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Ibovespa passa por ajuste de olho no exterior; dólar sobe e bate R$ 4,21

Ana Carolina Neira

A maior preocupação dos investidores, dizem analistas, é a indefinição envolvendo as duas maiores economias do mundo: EUA e China A questão comercial entre Estados Unidos e China continua ditando o ritmo dos negócios por aqui, já que o Brasil conta com uma agenda político-econômica mais fraca nestes dias. Enquanto as bolsas americanas operam no negativo, a única razão que ainda faz o Ibovespa subir levemente hoje é um ajuste técnico, já que não houve pregão ontem por causa do feriado do Dia da Consciência Negra. Com o fechamento em baixa na terça-feira, era esperada alguma recuperação para hoje.

Às 13h50, o índice subia 0,31%, aos 106.198 pontos. Nas máximas, foi aos 106.531 pontos. O giro financeiro está dentro do esperado para o horário e soma R$ 4,8 bilhões.

A maior preocupação dos investidores, dizem analistas, é a indefinição envolvendo as duas maiores economias do mundo. Ontem, as bolsas internacionais foram pressionadas pela notícia de que um acordo entre americanos e chineses aconteceria somente no ano que vem. Enquanto a Casa Branca tenta colocar panos quentes e garante que há avanço nas negociações, os asiáticos permanecem reticentes sobre qualquer acordo definitivo, gerando incerteza ao mercado.

Está prevista para o dia 15 de dezembro a inserção de novas tarifas contra produtos chineses, estimadas em 15% sobre US$ 156 bilhões em importações.

"O investidor perde a empolgação com tantas dúvidas, mesmo que os fundamentos para Brasil ainda sejam bons. Cada hora falam uma coisa e essa situação entre China e Estados Unidos ainda deve durar bastante", diz o analista de investimentos da Mirae Asset, Pedro Galdi. Para ele, a intensificação da quantidade de informações desencontradas nas últimas semanas já penaliza o Ibovespa nesta reta final do ano.

"Tinha esperança naquele Ibovespa em 120 mil pontos em dezembro, mas agora se chegar em 110 mil pontos já está bom. O cenário externo deteriorou muito as expectativas por aqui e o investidor local é que continua carregando nossas altas", diz.

Entre os destaques positivos do índice nesta manhã estão CVC Brasil ON (4,44%), Gerdau PN (4,84%) e Gerdau Metalúrgica PN (3,65%).

A CVC já soma um giro financeiro de R$ 124 milhões nesta sessão, bem próximo dos R$ 128 milhões vistos durante todo o pregão de terça-feira. Para analistas, há agora uma recomposição de preços esperada para o ativo, que acumula uma desvalorização de 33,38% no ano e baixa de 20,74% no mês, reflexo de um balanço trimestral mal recebido pelo mercado. A companhia foi penalizada, principalmente, pelas complicações judiciais envolvendo a Avianca Brasil, a alta do dólar e o desastre ecológico no Nordeste. A CVC chegou a perder R$ 1,89 bilhões em valor de mercado por isso.

No caso da Gerdau, o BTG Pactual recomendou, em relatório, aumento de posição nos papéis da companhia tendo em vista o cenário de recuperação da demanda por aço no Brasil e o preço atual dos papéis.

Para os analistas, a retomada do setor siderúrgico está apenas no começo, mas a tendência é de aceleração da demanda à medida em que o setor de construção também se recupere. “Isso será um grande catalisador para as ações da Gerdau, que sofre há anos com uma demanda muito baixa”, afirmam eles.

Os analistas dizem ainda que a cotação atual da Gerdau oferece um bom “ponto de entrada”, com os papéis sendo negociados a cinco vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) estimado para 2020.

Entre as baixas, destaque para Marfrig ON (-3,19%), que já acumula uma valorização de 100,18% neste ano.

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Dólar

O dólar opera em alta de 0,35%, aos R$ 4,2135, com investidores digerindo as notícias sobre a guerra comercial entre Estados Unidos e China. Os últimos dias foram profícuos em sinais contraditórios sobre o tema. Somente hoje, o jornal South China Morning Post (SCMP) noticiou que os EUA estariam dispostos a adiar a entrada em vigor uma nova rodada de tarifas esperada para 15 de dezembro. Mais tarde, no entanto, a mesma publicação afirmou que o governo em Pequim está irritado com a decisão do Congresso americano de aprovar uma lei que endurece a fiscalização sobre condutas de direitos humanos em Hong Kong.

