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'Hamilton' arrebata mesmo com negros no papel de escravocratas

NELSON DE SÁ
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(FOLHAPRESS) - Quase seis anos se passaram desde a estreia de "Hamilton", mas parece mais. Muita coisa aconteceu desde o impacto deste musical "hip-hop" em torno de um dos "pais fundadores" dos Estados Unidos, com elenco em grande parte negro, no país então governado por Barack Obama. Rever o espetáculo filmado escancara as suas distorções históricas, a começar do fato de que agora se sabe que o personagem-título era não só dono, mas comerciante de escravos. Ele é festejado pelo texto como um imigrante supostamente "creole" que se bate pelo fim da escravidão. A morte de George Floyd e a explosão do movimento Black Lives Matter não permitem mais tanto autoengano. As entrevistas com criadores e elenco que acompanham o filme na Disney+, feitas por ABC e ESPN, veículos também da Disney, tentam dar uma saída para o espectador - ver o musical como um ponto de partida para estudar mais a fundo a história. É pouco convincente. É um espetáculo de brancos escravocratas representados por atores negros e com menções esparsas e superficiais à escravidão. Como na eleição de Obama, os criadores pareciam acreditar que a revolução viria pela troca do ator. Mas o compositor Lin-Manuel Miranda e o diretor Thomas Kail, que já vinham como dupla do musical "In the Heights", vão muito além da história política em "Hamilton". O filme evidencia que os personagens levados à cena por Miranda e os atores escolhidos por Kail fazem do musical bem mais do que uma narrativa sobre Alexander Hamilton. Este é quase como um personagem neutro em torno do qual os demais se erguem e arrebatam. O enquadramento traz para perto interpretações intensamente dramáticas como a de Phillipa Soo, que faz a mulher de Hamilton, Eliza, e resulta ainda mais destacada do que na apresentação ao vivo -e com a voz mais notável. O filme também confirma e realça as limitações de Miranda como o intérprete de Hamilton, com dificuldade persistente para expressar emoção, mas isso até ajuda o personagem na função de âncora para os demais. Em especial para Aaron Burr, o antagonista representado por Leslie Odom Jr. como uma mescla de ironia e inveja diante dos "pais fundadores", o que o torna também o narrador ideal para se distanciar da história. Originalmente, o narrador seria o próprio Hamilton. É Odom quem interpreta algumas das melhores composições de Miranda, como "The Room Where It Happened" ou a delicada "Dear Theodosia", em que Burr fala à filha recém-nascida. O rapper Daveed Diggs, como Lafayette e depois Thomas Jefferson, não fica atrás com caracterizações engraçadas e desrespeitosas de seus personagens históricos. Renée Elise Goldsberry, como Angelica, irmã de Eliza, tem outro dos grandes números de "Hamilton", com "Satisfied", em que retrata com crueza os interesses presentes nas relações de todos. "Hamilton" vale por cada um desses personagens e outros, como George Washington e o rei George 3º, com interpretações arrebatadoras que o ajudam a ser um dos grandes musicais da história da Broadway. Thomas Kail, também diretor do filme, diz numa das entrevistas complementares que seu propósito foi capturar aqueles atores, aquele instante no teatro de acesso tão restrito, para os milhões que não tiveram como pagar os cerca de US$ 1.000 do ingresso. Ele queria deixar um registro, mesmo sem a ambição de reproduzir a experiência ao vivo, do que foi aquele histórico elenco original. Seu êxito é inquestionável -e, com a pandemia, ajudou a salvar a Disney. Em tempo, até esta quinta o filme ainda não tinha legendas em português no Disney+. Miranda, com um tuíte em português, garantiu que estão a caminho. HAMILTON Onde Disney+ Elenco Lin-Manuel Miranda, Phillipa Soo e Leslie Odom Jr. Direção Thomas Kail Composição Lin-Manuel Miranda Avaliação Muito bom