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Ibovespa tem leve alta e dólar passa por ajuste com exterior e ata do Copom

Ana Carolina Neira, Marcelo Osakabe, Victor Rezende e Marcelle Gutierrez

Investidores avaliam rumo da política monetária brasileira e cena externa como um todo O Ibovespa conseguiu manter-se em alta neste pregão, ainda que moderada. A razão para este movimento mais lento, após duas sessões marcadas por novos recordes, vem da ausência de grandes catalisadores que justifiquem apostas mais direcionadas. Além disso, o exterior mais ameno colabora para a relativa estabilidade no cenário local brasileiro, assim como a reação dos agentes à ata do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada mais cedo.

Ao redor de 14 horas, o Ibovespa subia 0,40%, aos 112.345 pontos, com um giro financeiro dentro da média para o horário e que soma R$ 5,9 bilhões.

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“Hoje é um dia mais para correções, principalmente para os bancos, que ajudaram a puxar o Ibovespa para baixo ontem”. diz o gestor Victor Candido, da Journey Capital. Na segunda-feira, diante dos boatos do retorno de um imposto nos moldes da CPMF, os ativos do setor bancário foram bastante pressionados. “Na minha opinião, a reação do mercado foi até exagerada; então, é natural que haja um ajuste geral e o índice suba de maneira mais modesta.”

É a recuperação de ativos que sofreram mais ontem que ajuda a sustentar o avanço do índice, como Banco do Brasil ON (0,58%), Bradesco (1,62% a ON e 1,52% a PN), Cielo ON (1,68%), Itaú Unibanco PN (1,07%), units do Santander (1,06%) e Petrobras (1,45% a ON e 1,19% a PN).

Na ausência de grandes notícias e com espaço para alguma realização, são alguns papéis específicos que se destacam neste pregão. Há pouco, entre as maiores altas estavam Ultrapar ON (4,06%) e Intermedica ON (2,52%).

Por outro lado, entre as baixas, destaque para as varejistas, que atingiram seus preços históricos mais altos durante a sessão de segunda-feira e devolvem os ganhos: Magazine Luiza ON (-2,80%), Lojas Americanas PN (-2,64%), Via Varejo ON (-1,69%) e Natura ON (-2,11%).

Enquanto isso, os agentes financeiros monitoram as discussões em torno da política monetária. O documento divulgado pelo BC mais cedo passou a mensagem de que a economia ganhou alguma tração, mas reforçou que o movimento de recuperação é gradual e que terá cautela nos movimentos seguintes, sem deixar explícito se fará novos cortes na Selic.

Além disso, a autoridade monetária mostrou-se confortável com o nível de inflação e apontou para o alto nível de ociosidade das empresas, o que deve continuar exigindo atuações estimulativas. Isso reforça um certo nível de cautela dos investidores, no melhor clima de que ninguém sabe o que virá pela frente.

Na avaliação da Guide Investimentos, em relatório enviado a clientes, a grande novidade presente no comunicado está no fato de que o Comitê voltou a citar o fato de que o momento é que vivemos um movimento inédito na política monetária do país, reforçando a cautela necessária para a condução da mesma daqui para frente. "Em função disso, acreditamos que o Copom deverá manter a Selic estável em 4,5% entrando em 2020, pausando o ciclo de cortes iniciado em julho deste ano", aponta.

Câmbio

Um movimento generalizado de ajuste do dólar manteve a moeda americana em alta contra boa parte das divisas emergentes e também frente aos pares desenvolvidos neste pregão, levando o real a interromper o movimento de recuperação nos últimos dias. Por volta das 14h, a moeda americana avançava 0,18%, aos R$ 4,0685.

A alta do dólar chegou a ser mais forte durante a manhã, quando a moeda tocou R$ 4,0777 na máxima. No entanto, a divulgação de dados melhores que o esperado da produção industrial dos Estados Unidos em novembro deram mais um sinal da estabilização da economia global, dando força para as divisas emergentes.

