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Ibovespa cai com tensão EUA x China; dólar recua

Ana Carolina Neira, Marcelo Osabake e Victor Rezende

Endurecimento do discurso de Trump causa mal-estar geral nas bolsas ao redor do mundo A despeito do bom resultado do Produto Interno Bruto (PIB), o clima no cenário externo pesa bastante no mercado nesta terça-feira, após o residente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que não tem prazo para firmar qualquer tipo de acordo com a China e que isso pode, inclusive, ocorrer somente após as eleições americanas, que acontecem em novembro de 2020.

O endurecimento de seu discurso já causa mal-estar geral nas bolsas ao redor do mundo, incluindo o Ibovespa, que recuava 0,44% às 13h52 aos 108.454 pontos.

Bolsas de NY operam em forte queda após fala de Trump

"As falas recentes do Trump desanimam todos os mercados e por mais que haja um otimismo com Brasil, um exterior mais abalado naturalmente nos afeta, até porque o Ibovespa tem muitos papéis bastante ligados ao exterior", diz Victor Candido, gestor da Journey Capital.

Havia forte expectativa de que um acordo de "Fase 1", que estava com previsão de assinatura desde novembro, evitasse a entrada de novas tarifas em vigência a partir do próximo dia 15. Após a fala de Trump, são reforçados os argumentos de uma parte do mercado de que não existe intenção de resolução rápida para o conflito, que ainda deve durar longos meses.

Também já circulam na mídia chinesa notícias de que não há boa vontade por parte dos americanos em firmar um acordo comercial.

Além disso, Trump também anunciou na segunda-feira a retomada de tarifas ao aço e ao alumínio de Brasil e Argentina supostamente em retaliação a desvalorização recente das moedas dos dois países e agora ameaça tarifar em até 100% um total de US$ 2,4 bilhões em importações francesas.

Segundo um gestor que prefere não ser identificado, é a soma de todos esses fatores que explica a aversão ao risco observada no mercado.

“Ninguém achava que a guerra comercial seria resolvida do dia para a noite, mas essa fala do Trump de que ela pode estender-se muito mais gera dúvidas, principalmente porque não sabemos se ele fala sério ou se tudo isso é parte de uma estratégia de negociação. Para piorar, ele decidiu atacar outros países com tarifas. Nada disso é bem avaliado pelo mercado”, afirma.

Andre Penner / Associated Press

Entre as maiores altas do Ibovespa estavam MRV ON (3,23%) e Marfrig ON (3,09%).

Entre as baixas, o setor siderúrgico aponta desvalorização como um todo, reagindo ao cenário externo mais pessimista, como é comum com os ativos ligados a commodities em casos assim: CSN ON (-3,31%), Gerdau Metalúrgica PN (-2,48%) e Gerdau PN (-2,41%), Usiminas PNA (-1,27%) e Vale ON (-1,95%).

O maior destaque entre as perdas do Ibovespa, desde a abertura, é Smiles ON (-8,88%), após recuar mais de 10% na primeira hora de pregão.

No ano, a Smiles já sofre uma perda de 24,26%. Em um mês, a baixa é de 15,55%. O giro dos papéis também é forte e soma R$ 124 milhões em menos de uma hora de pregão, bastante acima dos R$ 29,9 milhões vistos durante toda a sessão de ontem.

A reação do mercado ocorre após a empresa ter divulgado ontem suas projeções para o encerramento do ano de 2019 e para 2020. Em relação ao faturamento bruto anual, a expectativa é de avanço de 11% a 12,5% em 2019 e entre 5% e 10% em 2020. Sobre a margem direta de resgate, a Smiles estima 37% a 38,2% em 2019 e, para 2020, entre 25% e 30%.

Outras ações de relevantes peso e liquidez no índice também caem e pressionam a bolsa hoje, como Bradesco ON (-0,75%), Ambev ON (-0,78%), B3 ON (-0,86%) e Petrobras (-1,19% a ON e -0,86% a PN).

Dólar

A surpresa com o PIB melhor que o esperado no terceiro trimestre no Brasil ajuda o dólar a opear em queda no Brasil nesta terça-feira, dia negativo para ativos de risco após a retomada da retórica protecionista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Por volta das 13h50, a moeda americana cedia 0,51%, R$ 4,1913, após mínima intradiária de R$ 4,1863.

Segundo o IBGE, o PIB no terceiro trimestre cresceu 0,6% na comparação trimestral, acima da mediana de 0,4% dos analistas consultados pelo Valor Data. Houve revisão positiva também para os números de 2018 e dos dois primeiros trimestres de 2019.

A surpresa já leva algumas casas a revisarem seus números. O Citi, por exemplo, mudou sua previsão para este ano de 0,7% para 1,1% e o de 2020 de 1,8% para 2,2%. Já o Santander reestimou sua projeção deste ano de 0,8% para 1,2%, enquanto a de 2020 permaneceu em 2%.

