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Ibovespa sobe com exterior e dólar reflete frustração com leilão

Ana Carolina Neira, Marcelo Osabake e Victor Rezende

Mercados globais reagem bem à informação de que EUA e China vão remover tarifas “em etapas” Apesar do movimento fraco visto no leilão de produção do pré-sal promovido hoje, o Ibovespa sustenta no começo desta tarde o desempenho positivo visto ao longo da manhã. O principal suporte para o bom humor veio dos avanços nas negociações comerciais entre China e Estados Unidos, evento que ajudou e aumentar a demanda por ativos de risco globalmente. Às 14h05, o Ibovespa subia 0,98%, aos 109.402 pontos. Nas máximas, ele chegou aos 109.528 pontos.

Os mercados globais trabalham com otimismo após a notícia de que o Ministério de Comércio chinês e os EUA concordaram em remover tarifas a importações um do outro “em etapas”, o que traz algum alívio aos investidores. Segundo um porta-voz chinês, a retirada das tarifas será feita de maneira proporcional e simultânea, abrindo espaço para a evolução das conversas entre as duas maiores economias do mundo.

Para o gestor Victor Candido, da Journey Capital, o clima mais otimista visto na bolsa hoje também é reflexo de ânimos mais calmos após a intensa volatilidade observada no pregão de ontem por causa do megaleilão dos excedentes no pré-sal. “O mercado ainda está digerindo o que aconteceu no leilão ontem, apontado por muitos como uma frustração, mas, agora, enxergam que não foi o fim do mundo e nem da Petrobras. Com a ajuda de um momento melhor lá fora, o índice tende a sustentar as altas”, diz.

A Petrobras, inclusive, dá suporte ao avanço do índice e sobe 1,48% a ON e 1,14% a PN, com o petróleo WTI em avanço de 1,53% no cenário internacional, com o novo sinal positivo na negociação sino-americana.

Reprodução / Facebook

Além da estatal, entre as principais altas do índice estavam Natura ON (5,81%) e Ultrapar ON (6,91). Esta última encerrou o terceiro trimestre de 2019 com lucro líquido de R$ 307,3 milhões, uma queda de 4,9% na comparação com o mesmo período de 2018. A receita somou R$ 23,2 bilhões, uma baixa de 3%. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) totalizou R$ 883,8 milhões, crescimento de 16%. Conforme mostra o Valor, os resultados confirmaram a recuperação nos principais negócios do grupo.

Em relação à Natura, a companhia viu suas ações avançando após o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) ter aprovado a compra da Avon Products, anunciada em maio.

Também são destaque durante o pregão de hoje as siderúrgicas, acompanhadas de Vale ON (0,70%), auxiliada pelo melhor humor no cenário externo. Em relatório enviado a clientes, o Credit Suisse afirmou que a demanda por aço no Brasil será mais forte no ano que vem, esperando um crescimento de 8% na comparação anual para aço longo e de 4% na mesma base para o aço plano. A maior busca pela matéria-prima deverá dar suporte a um ganho maior para as empresas do setor, movimentando os principais papéis desta área no Ibovespa. Há pouco, subiam Usiminas PNA (3,51%), CSN ON (2,20%), Gerdau PN (2,99%) e Gerdau Metalúrgica PN (2,91%).

Na outra ponta, as ações ordinária da IRB Brasil lideraram as perdas do Ibovespa até o momento, após a divulgação de um resultado trimestral um pouco aquém do esperado pelos analistas. Há pouco, o papel caía 3,87% a R$ 36,54. No pior momento do dia, o recuo foi de 4,50%, quando a negociação do ativo foi suspensa pela B3.

Para Raphael Guimarães, operador de renda variável da RJ Investimentos, a redução do ritmo de prêmios auferidos foi uma das maiores decepções dos investidores, somado pontos contábeis também mais fracos. “Ficam dúvidas nesse aspecto, um receio de que continue diminuindo, então o mercado se desfaz dos papéis. O lucro líquido mais baixo também não agrada”, diz. Guimarães também ressalta o avanço de 36,42% das ações da IRB ao longo deste ano, o que abre espaço para uma correção de preços natural.

