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Homenageado em Paris, Lula vê democracia brasileira enfraquecida

Daniela Fernandes

Ex-presidente recebeu o título de “cidadão honorário” em cerimônia na Prefeitura de Paris Lula

Divulgação / Twitter

O Brasil vive o resultado de “um processo de enfraquecimento do processo democrático, estimulado pela ganância de poucos e pelo desprezo em relação aos direitos do povo”, declarou nesta segunda-feira o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao receber o título de cidadão honorário de Paris.

Lula também afirmou que há “repetidos ataques ao Estado de direito e à Constituição” no Brasil e que “está mais motivado do que nunca para reconquistar a democracia no país”.

O ex-presidente viajou à capital francesa a convite da prefeita Anne Hidalgo, que disputa a reeleição pelo Parido Socialista no próximo dia 15. Também participaram da cerimônia, na Prefeitura da cidade, a ex-presidente Dilma Rousseff e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

O título de cidadão honorário de Paris foi concedido pelo Conselho de Paris – equivalente a uma câmara de vereadores – em outubro passado, em razão do “engajamento de Lula na redução das desigualdades sociais e econômicas no Brasil” e também por sua política “contra as discriminações raciais”, segundo comunicado da Prefeitura divulgado à época.

O texto do convite para a homenagem diz que a honraria foi concedida no momento em que os “direitos civis e políticos do ex-presidente brasileiro foram desprezados”.

Em outubro, Lula estava preso, cumprindo pena de oito anos e dez meses por corrupção. Ele foi libertado em 8 de novembro, após o Supremo Tribunal Federal (STF) mudar o entendimento em relação à prisão após condenação em segunda instância.

Em discurso de mais de 30 minutos, o petista reiterou sua inocência em relação às acusações que pesam contra ele, chamando de “mentirosos” os procuradores que o acusaram e o ex-juiz e atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, que o condenou.

Lula também criticou o impeachment de Dilma e citou as realizações dos 13 anos do governo do PT no comando do país, como a redução da fome e o acesso de negros à educação.

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Ele ainda denunciou a “deliberada destruição” do meio-ambiente no Brasil, decorrente de políticas “irresponsáveis e criminosas de um governo que ameaça o planeta”.

O ex-presidente é o segundo brasileiro a receber o título de cidadão honorário de Paris – após o cacique Raoni Metuktire –, atribuído, segundo a Prefeitura, a pessoas que se destacam na defesa dos direitos humanos.

Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, e o Dalai Lama, líder espiritual do Tibete, também estão entre os contemplados, assim ainda o jornal satírico “Charlie Hebdo”, alvo de um ataque terrorista que deixou 11 mortos em janeiro de 2015.

Enquanto aguardavam a chegada de Lula no luxuoso salão de festas da Prefeitura, muitos convidados brasileiros entoaram gritos de apoio a ele e à ex-presidente Dilma. Os participantes aplaudiram efusivamente quando o petista entrou no palco, acompanhado de Dilma e de Haddad, e também quando a prefeita de Paris iniciou seu discurso.

Anne Hidalgo contou que, quando a premiação foi decidida, ela pensou que poderia ajudar na libertação de Lula.

Lula, Dilma e Haddad chegaram a Paris no domingo e reuniram-se com o líder do partido de esquerda França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que ficou em quarto lugar no primeiro turno das eleições presidenciais francesas de 2017, com 19,5% dos votos.

Na manhã desta segunda-feira, o ex-presidente Lula encontrou-se com o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que reside em Paris. O assunto, segundo Lula, foi a Amazônia, a biodiversidade brasileira e os desafios para lutar pela sua preservação.

Em seguida, o petista almoçou com o ex-presidente francês François Hollande. Eles conversaram “sobre a conjuntura no Brasil e na França e as tarefas que precisamos cumprir para retomar os governos de inclusão e com mais justiça social”, publicou Lula em suas páginas nas redes sociais.

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Nesta segunda à noite, Lula, Dilma e Haddad participam de um comício de campanha de Hidalgo em um teatro da cidade. Na terça, haverá o “festival Lula livre” no teatro Cirque du Soleil, da renomada companhia teatral de mesmo nome.

Lula deverá ter outros encontros com políticos, intelectuais e representantes de associações francesas ligadas ao Brasil em Paris. Após a França, o ex-presidente viajará à Suíça e à Alemanha.