"Em relação às nossas estimativas, destaque positivo para o desempenho melhor que o esperado da indústria e dos investimentos. O consumo das famílias, por sua vez, registrou forte avanço de 0,8% no trimestre, também um pouco acima do esperado (+0,6%)", diz o Safra em relatório matinal.

O banco também prepara uma revisão para sua projeção de PIB, atualmente em 1,0% do PIB para 2019.

O dado do PIB brasileiro ajuda o real a se valorizar porque alimenta uma expectativa maior pela volta do investimento estrangeiro, bem como rebaixa as perspectivas de novos cortes de juros.

A perspectiva ajuda a limitar o mau humor no exterior, onde Trump volta a trazer cautela a investidores. Além de ameaçar taxar todas as importações da França, equivalentes a US$ 2,4 bilhões, ele também sinalizou que estaria confortável em deixar a questão comercial com a China para depois da eleição do ano que vem.

Embora o histórico das declarações do republicano ensine que são poucas as que podem ser tomadas pelo valor de face, a indicação é preocupante, avalia Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco Mizuho no Brasil.

"Se não houver acordo, os EUA vão continuar a introduzir tarifas sobre produtos chineses. Essa possibilidade de médio prazo levará analistas a passarem a trabalhar com um cenário de continuidade da escalada das tensões entre dois países, o que seria danoso para economia mundial”, diz o economista.

Juros

Os juros futuros operaram em queda na manhã desta terça-feira, alinhados ao recuo do dólar ante o real e à baixa verificada nos rendimentos dos Treasuries, que reagem à possibilidade de extensão dos conflitos comerciais sino-americanos após comentários do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o assunto.

Na ponta curta da curva, porém, a queda das taxas futuras foi limitada diante dos sinais de aceleração da atividade econômica observados no PIB do terceiro trimestre, cujos resultados surpreenderam os agentes do mercado.

Não à toa diversas instituições financeiras revisaram para cima as projeções para o PIB brasileiro. O Goldman Sachs, por exemplo, espera expansão de 1,2% este ano e de 2,3% em 2020 ante estimativas de 1,0% e 2,2% anteriormente. Já os economistas do Citi elevaram a projeção para o PIB de 2019 de 0,7% para 1,1% e esperam, agora, crescimento de 2,2% no próximo ano (de 1,8% antes).

“Olhando para o futuro, vemos o PIB mantendo o ritmo de crescimento mais forte do terceiro trimestre no quarto trimestre deste ano e nos primeiros três meses de 2020, refletindo não apenas os efeitos defasados do ciclo de flexibilização monetária (taxa Selic a 4,50% no fim do ano), mas também os efeitos temporários da liberação do FGTS”, afirmam os economistas Leonardo Porto, Mauricio Une e Paulo Lopes, do Citi, em relatório enviado a clientes.

Os efeitos defasados da política monetária são observados com atenção pelo Banco Central, que incluiu esse fator no comunicado da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de outubro como um dos motivos para cautela.

Com o crescimento econômico mais robusto observado no Brasil, Andres Abadia, economista sênior da Pantheon Macroeconomics, acredita que o ambiente para cortes adicionais no juro básico além de dezembro pode ser deixado para trás.

“No geral, é um relatório sólido [do PIB] e as revisões em alta refletem melhor o desempenho recente da economia, minando o cenário de novos cortes nas taxas de juros no primeiro trimestre”, afirma Abadia.

Para ele, os principais indicadores sugerem que a demanda doméstica terá um desempenho ainda melhor no quarto trimestre e no início de 2020, “ajudada por inflação e taxas de juros baixas, bem como pela melhora gradual no mercado de trabalho”.

Nos últimos dias, os juros futuros já vinham apresentando forte avanço. Nesta terça, porém, as taxas acompanharam o recuo do dólar e dos rendimentos dos Treasuries.

O PIB acima do esperado inibiu a queda das taxas nos vértices de mais curto prazo da curva a termo, mas não impediu que os trechos mais longos e intermediários reduzissem prêmio.

O principal motivo atribuído por analistas veio de águas internacionais, após Trump dizer, pela manhã, que um acordo com a China depende de sua vontade.

Para o presidente americano, não há um prazo para que um pacto seja firmado entre os dois países, ao mesmo tempo em que disse que “talvez” seja melhor esperar passar a eleição americana de novembro de 2020 para alcançar um acordo com os chineses.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 passava de 4,75% no ajuste de ontem para 4,74%; a do DI para janeiro de 2022 caía de 5,44% para 5,41%; a do contrato para janeiro de 2023 recuava de 5,96% para 5,92% e a do DI para janeiro de 2025 cedia de 6,57% para 6,51%.