a 4,78 reais, na esteira do resultado da rival PagSeguro, com lucro dentro do esperado e expansão da receita no terceiro trimestre, mas previsões da companhia consideradas fracas por analistas. Em Nova York, PAGSEGURO tombou 14,57%, a 10,26 dólares. Para o Morgan Stanley, o balanço teve mais pontos negativos que positivos e o "guidance" implica contração da margem líquida.

- VALE ON encerrou com variação positiva de 0,99%, a 80,93 reais, em dia volátil. Na China, contrato futuro do minério de ferro mais negociado em Dalian encerrou as negociações do dia em baixa. Em contrapartida, o Deutsche Bank elevou a recomendação para os ADRs da mineradora de "manter" para "compra", bem como o preço-alvo de 19 para 20 dólares. Em Nova York, o ADR fechou a 15,12 dólares (+1,54%)

- PETROBRAS PN subiu 0,47%, a 23,44 reais, mesmo em dia de forte queda dos preços do petróleo no exterior. Durante a sessão, os papéis chegaram a 23,65 reais na máxima e a 22,8 reais na mínima. Desde os recordes no mês passado, as cotações contabilizam perda de mais de 30% com incertezas sobre a estratégia da empresa com a troca de governo.

- AMERICANAS ON recuou 5,36%, a 10,07 reais, em sessão de queda generalizada para ações de varejo, dada a perspectiva de deterioração fiscal e seus reflexos nocivos para a inflação e taxas de juros, além dos potenciais efeitos da Copa do Mundo. NATURA&CO ON caiu 4,2% e GRUPO SOMA ON perdeu 4,32%.

- REDE D'OR ON valorizou-se 3,57%, a 29,33 reais. Em comentários no começo da semana, a equipe da Genial Investimentos ponderou que a Covid afeta de formas diferentes as empresas de saúde, com o aumento de casos levando a um maior número de exames e utilização de hospitais, com impacto positivo nos resultados. No setor de saúde, HAPVIDA ON caiu 1,3% e QUALICORP ON cedeu 3,16%.

- MARFRIG ON avançou 3,16%, a 9,78 reais, descolando de suas pares, um dia após fechar em uma mínima desde abril de 2020, a 9,48 reais. No setor, JBS ON recuou 0,17% e MINERVA ON cedeu 1,65%.