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Ibovespa se recupera após volatilidade no câmbio, mas giro é baixo

Juliana Machado

O principal índice da B3 terminou a sessão com alta de 0,61%, aos 107.708 pontos A volatilidade provocada pela atuação do Banco Central no câmbio, logo depois do ministro da Economia, Paulo Guedes, sinalizar que a desvalorização do real não é um problema, manteve o investidor afastado do mercado de ações na sessão de hoje, véspera de feriado nos EUA. As quedas fortes da véspera, porém, abriram a oportunidade dos agentes demandarem alguns papéis mais líquidos, o que ajudou na recuperação do Ibovespa no dia.

O principal índice da B3 terminou a sessão com alta de 0,61%, aos 107.708 pontos, depois de tocar a máxima do dia em 107.991 pontos e a mínima de 106.312 pontos. O volume financeiro no dia foi de R$ 11,7 bilhões, levemente abaixo da média diária dos pregões de 2019 e bem atrás do fluxo de R$ 19,4 bilhões registrado no pregão de ontem, quando a onda de vendas atingiu um pico na bolsa.

Entre as ações mais líquidas e com melhor desempenho estão as instituições financeiras, justamente as lideranças das perdas recentes, caso de B3 ON (2,04%), Bradesco (1,41% a ON e 1,67% a PN), Banco do Brasil ON (2,91%) e, com menos afinco, Itaú Unibanco PN (0,58%). A Petrobras também fechou em alta (0,19% a ON e 0,48% a PN), enquanto a Vale passou por ajustes após dois dias de pregão positivo (-1,25%).

Segundo gestores, a alta responde à oportunidade de compra deixada por alguns papéis grandes com o tombo recente, mas o volume reduzido é um sinal de que a instabilidade provocada pela oscilação do dólar não terminou. No acumulado de novembro, o avanço do Ibovespa é de apenas 0,41%.

Depois de anunciar duas intervenções no mercado ontem para conter a volatilidade cambial, o Banco Central voltou a oferecer dólares à vista, o que deixou o mercado instável pela enorme falta de correlação dessa atuação com as declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. O ministro afirmou recentemente que o brasileiro teria que se acostumar com um novo dólar, por causa do juro básico estruturalmente baixo que o Brasil pratica atualmente.

Isso forçou o investidor a buscar mais moeda e “testar” o ponto onde o BC aceitaria a cotação antes de interceder — o que se reflete na bolsa tanto em termos de receio da condução e descolamento da política econômica, já o tripé econômico prevê um câmbio flutuante, quanto por causa do limite de baixas que alguns fundos podem ter e que acaba forçando a venda de ações para “cobrir” as perdas de um portfólio geral.

“Quando um país tem arcabouço econômico, não é problema o câmbio ser desvalorizado, desde que isso não gere grande inflação e desarranjo social. Se a gente não conseguiu isso, então é porque deveríamos ter feito outras reformas microeconômicas”, afirma Eric Hatisuka, gestor da Rosenberg. “Se o BC queria ajudar [a atividade], antes de derrubar mais o juro, tinha que ter atacado o spread bancário, isso teria tido efeito colateral na ponta, para o crédito, que é de fato estimulativo para a economia.”

O gestor pondera ainda que os investidores estrangeiros seguem “claramente retraídos” no mundo neste momento e que é ilusório acreditar que haverá grande fluxo enquanto as economias desenvolvidas, como os EUA, não mostrarem algum nível de estabilização ou o Brasil entregar um crescimento que seja mais vigoroso.

“Eu não estou muito otimista, não acredito que vai o índice vá subir mais 20% no ano que vem, como subiu este ano. Estou conservador com o crescimento brasileiro, estamos só no início. E tem ainda o fato de que o crescimento global está jogando contra”, afirma.

Hatisuka diz que um bom pedaço da valorização das ações vista sobretudo neste ano já foi uma antecipação da recuperação da atividade, enquanto a queda de juro dos últimos anos garantiu o “rali” das ações processo. De agora em diante, porém, a bolsa tende a se valorizar “mais em linha com a atividade”.

“Bolsa realmente não é PIB, mas ela já andou por causa do juro mais baixo. As empresas são lucrativas, mas quanto mais o mercado vai aceitar pagar pelas ações? Se o câmbio ficar mais alto por mais tempo, o juro não cairá tanto, então isso provoca uma reprecificação. Precisa vir a resposta da economia, da atividade”, diz.

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