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Ibovespa opera em baixa refletindo aversão ao risco global; dólar avança

Lucas Hirata e Ana Carolina Neira

Preocupação de que a recuperação econômica global aconteça em ritmo mais lento do que o esperado retornou ao foco dos agentes A busca por proteção nos mercados globais volta a penalizar os ativos brasileiros nesta segunda-feira. Diante do risco de uma segunda onda de contágio da covid-19 nas maiores economias do mundo, o Ibovespa cai cerca de 2%, em linha com as baixas nas bolsas de Nova York, e o dólar opera em firme alta.

Em paralelo, os investidores locais acompanham o noticiário em torno do anúncio de Mansueto Almeida, secretário do Tesouro Nacional, de que deixará o governo nos próximos meses. De acordo com analistas, embora a partida deixe alguma apreensão no mercado, não é o motivo de um grande estresse no mercado.

Por volta das 13h10, o Ibovespa operava em baixa de 1,88%, aos 91.046 pontos, com giro financeiro de R$ 10,7 bilhões. Logo nos primeiros trinta minutos de sessão, o giro superava R$ 2,4 bilhões, o dobro do esperado para a abertura do pregão e dimensionando a força vendedora do dia. Além disso, hoje é dia de vencimento de opções sobre ações, o que traz volatilidade adicional ao índice.

O dólar comercial subia 3,10%, aos R$ 5,1972, depois de tocar R$ 5,2258 na máxima do dia. Com o salto do dólar no Brasil, o real é a moeda que mais se desvaloriza nesta manhã em comparação com as divisas mais negociados do mundo. O segundo pior desempenho é do peso mexicano, que perde 1,70% contra o dólar hoje.

O principal catalisador do movimento em todo o mundo é a preocupação com uma nova onda de contágio da covid-19, que ameaça a velocidade de recuperação da economia dos Estados Unidos. Em Wall Street, o índice Dow Jones recuava mais de 1%.

Nos últimos dias, foram registrados casos crescentes da doença nos EUA (Arizona, Califórnia, Flórida e Texas), bem como um novo surto em Pequim (mais de 80 casos do no fim de semana, depois de passar sete semanas sem um único caso novo) e em Tóquio (maior número diário de casos novos, 47, desde 5 de maio). Este cenário eleva sobremaneira as preocupações dos investidores sobre o impacto econômico da pandemia.

“Tal cenário esvazia, pelo menos por enquanto, as apostas mais otimistas no âmbito da recuperação da atividade global - sentimento que vinha embasando, em conjunto com as trilionárias injeções de estímulos pelos principais governos e seus bancos centrais, o impressionante rali de recuperação visto até a última segunda-feira, 8 de junho”, explica o operador Cleber Alessie Machado Neto, da Commcor.

Para o economista Silvio Campos Neto, da Tendências, as perdas dos ativos brasileiros hoje são muito direcionadas pelo risco de nova onda de contágio nos EUA e na China. “ O mercado exagerou na recuperação talvez entendendo que [as economias] superariam rapidamente os impactos da pandemia e a própria pandemia. Tem uma correção, e agora com o risco de vermos novas ondas de casos. E isso prejudica recuperação da economia”, explica o profissional.

O analista diz que a saída de Mansueto não significa um redirecionamento da política fiscal. “Ainda é a agenda do Paulo Guedes, que a princípio tem uma linha fiscalista. Por ora, não está no preço uma mudança de orientação. O anúncio geral desconforto e apreensão. Mansueto tem credibilidade construída, isso faz diferença. Mas a expectativa de manutenção de diretrizes reduz o estresse”, diz.

Ele também notou que "o anúncio gera apreensão, mas não é grande surpresa". "Já tinha uma especulação há algum tempo, já era relativamente esperado, mas não dava para saber quando ocorreria. Agora, todos ficam na expectativa com a substituição. A expectativa é que seja alguém comprometido com a agenda de Paulo Guedes. Não há um grande estresse por causa disso”, diz o economista da Tendências.

Para o economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, a saída de Mansueto é “uma grande perda para o governo Bolsonaro e a equipe econômica” e o momento de sua partida “também é inoportuno, devido à deterioração da orientação fiscal e à necessidade de pressionar por reformas e outras medidas para ancorar novamente a dinâmica fiscal/da dívida”.

Por outro lado, Ramos afirma que sua saída provavelmente não é um sinal de opiniões divergentes sobre políticas dentro da equipe econômica e, como tal, provavelmente não levará a uma grande mudança na orientação macroeconômica. “O ministro da Economia, Paulo Guedes, continuará sendo o principal formulador de políticas econômicas do governo Bolsonaro e deverá continuar a perseguir uma agenda liberal/reformista, mas perderá um consultor de confiança e altamente conhecedor”, afirma o economista do Goldman Sachs.

Na bolsa, destaque entre as poucas altas do dia é Cielo ON (27,5%), já que o Whatsapp começa a oferecer hoje no Brasil um o serviço de pagamento e transferência de dinheiro pelo aplicativo, em uma parceria com a adquirente.

O salto do dólar também ocorre poucos dias antes da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, o que também adiciona pressão no câmbio, na avaliação de alguns analistas. Praticamente unânime, a expectativa no mercado é de uma nova redução de 0,75 ponto percentual da Selic, de 3,00% para 2,25%, no anúncio de quarta-feira. “Apesar do consenso, é mais uma queda da Selic e, com a aversão a risco crescendo, o real apanha mais”, diz Joaquim Kokudai, gestor na JPP Capital, ao lembrar que até semana passada a moeda local havia conseguido tirar boa parte da diferença no ano contra outros emergentes.

Silvia Zamboni/Valor