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Ibovespa não segue exterior e opera em queda; dólar testa nível de R$ 4,08

Ana Carolina Neira, Marcelo Osakabe e Victor Rezende

Tom mais apaziguador de Donald Trump em relação ao Irã e produção industrial brasileira dividem pauta dos investidores A cautela local impõe perdas ao Ibovespa nesta quinta-feira, descolando o índice de seus pares globais. Enquanto as bolsas no exterior atuam em alta e renovam máximas diante do tom mais apaziguador de Donald Trump em relação ao Irã, a bolsa brasileira é penalizada pelo noticiário doméstico.

Ao redor de 14h30, o Ibovespa cedia 0,35%, aos 115.838 pontos. O giro financeiro também é bastante forte para o horário e somava R$ 9,3 bilhões.

Mais cedo, o IBGE informou que a produção industrial brasileira caiu 1,2% em novembro. O resultado interrompe uma sequência de três meses de avanço na produção e gera certa preocupação em parte dos agentes, o que justifica a queda da bolsa. Nos últimos meses, o Brasil vinha apresentando indicadores melhores, que apontavam para uma recuperação lenta, porém consistente. Porém, a divulgação de hoje renova os temores de que a economia segue patinando e carecendo de estímulos.

Andre Penner / Associated Press

O sócio-fundador da Veedha Investimentos, Rodrigo Marcatti, reforça que além do resultado da pesquisa industrial, o Ibovespa busca novos gatilhos capazes de destravar patamares mais elevados. "Não podemos esquecer que logo no primeiro pregão do ano chegamos aos 118 mil pontos, então, é saudável que o índice realize um pouco os lucros. Para a bolsa seguir naquela alta consiste que vinha experimentando até o fim do ano passado precisamos de novas notícias realmente boas e dados melhores", diz.

As ações do setor bancário também pressionam o Ibovespa hoje - cediam Bradesco (-1,88% a ON e -2,19% a PN), Banco do Brasil ON (-1,77%) Itaú PN (-2,02%) e as units do Santander (-1,24%).

O movimento reflete fala do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, de que o projeto de 'open banking', que promete abrir o mercado financeiro para competição, é uma das prioridades da instituição. A medida é uma aposta do BC para derrubar os juros a partir da integração as instituições financeiras. Na prática, a partir do compartilhamento de dados, os bancos poderão oferecer produtos e serviços para clientes de seus concorrentes.

Além disso, os ativos também são pressionados pela entrada da Caixa no segmento de atacado. Com foco em médias empresas, a novidade foi avaliada pela XP Investimentos como negativa para bancos de capital aberto, já que também acirra a competição.

Já Cielo ON recuava 4,21%. O recuo reflete o rebaixamento de recomendação do papel pelo Bradesco BBI, altaerada de "neutra" para "venda", com corte de preço-alvo de R$ 7,00 para R$ 6,50. Para os analistas do banco, as pressões sobre o lucro da companhia devem continuar e as renegociações de incentivos com os bancos parceiros não devem ser suficientes para alterar a visão sobre o futuro.

Pelo lado positivo, um dos destaques do pregão de hoje é Marfrig ON (2,63%), que chegou a liderar os ganhos do dia, seguindo o ritmo de alta visto no pregão do dia anterior. O movimento acontece após a empresa anunciar o lançamento de carne de porco vegetal no Brasil. Até hoje, apenas a startup Impossible Foods é capaz de produzir o mesmo produto, lançado nesta semana em uma feira de tecnologia em Las Vegas.

Outro fator que colabora para o avanço da companhia são os novos surtos de gripe aviária na Índia e na China, além de casos de peste suína africana na Bulgária. A disseminação dessas doenças afetam ainda mais o suprimento global de proteínas, gerando oportunidade de novas exportações para todo o setor frigorífico.

Câmbio

A redução dos temores entre um conflito entre Estados Unidos e Irã, reforçada ontem pelo discurso apaziguador de Trump, ajuda o dólar a se recuperar contra contra divisas nesta quinta-feira. O movimento contamina a negociação das divisas divisas emergentes, como o real, que, contrariamente ao esperado, cedem terreno em um dia típico de tomada de risco. Por volta das 14h30, o dólar operava em alta de 0,77%, aos R$ 4,0830.

"Tivemos um bom desempenho do dólar desde ontem por causa da queda do risco político e isso explica a desvalorização do real", diz Victor Candido, gestor da Journey Capital. "Da mesma forma que o real se valorizou bastante em dezembro na esteira do enfraquecimento do dólar, ocorre essa volta agora."

Internamente, o avanço do dólar também é ajudado por dados piores que o esperado da produção industrial no penúltimo mês de 2019.

Juros

O resultado abaixo do esperado da produção industrial brasileira em novembro e a expectativa de pressões inflacionárias mais amenas do que o esperado deixaram os juros futuros em queda. Durante boa parte da manhã, porém, as taxas operaram em alta, principalmente nos vértices mais longos da curva, à espera do leilão de títulos tradicionais do Tesouro Nacional, que, pela primeira vez, ofertou NTN-F para janeiro de 2031.

Por volta de 14h30, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 passava de 4,46% no ajuste de ontem para 4,455%; a do DI para janeiro de 2022 recuava de 5,16% para 5,14%; a do contrato para janeiro de 2023 caía de 5,72% para 5,68% e a do DI para janeiro de 2025 cedia de 6,40% para 6,37%.

O economista-chefe da Tullett Prebon, Fernando Montero, nota que “este é o primeiro número negativo em um quadro de números bastante positivos entre os grandes indicadores recentes da economia”. Para ele, a leitura industrial de novembro não deve alterar o quadro de recuperação da economia. Montero, porém, pontua que “caberá à política monetária, na sua próxima reunião, limpar efeitos pontuais nas demandas e ofertas da economia deste último ano (calendário, FGTS, Black Friday, Argentina etc.).”

A Tullett espera um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros em fevereiro, assim como outras instituições financeiras. Essa aposta tem ganhado força nos últimos dias diante de dados de inflação abaixo do esperado pelos agentes. Dados da Renascença apontam que a inflação implícita calculada a partir dos títulos indexados ao IPCA (NTN-Bs) passou de 4,62% um mês atrás para 3,72% agora, nível abaixo da meta de 4% do Banco Central.

Economista do BNP Paribas, Gustavo Arruda afirma que os núcleos da inflação devem ser olhados com mais atenção nos próximos meses, após o choque nos preços da carne. “O setor de serviços ainda mostra números de inflação bastante calmos e, por isso, faz mais sentido a calma nos mercados de inflação implícita”, diz o economista.

Nesse cenário, os investidores locais aumentaram as posições líquidas vendidas em taxa de juro, que refletem aposta em redução dos juros, em 173.002 contratos, para 2.093.458 contratos em aberto. Por outro lado, os estrangeiros ampliaram a posição líquida comprada em taxa em 194.752 contratos, para 1.773.705 contratos em aberto, de acordo com dados da B3.

Na ponta longa da curva a termo, as taxas operaram em alta durante boa parte do dia à espera do leilão do Tesouro que ofertou 2 milhões de NTN-F para 2031 pela primeira vez. A quantidade foi vendida integralmente. No horário acima, a taxa do DI para janeiro de 2031 recuava de 7,20% no ajuste de ontem para 7,12%, após ter tocado máxima a 7,27% mais cedo.