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Ibovespa avança na semana com estrangeiro; ação da Americanas vira pó

Por Paula Arend Laier

SÃO PAULO (Reuters) - O Ibovespa fechou em queda nesta sexta-feira, no último pregão de mais uma semana marcada pela crise da Americanas, uma das varejistas mais tradicionais do país, que viu suas ações afundarem para centavos após pedir recuperação judicial em meio a dívidas de 43 bilhões de reais.

Declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também trouxeram desconforto, mas o forte fluxo de capital externo para o mercado acionário brasileiro neste começo de ano, no entanto, proporcionou mais uma semana com desempenho acumulado positivo, o que deixou a performance em 2023 no azul.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa caiu 0,78%, a 112.040,64 pontos, após três altas seguidas, que asseguraram um ganho de 1% na semana. Em 2023, sobe 2,1%.

O volume financeiro nesta sexta-feira somou 26 bilhões de reais, com os negócios também influenciados pelo vencimento de opções sobre ações na bolsa paulista.

Para Luiz Adriano Martinez, gestor de renda variável e sócio da Kilima Asset, os eventos relacionados à Americanas foram também importantes nessa semana, não apenas pelo efeito na ação, mas pelos reflexos em outros papéis, particularmente de bancos, com eventual exposição às dívidas da empresa.

"Os bancos em geral não estavam indo bem", afirmou, citando preocupações relacionadas a linhas de crédito de varejo, de pessoa física. "Com Americanas, a gente passou a ter contaminação da parte de pessoa jurídica. Isso foi um ponto bastante negativo", acrescentou.

Em contrapartida, a semana teve uma continuidade do fluxo positivo de estrangeiros, com dados da B3 mostrando que, até o dia 18, as compras desses investidores no mercado secundário de ações brasileiro superaram as vendas em cerca de 6 bilhões de reais em 2023.

Na visão de Tomás Awad, sócio-fundador da 3R Investimentos, prevaleceu a visão otimista com mercados emergentes, em razão da reabertura de China, o que acabou beneficiando os ativos brasileiros. "Claramente, o investidor estrangeiro ditou o rumo da bolsa no Brasil", afirmou.

Martinez reforçou que o mercado está confiante com a reabertura chinesa se tornando realidade e medidas de incentivo. "Isso acaba incentivando o estrangeiro a entrar no Brasil, pois acaba vendo o país como um grande fornecedor da China. Se a China está melhor, o Brasil acaba se beneficiando", afirmou.

Awad ponderou que o Ibovespa poderia ter tido um desempenho ainda mais robusto não fossem as declarações de Lula na semana, embora integrantes da equipe do presidente tenham buscado na sequência atuar para acalmar o mercado. "É uma dicotomia, o Lula fala besteiras e aí vêm os bombeiros."

Lula chamou de "bobagem" a independência do Banco Central na quarta-feira, enquanto defendeu que o reajuste do salário mínimo acompanhe o crescimento do PIB, assim como disse que vai "brigar" para subir o valor de isenção do Imposto de Renda para 5 mil reais, conforme promessa de campanha. No dia seguinte, questionou a taxa básica de juros do país.

Na próxima semana, Cielo deve abrir o calendário de resultados das empresas do Ibovespa na sexta-feira, mas a temporada deve ganhar fôlego mesmo no começo de fevereiro, com os balanços de Santander Brasil no dia 2 e de Itaú Unibanco no dia 7, entre outros.

DESTAQUES

- AMERICANAS ON despencou 29%, a 0,71 real, revertendo os ganhos do começo do pregão, quando subiu a 1,18 real, mas evitando fechar na mínima, quando bateu 0,54 real, conforme agentes financeiros continuaram ajustando posições após a varejista pedir recuperação judicial na véspera. Oito dias após revelar um rombo contábil de 20 bilhões de reais, a Americanas entrou na quinta-feira com pedido de proteção contra credores, citando dívidas de cerca de 43 bilhões de reais, que já foi aceito pela Justiça do Rio de Janeiro. Desde o anúncio das "inconsistências contábeis", as ações derreteram 94%, com uma perda em valor de mercado de 10,19 bilhões de reais. Em razão do pedido de recuperação judicial, os papéis da companhia, que se aproxima de completar 100 anos de existência, deixarão os índices da B3 ao final da sessão desta sexta-feira.

- REDE D'OR ON caiu 4,37%, a 28,23 reais, após subir mais de 12% nos últimos quatro pregões. Analistas do Citi cortaram nesta sexta-feira a recomendação para os papéis para "neutra", bem como reduziram o preço-alvo de 39 para 33 reais, enxergando uma relação risco versus retorno mais equilibrada neste momento. No começo da semana, o BTG Pactual havia reiterado "compra" para as ações do grupo de hospitais e elevado o preço-alvo do papel para 38 reais, citando entre outros fatores atualizações das estimativas após a conclusão da compra da SulAmérica pela Rede D'Or.

- BTG PACTUAL UNIT fechou com declínio de 3,31%, a reais, em uma semana na qual também ocupou o noticiário em razão dos problemas envolvendo a Americanas, da qual é um dos principais credores. O BTG conseguiu reverter decisão judicial que protegia a Americanas sobre dívida de 1,2 bilhão de reais com o banco. Ainda assim, na semana, acumulou declínio de 4%. No setor, nesta sexta-feira, ITAÚ UNIBANCO PN recuou 1,77%, a 26,1 reais, e BRADESCO PN cedeu 1,41%, a 14,67 reais, enquanto BANCO DO BRASIL ON valorizou-se 2,45%, a 40,07 reais.

- PETROBRAS PN subiu 2,09%, a 26,37 reais, ampliando os ganhos na semana para mais de 7%, conforme os preços do petróleo no exterior ganharam fôlego nesta sexta-feira. O contrato Brent fechou com elevação de 1,7%. No setor, 3R PETROLEUM ON ganhou 3,48% e PRIO ON teve elevação de 1,43%.

- VALE ON avançou 0,27%, a 93,99 reais, em sessão com alta dos contratos futuros de minério de ferro, com o contínuo otimismo sobre uma recuperação econômica na China, maior produtora mundial de aço, elevando o ânimo da demanda. O contrato mais negociado na Dalian Commodity Exchange da China encerrou as negociações diurnas com alta de 1,8%.