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Ibovespa destoa do exterior e cai; dólar opera na casa de R$ 4,21

Ana Carolina Neira, Marcelo Osakabe e Victor Rezende

Investidores acompanham conversas comerciais entre EUA e China Ainda que as perspectivas para a bolsa brasileira continuem boas, o Ibovespa não consegue acompanhar a cena externa neste primeiro pregão da semana. Analistas avaliam que o índice acomodou-se em um patamar técnico que será destravado apenas mediante notícias realmente capazes de garantir um forte impulso aos ativos brasileiros. Assim, apesar das altas e do otimismo no exterior, o Ibovespa passa por um ajuste técnico após acumular uma alta de 2% na semana passada.

Reprodução/Facebook

Às 13h45, o índice cedia 0,44%, aos 108.214 pontos e um giro financeiro de R$ 5,3 bilhões, dentro do esperado para o horário.

No exterior, o movimento é influenciado principalmente pelos aparentes avanços nas negociações comerciais entre China e Estados Unidos. Novas diretrizes chinesas que exigem ações aprimoradas para combater violações de propriedade intelectual são o mais novo indicativo, para os negócios, de que um acordo entre os dois países está mais próximo, auxiliando os ativos locais.

"O humor do investidor não mudou, mas chegamos nesta região dos 108 mil pontos, de onde pode ser um pouco mais difícil avançar. E hoje o Ibovespa está sendo especialmente penalizado pelas blue chips", afirma Luis Sales, analista da Guide Investimentos.

De fato, Bradesco (-1,19% a ON e -0,53% a PN), B3 ON (-2,34%) e Petrobras (-0,56% a ON e -0,70% a PN) ajudam a manter o índice em níveis mais baixos. A única ação de relevante peso e liquidez dentro da carteira capaz de subir hoje é Vale ON (1,90%), inclusive impedindo que o Ibovespa recue com mais força.

A mineradora já movimenta um total de quase R$ 750 milhões, sendo o papel mais negociado de todo o mercado à vista. A principal razão para esse avanço vem da valorização de 3,22% no preço do minério de ferro na China, reflexo do otimismo em relação à guerra comercial. CSN ON (3,31%) – que conta com uma operação significativa em mineração –, Gerdau PN (3%) e Gerdau Metalúrgica PN (2,45%) também estavam em alta.

Ecorodovias ON (2,13%) também aparece entre as maiores altas e movimenta um total de R$ 33,2 milhões, acima dos R$ 27,7 milhões vistos durante todo o pregão da última sexta-feira.

Isso acontece após a XP Investimentos iniciar a cobertura do setor de rodovias com recomendação de compra para os papéis da companhia. A CCR ON (-0,29%) ficou recomendação neutra. De acordo com a XP, a preferência "é baseada nos múltiplos relativamente mais atrativos, no maior duração do portfólio e no crescimento esperado superior nos indicadores financeiros no curto/médio prazo, refletindo a aceleração do tráfego aliada à maturação de ativos incorporados recentemente."

Entre as demais altas do dia estão as ações do setor frigorífico: BRF ON (4,25%), JBS ON (5,63%) e Marfrig ON (4,40%). Para alguns analistas, a disponibilidade de carnes na China ainda não atingiu o menor patamar possível, o que deve ocorrer somente no ano que vem. Isso torna o cenário mais favorável para essas empresas, que devem aumentar suas exportações.

As importações chinesas de carne suína somaram 177,43 mil toneladas em outubro, volume 113,9% superior ao comprado no mesmo mês do ano passado, informou o serviço aduaneiro chinês mais cedo. De carne bovina, o país asiático importou 150,83 mil toneladas em outubro, alta anual de 63,2%. As compras de carne frango e miúdos congelados, por sua vez, cresceram 64%, para 66,92 mil toneladas. E de carne de cordeiro, 42,3%, para 28,34 mil toneladas.

Câmbio

O exterior mais desafiador para emergentes e dados piores que o esperado da conta corrente em outubro voltam a colocar pressão sobre a negociação do dólar no Brasil no início desta semana. De olho ainda no impasse da disputa comercial entre Estados Unidos e China, o dólar comercial operava em alta de 0,62% por volta das 13h50, aos R$ 4,2179.

No exterior, o euro se enfraquece na margem após dados piores que o esperado do índice Ifo de sentimento comercial na Alemanha. O movimento ajuda o dólar a avançar contra 23 das 33 divisas mais negociadas do mundo.

No Brasil, repercute também o déficit de US$ 7,9 bilhões nas transações correntes em outubro, maior que os US$ 5,8 bilhões projetados pelo Banco Central (BC). Os dados voltam a chamar atenção para a saída de divisas do país, movimento que enfraquece o câmbio.

Além dos indicadores do dia, investidores também aguardam os desdobramentos da disputa comercial entre Estados Unidos e China. Embora o noticiário dos últimos dias tenha vindo temperado de declarações positivas - esta madrugada, um veículo estatal chinês divulgou matéria afirmando que as duas partes estão próximas de um acordo -, muitos agentes continuam cautelosos com a demora no acerto dos ajustes. No mês passado, após reunião na Casa Branca, o presidente Donald Trump havia afirmado que a fase 1 do acordo seria assinada ainda em novembro.

Juros

Depois de esboçarem uma redução de prêmio no início do dia, os juros futuros ganharam um pouco de força, em movimento alinhado à valorização do dólar, que chegou a ultrapassar R$ 4,21. Enquanto a influência do câmbio continua no radar dos agentes, a projeção mediana do mercado para a Selic no fim do próximo ano passou de 4,25% para 4,50%, de acordo com a Focus, diante da perspectiva de inflação mais acelerada no curto prazo.

Por volta de 13h50, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 ia de 4,65% no ajuste anterior para 4,64%; a do contrato para janeiro de 2023 avançava de 5,88% para 5,90% e a do DI para janeiro de 2025 subia de 6,45% para 6,50%.

Sem grandes catalisadores, os juros futuros iniciaram o dia em queda, sinal que se manteve na ponta curta, em reação aos desenvolvimentos comerciais entre Estados Unidos e China. O governo chinês divulgou um documento, no domingo, em que pede por maior proteção dos direitos de propriedade intelectual, uma questão central nas disputas entre os dois países.