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Ibovespa cai mais de 4% com agravamento da pandemia na Europa

Lucas Hirata, Victor Rezende e Marcelle Gutierrez
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O movimento negativo não poupou nenhum papel do índice e todas as ações terminaram no vermelho O agravamento da pandemia de covid-19 em algumas das maiores economias do mundo deixou algo bem claro para os investidores: a crise ainda está longe do fim e arrisca uma nova queda abrupta da atividade. Essa preocupação detonou uma onda de vendas de ações nas principais bolsas globais e atingiu em cheio os mercados brasileiros, que também sofrem com as incertezas sobre os rumos das contas públicas. O Ibovespa fechou em queda de 4,25%, aos 95.369 pontos, nas mínimas do dia. O movimento negativo não poupou nenhum papel do índice e todas as ações terminaram no vermelho, mas as maiores prejudicadas foram justamente aquelas que dependem de uma normalização da economia. Esses são os casos de empresas do setor aéreo e de turismo, que também figuram entre os piores desempenhos do ano. Nem mesmo a perspectiva de uma temporada de balanços mais positiva no terceiro trimestre conseguiu evitar um tombo tão grande na bolsa. De acordo com analistas, os ativos locais sofrem com uma piora da percepção de risco dos investidores em todo o mundo, que fogem de ativos mais arriscados, mas o maior problema por aqui ainda é a situação fiscal e o risco de um descontrole dos gastos. Assim, qualquer outro assunto foi deixado de escanteio neste momento, e as atenções se concentram na situação fiscal e na cena externa. Entre as empresas de maior peso na bolsa, Petrobras ON cedeu 6,14% e Petrobras PN recuou 6,09%, enquanto Itaú Unibanco caiu 4,46%, Bradesco ON cedeu 6,02% e Bradesco PN caiu 5,66%. Ricardo Cará Monteiro, sócio e gestor da Macro Capital, nota que o desempenho da bolsa tem sido melhor do que câmbio e juros e que o período sazonal de divulgação de balanços, que têm vindo acima do esperado, se mostra favorável a isso. “Mas quando vem a incerteza externa, a continuidade do imbróglio político continua e o tempo jogando contra, você tem o ambiente certo para uma aversão a risco como a que estamos vendo hoje”, afirma. Ele avalia, ainda, que esse movimento pode continuar nos próximos dias. “O mercado está sem uma boia para se apoiar neste momento e é aí que ocorre um reajuste de carteiras, com redução do risco.” Ao comparar os mercados de bolsa e de juros, ele nota que as taxas futuras já embutem um mau humor elevado com o cenário fiscal brasileiro. “O mercado atropelou há muito tempo a visão do BC de que a inflação é passageira e de que os juros devem permanecer baixos por muito tempo. O prêmio que o mercado não estava descontando em ações já estava acontecendo nos juros. O mercado de juros já embute um certo grau de percepção negativa de risco local que a bolsa não tinha, até porque o mercado de ações consegue se deslocar um pouco mais desses riscos”, afirma Monteiro. Para Marcos Mollica, gestor do Opportunity, a nova onda de covid-19 que atinge, principalmente, os países da Europa está mais forte que o mercado esperava e as medidas de paralisação voltam a ficar severas. Tudo isso força uma correção nos ativos de risco em todo o mundo, em um movimento que é intensificado pela proximidade de outro grande evento, a eleição presidencial nos Estados Unidos, que diminui a disposição dos investidores a assumir riscos. “Acredito que vai impactar, sim, a perspectiva de crescimento na Europa. Aqui, acho que nossos problemas fiscais ainda são muito mais relevantes para determinar a dinâmica da economia. Contudo, esta segunda onda na Europa é um alerta. Se acontecer algo parecido aqui seria devastador. Tanto pelo impacto dos lockdowns na economia quanto pela disposição dos políticos de recolocar o país numa trajetória de austeridade”, afirma o gestor. Eric Hatisuka, diretor de investimentos da Rosenberg Asset, explica que o cenário para o Brasil poderia ser um pouco mais favorável, tendo em vista que o país não enfrenta neste momento uma segunda onda. O grande problema, porém, é o risco fiscal e as discussões atuais sobre a extensão do estado de calamidade pública, que elevariam os gastos do governo. “A gente poderia estar se saindo melhor, porque todo mundo está enfrentando uma segunda onda e o Brasil tem uma economia forte”, acrescenta. “Como fizemos um gasto muito grande e existe ainda um desarranjo político, isso não ajuda na luta contra a pandemia nem contra a crise local”, diz. Diante deste cenário todo, o profissional explica que as carteiras na gestora já estão bastante defensivas e a última grande compra de ações ocorreu quando o Ibovespa estava na marca de 90 mil pontos. Ao mesmo tempo, a carteira é protegida pelo dólar que tem se mostrado um hedge eficiente neste ano. Para ele, dados os riscos no entorno do mercado, ainda não é o caso de aumentar a exposição na bolsa. Ele prefere esperar uma janela caso o Ibovespa volte para os 90 mil pontos. Em paralelo, por mais que os juros prefixados de longo prazo tenham prêmios interessantes, a incerteza fiscal evita uma exposição maior nesse trecho da curva. Ralph Orlowski/Bloomberg