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Ibovespa cai quase 14% em mais um dia de pânico e "circuit breaker"

Marcelle Gutierrez

Movimento é causado pelas incertezas sobre os efeitos econômicos da disseminação do coronavírus O cenário é de forte volatilidade. Após um respiro passageiro na última sexta-feira, o Ibovespa voltou a registrar um pregão de forte aversão ao risco, com fuga generalizada de investidores a qualquer preço. Após ajustes, o Ibovespa fechou em queda de 13,92%, aos 71.168 pontos.

Há algumas semanas, o movimento vendedor é causado pelas incertezas sobre os efeitos econômicos da disseminação da Covid-19, mas hoje a dose extra de pânico veio da decisão radical do Federal Reserve (Fed) na noite de ontem, e por aqui, dos novos capítulos da disputa política entre o presidente Jair Bolsonaro e o Congresso.

Logo na primeira hora de pregão, o Ibovespa entrou em ‘circuit breaker’ - o quinto em uma semana - e os negócios foram interrompidos por meia-hora ao atingir uma desvalorização acima de 10%. Na mínima do dia, aos 70.855 pontos, o índice chegou perto de uma nova paralisação, ao cair 14,3%, o que não ocorreu.

O volume financeiro totalizou R$ 23,98 bilhões, abaixo da média diária do mês, de R$ 26,3 bilhões. Hoje também foi dia de exercício de opções sobre ações, que movimentou R$ 21,36 bilhões.

O desempenho negativo do principal índice de ações da bolsa brasileira ocorreu em linha com outras bolsas pelo mundo. Nos Estados Unidos, o Dow Jones caiu 12,93%, o S&P 500 teve uma baixa de 11,98% e o Nasdaq cedeu 12,32%.

O que assustou os investidores foi a nova decisão extraordinária do Fed - a segunda no mês - de cortar os juros para o intervalo entre zero e 0,25% e lançar um pacote de estímulos, incluindo a compra de US$ 700 bilhões em treasuries e títulos lastreados em hipotecas.

A decisão foi acertada, segundo profissionais do mercado, mas sinalizou que a autoridade americana tem conhecimento de que algo pior está acontecendo ou irá ocorrer pela expansão da doença.

“Nunca na história do Fed ocorreram dois cortes em espaço tão curto de tempo e ocorreu alguns dias antes da reunião oficial. Da maneira que aconteceu, acabou assustando o investidor que chega a conclusão de que se o Fed atua desse jeito é porque algo muito ruim está acontecendo”, comenta Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos.

Villegas detalha que desde a semana passada o investidor está sensível a qualquer notícia e migra para ativos mais conservadores e de alta liquidez. O movimento é ainda intensificado na bolsa brasileira por fundos de investimento, que precisam desfazer posições no cenário de risco e para honrar pedidos de resgate.

A visão é de que o cenário de volatilidade continuará em bolsa, até o momento em que os casos de coronavírus comecem a reduzir ou que seja criada uma vacina. Até lá, “não tem politica monetária ou fiscal que tire o peso”, comentou um gestor, que prefere não ser identificado. Segundo ele, os bancos centrais estão garantindo a liquidez do sistema e o funcionamento. “Se não estivessem agindo, poderia ser pior.”

Sobre o cenário político, Bolsonaro foi criticado por ter participado de manifestações ontem. As críticas vieram por ter sido um ato em prol do governo, mas que critica o Congresso, e também pelo fato de o presidente ter interagido com os manifestantes, desrespeitando orientação médica para isolamento. Alguns atuais e antigos aliados dele, como a deputada Janaina Paschoal, defendem a saída de Bolsonaro.

Em uma semana, o Ibovespa acumula perdas de 17,31%. No mês, a queda chega a 31,68% e, em 2020, a 38,46%.

As piores quedas no dia e no mês são das companhias aéreas e de turismo, já afetadas pelo avanço da doença. Hoje, Azul PN caiu 36,87% e Gol PN teve uma baixa de 28,02%. No mês, as perdas chegam a 64,20% e 68,16%, respectivamente.

Nesta sessão, CVC ON recuou 32,25% e, em março, o recuo chega a 59%.

Valor de mercado

As empresas que compõem o Ibovespa perderam R$ 380 bilhões em valor de mercado somente no pregão desta segunda, conforme levantamento do Valor Data.

Na sexta-feira (13), o valor somava R$ 2,87 trilhões e atingiu hoje R$ 2,49 trilhões.

Desde o dia 6 de março, quando totalizava R$ 3,37 trilhões, as perdas atingem R$ 880 bilhões.

Silvia Zamboni/Valor