Segundo o SCMP, a medida poderia se tornar uma nova barreira à assinatura do acordo e o o governo chinês está de olho na conduta do presidente Donald Trump. Esta manhã, a lei aprovada foi encaminhada para promulgação à Casa Branca e a expectativa, segundo a midia americana, é que o republicano dê aval ao projeto mesmo diante dos sinais enviados pelo gigante asiático.

O vai e vem das negociações enfraquece o dólar frente às divisas de países desenvolvidos e deixa as moedas emergentes sem direção única neste pregão. No horário citado, o índice DXY da ICE recuava 0,06%, enquanto o dólar subia 0,54% contra o peso chileno, mas cedia 0,35% ante o peso mexicano e 0,23% na comparação com o dólar canadense.

Enquanto a extensão do dano causado pela questão de Hong Kong poderá ser conhecida ainda hoje, o próximo evento-chave deve acontecer em 15 de dezembro, notam analistas do Commerzbank. "Nessa data, tarifas sobre o equivalente a US$ 160 bilhões em importações da China começam a valer, principalmente sobre eletrônicos", lembra o banco alemão. "O governo americano já se mostrou sensível a uma alta dos preços desses produtos às vésperas do natal e de uma possível reação negativa do consumidor local".

Internamente, investidor também se ajusta ao esclarecimento dado ontem pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. O dirigente afirmou que foi mal entendido na terça-feira e reiterou que a autoridade monetária agirá via juros caso o dólar ameace as expectativas de inflação, não com intervenções no mercado cambial.

"O Campos Neto deu algum combustível para o comprado, ao mostrar que não tem preocupação com o dólar, pelo menos nesse momento", diz Cleber Alessie Machado, operador da H. Commcor. "Como ainda não vemos repasse cambial e o mercado segue funcional, os comentários dão coragem ao comprador de dólares."

Apesar do sinal vindo de fora e do presidente do BC, Machado nota que o clima de negociação ainda é o mesmo do início da semana. “Quando vem algo positivo dos EUA, o dólar cai. Mas se nada de novo acontece, a tendência continua sendo a de alta”, diz.

Juros

Com o dólar acima de R$ 4,20 e perspectivas de aceleração da inflação no curto prazo, os juros futuros operaram em alta, com avanço expressivo de taxas observado nos vértices intermediários da curva a termo. Os rendimentos de alguns contratos chegaram a subir 15 pontos-base, também apoiados por comentários do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre a relação entre o câmbio e as expectativas de inflação.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 subia de 4,66% no ajuste anterior para 4,75%; a do DI para janeiro de 2022 avançava de 5,28% para 5,42%; a do contrato para janeiro de 2023 saltava de 5,80% para 5,94% e a do DI para janeiro de 2025 passava de 6,39% para 6,52%. No mesmo horário, o dólar era cotado a R$ 4,2120 (+0,31%).

Com um volume de negociação concentrado, principalmente, na ponta curta da curva, os juros futuros já amanheceram em alta, em reação a comentários de Campos ontem. De acordo com ele, “o importante para a gente é como o câmbio alimenta o canal de inflação. O importante é ver se esse movimento de câmbio está fazendo com que a expectativa de inflação esteja sendo elevada, porque isso acaba contaminando a curva de expectativa de inflação. E, se isso estiver acontecendo, nós temos obviamente que agir”. Essa ação, segundo o dirigente, seria, por meio dos juros, e não de intervenções no câmbio.

Trader da Renascença, Luis Laudisio nota que as declarações de Campos Neto surtiram mais efeito na curva do que no dólar, principalmente nos vértices mais curtos, “que naturalmente reduziram as apostas de corte na Selic, dado o certo ‘desconforto’ com o câmbio”. Pesquisa do Bank of America Merrill Lynch com gestores divulgada no início deste mês mostra que três quartos dos participantes acreditam que o dólar precisaria ficar acima de R$ 4,20 reais para impedir a Selic de ir abaixo do nível de 4,50%.