Dólar

A frustração com os leilões do pré-sal foi renovada nesta quinta-feira, após a 6ª rodada terminar com apenas um dos seis campos arrematado e com participação majoritária da Petrobras. O resultado volta a gerar alguma dúvida sobre a confiança do investidor estrangeiro sobre o Brasil e levou o dólar tocar novamente os R$ 4,10.

Por volta das 14h, a moeda americana operava em alta de 0,38%, aos R$ 4,0965, apagando a queda de quase 1% registrado na abertura. A moeda brasileira tentava acompanhar o exterior, onde o clima é positivo após o ministério do Comércio da China informar que chegou a um acordo para a remoção de tarifas aplicadas mutuamente com os EUA em fases.

Na rodada da ANP de hoje, apenas o campo de Aram foi arrematado, por R$ 5,05 bilhões. A Petrobras voltou a ter participação majoritária, de 80%, com o restante a cargo da CNDOC.

A exemplo do leilão da véspera, os demais campos não tiveram ofertas, nem mesmo da Petrobras, que havia sinalizado intenção de ficar com três deles.

Apesar da aparente falha nesse novo “teste” do apetite do estrangeiro pelo Brasil, o gestor da Infinity Asset, Jason Vieira, adota uma postura mais ponderada. “Existe um movimento hoje que ainda é repeteco o que ocorreu ontem, mas não dá para dizer que é representativo do que pode ocorrer daqui para frente”, diz. “O que vai atrair capital para o Brasil são as concessões e privatizações, e o governo está trabalhando nisso. [O resultado de ontem] não foi bom, mas não muda a perspectiva futura, somente a de curto prazo.”

Após semanas trabalhando com uma perspectiva de forte entrada de fluxo ligado ao leilão do excedente da cessão onerosa também não gerou pânico, participantes de mercado começam a rever agora suas apostas mais otimistas para o real, ao menos no curto prazo. Essa mudança de percepção, no entanto, ainda não chegou a preocupar o importador, avalia Mario Battistel, diretor de câmbio da Fair Corretora.

“O importador ainda não correu para fazer seus pagamentos. Aqueles que podem negociar com seus parceiros lá fora estão esperando para ver se é possível dar uma melhorada nos próximos dias”, diz. “Pode ser que o comportamento visto agora seja um reflexo específico do leilão de ontem e que a tendência é melhorar nos próximos dias.”

Juros

Os juros futuros alternaram entre leves altas e baixas nesta quinta-feira, ao oscilarem perto dos ajustes do dia anterior. Um novo dia de decepção com o leilão do pré-sal e o IPCA de outubro um pouco acima do esperado minaram o otimismo inicial visto nos ativos internacionais, que reagem ao acordo entre Estados Unidos e China para a retirada em etapas de tarifas comerciais trocadas entre os dois países.

“Estamos vendo uma confusão muito grande nos mercados por causa dos leilões de petróleo. Além disso, o IPCA veio mais alto do que o esperado em outubro e, por isso, vemos um miolo da curva bastante apreensivo, enquanto a ponta longa se mostra mais sensível ao câmbio”, diz Maurício Patini, gestor de renda fixa da Absolute Investimentos.

Chefe de pesquisa do Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos afirma que tanto o IPCA cheio quanto os núcleos permanecem confortáveis. Para ele, “o grande hiato do produto negativo, o alto nível de folga no mercado de trabalho, as expectativas de inflação bem ancoradas e as perspectivas reduzidas para o crescimento real de curto prazo do PIB devem contribuir para manter a inflação bem ancorada”. Os dados de inflação de hoje validam um novo corte de 0,50 ponto percentual na Selic em dezembro, diz Ramos.

Não por acaso, a oscilação na taxa dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) de curtíssimo prazo foi bastante restrita. A taxa do DI para janeiro de 2020 passava de 4,74% para 4,743%. No mesmo horário, a taxa do contrato para janeiro de 2021 subia de 4,49% para 4,52%; a do DI para janeiro de 2023 operava estável a 5,57% e a do contrato para janeiro de 2025 estava em 6,14%.