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HIV: “Meus pacientes não ficavam falando de morte”, diz médica

Mariane Morisawa
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO – Ao longo dos quase 40 anos tratando pessoas que vivem com HIV, a médica Marcia Rachid foi colecionando histórias, como num diário, como em um desabafo. Há o paciente que queria ver sua escola de samba favorita, porque pressentia a vitória naquele Carnaval. Ou o que deixou com ela uma chave de casa para que buscasse a roupa de seu funeral – um terno, para surpresa da médica.

Rachid, uma das fundadoras do Grupo pela Vidda, não sabia exatamente o que faria com aquele material. Acabou escrevendo um livro, “Sentença de vida” (Máquina de Livros, 128 págs., R$ 39,90 impresso e R$ 24,90 digital).

Ela falou ao GLOBO sobre a relação muito próxima com seus pacientes e o que aprendeu lidando com a morte naquele começo de epidemia nos anos 1980, quando não havia nenhuma medicação para quem ficava doente.

Em 2020, o tratamento existe. Hoje, Dia Mundial de Luta contra a Aids, o Ministério da Saúde anunciou a estimativa de cerca de 920 mil pessoas com HIV em 2019. Destas, 821 mil (89%) estavam diagnosticadas, sendo 634 mil em tratamento com antirretroviral, das quais 597 mil (94%) não transmitiam HIV por via sexual por terem atingido carga viral indetectável.

Por isso, a médica vaticina: As pessoas que vivem com HIV não têm mais riscos por conta da pandemia da Covid-19.

A emoção é muito presente nas histórias que a senhora conta. Como ficou tão próxima dos pacientes?

Uma das histórias é sobre um sujeito que teve infecção por transfusão, e os moradores fizeram um abaixo-assinado para expulsá-lo do prédio. É um exemplo clássico do que acontecia naquela época. As pessoas ficavam isoladas. No caso desse rapaz, a mãe estava sempre a seu lado. Mas muitos não tinham nem um familiar. Por isso a gente acabava ficando próxima deles. Aquele isolamento, aquela solidão, mexiam demais comigo e com outras pessoas que trabalhavam comigo.

O estigma acabou?

Não. É comum ouvir ainda hoje relatos de pacientes discriminados pelo médico. Um rapaz me procurou no Instagram porque tinha sido atendido por um médico em dez minutos. O médico nem sabia que o companheiro dele tinha morrido havia pouco tempo. O rapaz foi fazer o teste e também está infectado. Essa situação é absurda e faz com que a pessoa se sinta um lixo, um nada. Ela acaba inconscientemente optando pela morte. A gente viu demais isso nos anos 1980 e 1990.

As pessoas que vivem com HIV têm mais riscos por conta da pandemia?

Quem vive com HIV não tem risco maior de adquirir Covid-19. Se a pessoa estiver com outras comorbidades ou imunodeficiência avançada, aí pode ter risco maior de gravidade se ocorrer a infecção pelo Sars-CoV-2. Quem vive com HIV e está bem clínica e imunologicamente, fazendo o tratamento com os antirretrovirais, tem a mesma probabilidade de uma boa evolução de quem não tem HIV. O que aumenta os riscos de gravidade são as comorbidades.

No caso da epidemia de Aids, havia um julgamento moral, o preconceito dos que diziam que a doença atingia pessoas com “desvio de caráter”. Como era lidar com isso?

Exatamente. A doença era chamada de “castigo divino”, de “peste gay”, de “câncer gay”. Mas isso é forte até hoje! São 39 anos do primeiro caso, que foi em 1981, nos Estados Unidos. E quando vai acabar isso? Sendo muito sincera, não vai acabar. Porque o preconceito em relação a questões morais é muito forte. Isso que aconteceu agora, de termos pessoas LGBT eleitas (nas eleições municipais), é um avanço absurdo, porque são pessoas consideradas em “desvio”. São 38 milhões de pessoas vivendo com HIV, com predomínio de negros, de homossexuais, de profissionais do sexo, de população de rua. O risco é aumentado (para estes grupos) porque são pessoas que têm previamente vulnerabilidades.

E qual o perfil hoje de quem vive com HIV no Brasil?

Há um aumento no número de pessoas de 19 a 24 anos. Uma das situações que está interligada é o uso de droga sintética, outra os aplicativos de encontros sexuais. Você vai abrindo o leque, e cada vez tem um fator a mais de exposição a um maior risco de infecção. Falta informação, e isso independe do nível de escolaridade, porque não há discussão sobre questões sexuais na escola, na universidade, na família, no grupo (de amigos).

Por que o livro se chama “Sentença de vida”?

Foi sugestão dos editores, que disseram que eu estava mostrando o lado da vida mesmo das pessoas que morrem. Foi o que mais aprendi com o Herbert Daniel(1946-1992). Ele não ficava falando de morte. E nenhum desses pacientes ficava falando. Eles estavam preocupados com o que iam viver.

Antes dos tratamentos eficazes, contrair HIV era muitas vezes uma sentença de morte. Como era lidar com isso?

Sim, especialmente para quem já tinha algum sintoma. Ninguém ensina o estudante de medicina a lidar com a morte. Somos formados para ter uma onipotência que não temos, e ninguém ensina como lidar com a impotência. Numa enfermaria repleta de pacientes com Aids, eu dizia a meus alunos que ali estava a prova de que não somos nada. Não somos deuses, nem podemos ter a prepotência de achar que mudamos a morte. O que podemos mudar é a qualidade de vida e a qualidade de morte.

O que aprendeu lidando com a morte diariamente?

Eu tento ver qual meu papel, e do que a pessoa precisa e que não tem. Fica intenso porque você cumpre um monte de papeis. Não é só a médica. Eu não convivo mais com meus pacientes como antes, mas dou a eles toda a liberdade de me falarem as coisas. Eu não julgo, não critico, não mudo de cara. Mas a gente não fica insensível. Pelo contrário, chorei muito ao longo da minha vida, e cada vez que eu perco uma pessoa querida, não vou deixar de sofrer porque me acostumei. Ninguém se acostuma com a perda.