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História de Palmares é revelada em novos detalhes por documentos originais

A historiadora Silvia Hunold Lara conseguiu, com trabalhos extensivos nos últimos anos, encontrar e compilar cópias originais de documentos inéditos sobre os quilombos brasileiros, especialmente o quilombo dos Palmares, que abrigou escravizados em fuga dos séculos XVII ao XVIII na capitania de Pernambuco. O mais importante deles é o livro nunca publicado Os primeiros quilombos (Subsídios para a sua história), do pesquisador português Ernesto Ennes (1881 - 1957), com 94 documentos sobre Palmares.

Lara encontrou a cópia do livro na biblioteca da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ainda nos anos 1990, mas só conseguiu analisar os documentos a fundo em 2005, pesquisando o tema desde então. Atualmente professora aposentada, ela compilou seus anos de pesquisa na obra Palmares & Cucaú: o aprendizado da dominação, em 2021, onde fala sobre o acordo de paz de 1678, entre a colônia portuguesa no Brasil e Palmares, após a destruição dos mocambos (esconderijos) de Macaco e Subupira, episódio pouco conhecido da nossa história.

Mapa do sul da Capitania de Pernambuco em 1647, com representação do Quilombo dos Palmares à direita (Imagem: Frans Post/Domínio Público)
Mapa do sul da Capitania de Pernambuco em 1647, com representação do Quilombo dos Palmares à direita (Imagem: Frans Post/Domínio Público)

Novidades documentais

Entre os relatos da estudiosa, está o de que Palmares foi conceitualizado como um quilombo pela primeira vez em 1680, em uma certidão colonial, tornando-se termo comum para os assentamentos de fugitivos. Como parte do acordo de paz de alguns anos antes, Gana Zumba, líder palmarista da época, teve de entregar os cativos não nascidos nos mocambos aos senhores de escravizados de Pernambuco e das capitanias próximas.

O povo de Palmares também recebeu, na negociação, terras para se estabelecer em Cucaú, podendo plantar e receber os mesmos lucros que outros vassalos de Portugal, recebendo alforria aos nascidos no quilombo. Menos de 2 anos depois, no entanto, Gana Zumba foi assassinado, e Cucaú, destruída por tropas da colônia.

A coroa portuguesa acabou tendo problemas legais por conta da re-escravização dos libertados, e teve de reconhecer o acordo de 1678 e investigar o caso. A essa altura, Zumbi liderava os quilombolas na Serra da Barriga, onde fizeram seu núcleo armado até a destruição, em 1694, e o assassinato de Zumbi, no ano seguinte. Resistindo e sendo reerguido por muitos anos, Palmares só foi eliminado com seu último mocambo, o do Mouza, em 1714.

Vista do mirante de Serra da Barriga, atual Alagoas, que abrigou um dos mocambos mais importantes de Palmares (Imagem: Thalita Chargel/CC-BY-4.0)
Vista do mirante de Serra da Barriga, atual Alagoas, que abrigou um dos mocambos mais importantes de Palmares (Imagem: Thalita Chargel/CC-BY-4.0)

Linguística, cartografia e muito mais

Esses acontecimentos são tratados como detalhes renovados na obra de Lara, que se apoia nas novidades trazidas por Ennes. Anteriormente, a maioria dos historiadores usava escritos dos séculos XIX e XX, que traziam algumas inconsistências, inclusive nos nomes dos envolvidos. A pesquisadora vê importância especial na lembrança dos moradores dos mocambos, e por isso, se juntou ao filólogo Phablo Roberto Marchis Fachin para transcrever textos da época e lançar o atualizado Guerra contra Palmares: o manuscrito de 1678, em 2021.

A obra de base era o texto do século XVII Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco, de autoria atribuída ao padre Antônio da Silva, que já havia sido transcrita em 1859, mas com muitos erros em substituições de palavras, nomes e expressões. Talvez por ignorância da origem centro-africana de muitos dos envolvidos ou desconhecimento da grafia dos séculos passados, surgiram erros como "Ganga Zumba", ao invés do correto "Gana Zumba". Enquanto "Ganga" significa "sacerdote", "Gana" seria o termo quimbundo para "senhor".

Além do esforço linguístico, há o cartográfico, realizado pelo historiador Felipe Aguiar Damasceno, que usou georreferenciamento e documentos holandeses e portugueses para localizar Palmares e as sesmarias (terras da coroa doadas e voltadas à produção agrícola) de 1678 e 1775, mostrando que os mocambos não se limitaram apenas ao atual estado de Alagoas, se movimentando e abarcando também regiões de Pernambuco.

Esse e outros materiais produzidos nos últimos 17 anos foram disponibilizados no repositório criado por Lana chamado Documenta Palmares, contendo também 4.400 cópias de documentos originais dos séculos XVII a XIX, vindos de Brasil, Portugal e Holanda. É uma forte contribuição para a literatura e o entendimento da história de Palmares, que, junto a zumbi, se transformaram em símbolo de luta por direitos pelo movimento negro no Brasil a partir do século XX.

Fonte: Canaltech

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