Embalado pela oficialização da primeira fase do acordo comercial e a perspectiva de que a barra para uma nova elevação de juros é bastante alta para o Federal Reserve (Fed, banco central americano), o dólar se enfraqueceu bastante nas últimas semanas. Este movimento passa por uma pausa neste momento, avalia Victor Beyruti, economista da Guide. O profissional nota que a interrupção dessa tendência ocorre apesar da divulgação da ata do Copom mostrar um comitê mais cauteloso do que muitos no mercado antecipavam, o que leva a aposta de manutenção de juros ganhar força no momento. O fim do ciclo de cortes da Selic ajuda a moeda brasileira, pois deixa de comprimir o diferencial de juros.

Sem indicadores relevantes, o que pode ter ajudado a desencadear a correção nesta manhã foi a notícia de que o premiê do Reino Unido, Boris Johnson, passou a defender um prazo fixo de transição do Brexit, sem possibilidade de extensão. A medida volta a reviver o fantasma de uma saída sem acordo do país da União Europeia e fazia a libra esterlina cair ante o dólar.

O avanço de hoje não dilui a perspectiva otimista para o curtíssimo prazo. Embalado por notícias como a perspectiva positiva para o rating BB- do Brasil pela S&P, o dólar pode continuar recuando nas próximas semanas. Vale lembrar que a saída sazonal de dólares por empresas fazendo remessas de lucros costuma terminar na segunda semana de dezembro. Ao mesmo tempo, a baixa liquidez causada pela proximidade com as festas de fim de ano pode ampliar a intensidade dos movimentos.

Em sua análise técnica, o Société Générale vê a tendência de queda do dólar futuro encontrando suportes nos níveis de R$ 4,03 e R$ 3,96. Já resistências seriam encontradas em R$ 4,31 e R$ 4,33.

Juros

Embora o Copom tenha dito que os núcleos de inflação continuam a apontar para um nível ainda elevado de ociosidade na economia, a avaliação de alguns dirigentes sobre os últimos dados de atividade e sobre a maior eficiência do mercado de crédito esteve no foco dos investidores desde a abertura dos negócios no mercado de juros.

Nesse cenário, por volta de 14h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 avançava de 4,55% no ajuste de ontem para 4,63%; a do DI para janeiro de 2022 saltava de 5,24% para 5,37%; a do contrato para janeiro de 2023 subia de 5,82% para 5,94% e a do DI para janeiro de 2025 passava de 6,46% para 6,56%.

“Estou confortável com a minha visão de que a última redução dos juros foi neste mês”, diz Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays. Ele nota que o BC utilizou um tom “construtivo” para descrever a atividade, ao mesmo tempo em que o balanço de riscos mostra um item no lado da inflação ser mais baixa e três no lado de uma inflação potencialmente mais elevada.

Secemski também observa que alguns dirigentes do BC acreditam que as transformações recentes no mercado de crédito e de capitais tendem a aumentar a potência da política monetária. “Tudo mais constante, uma mudança hoje na política monetária, então, geraria um efeito maior do que antes”, afirma o economista do Barclays.

Essa foi a interpretação de boa parte dos investidores. Operador de renda fixa da Sicredi Asset, Danilo Alencar diz que o mercado “se apegou ao parágrafo 14 da ata, que reconhece que a atividade ganhando tração e as mudanças no mercado de crédito podem reduzir a ociosidade da economia de forma mais acelerada” e deixou em segundo plano as projeções de inflação, que mostram os preços ainda em níveis confortáveis.

Apesar da forte recomposição de prêmio de risco na curva a termo hoje, a Sicredi Asset continua a esperar que a Selic vá a 4% em março de 2020, após dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa básica no próximo ano. “Os números ainda são muito bons. Além disso, a reação da atividade também está muito ligada ao FGTS. É um tipo de choque que deve perder efeito nos próximos meses. Acho até positivo que o mercado esteja dando essa estressada hoje. A curva está com bastante prêmio na ponta curta e isso pode ser bom para futuras aplicações, mesmo se o juro continuar inalterado em 4,50%”, diz.

Outra instituição que manteve inalterada a projeção de Selic a 4% foi o Itaú Unibanco. Os economistas do banco, contudo, adotaram um tom bem mais conservador quanto aos futuros passos do Copom. Em relatório divulgado após a ata, o Itaú reconhece que .a comunicação do BC “parece consistente com um plano de voo que levaria a Selic a 4,25% ao ano ao final do ciclo, ou mesmo a manteria estável em 4,5%”.