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Haddad quer unir AL contra liberalismo e Dilma acusa "neofascismo"

Carolina Freitas

Ex-prefeito discursou em painel do Congresso Nacional do PT O ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), conclamou hoje os líderes da América Latina a se unirem para combater os governos liberais nos países da região. “Os graus de liberdade se estreitaram”, afirmou. “O desafio é colocar na ordem do dia dos nossos países o combate à pobreza.”

Haddad discursou em painel do Congresso Nacional do PT, na Casa de Portugal, no centro da capital paulista. Ao seu lado estão a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e a presidente nacional do partido, deputada Gleisi Hoffman (PT-PR). Compõe a mesa ainda o ex-primeiro-ministro espanhol José Luís Zapatero.

“Não podemos abdicar da nossa vocação de transformar para melhor a nossa região”, disse Haddad. “Há especificidades de cada país, mas não podemos abdicar de um projeto ousado de unificação.”

Derrotado pelo presidente Jair Bolsonaro nas eleições do ano passado, Haddad afirmou que a população latino-americana vem sendo “mal-tratada por governos liberais no Brasil, no Chile e na Argentina”.

Enquanto Haddad discursava no palco, eram projetadas em um telão atrás dele imagens dos ex-presidentes Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva ao lado de líderes internacionais como Cristina e Nestor Kirchner, Evo Morales, Hugo Chavez, Bill Clinton e Barack Obama.

Gleisi Hoffmann discursou logo depois de Haddad e agradeceu o apoio de líderes internacionais de esquerda durante o período em que Lula esteve preso. O ex-presidente discursa no evento mais tarde, por volta das 19h. Petistas dizem que Lula preparou um pronunciamento direcionado à nação e não apenas para a militância.

Silvia Costanti/Valor

Dilma

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou que o governo Bolsonaro é “neofascista”. Em discurso de quase meia hora a dirigentes e militantes do PT, Dilma afirmou que não há alternativa no Brasil a não ser a polarização política, decorrente, na visão dela, da desigualdade social e da concentração de renda no país.

“A diferença do Brasil para outros países é que aqui o neofascismo tomou o governo”, disse a ex-presidente. Dilma sustentou que a extrema-direita surgiu no Brasil porque os partidos de esquerda, de centro e de direita foram “destruídos”. A ex-presidente fez referência a processos judiciais decorrentes da operação Lava-Jato, como o que levou à prisão o ex-presidente Lula. Também citou o “golpe do Estado” que a tirou do poder em 2016.

“Não inventamos a polarização. Se você está excluído da riqueza do país, como não ter polarização? A polarização é dada pelas circunstâncias que temos para lutar”, afirmou Dilma.

A ex-presidente disse que a polarização se dá em relação à agenda ambiental, à privatização da Petrobras e às políticas para a educação. “O ministro da Educação diz que se planta maconha nas universidades! Ele tem que mostrar como, onde e que maconha é essa!”

Dilma citou os protestos que acontecem no Chile e no Equador como mostras populares de reação à desigualdade social causada por governos neoliberais. A ex-presidente citou a Argentina como um exemplo de “retomada democrática”, com a eleição de Alberto Fernandez tendo Cristina Kirchner como vice. Ela criticou ainda “o que fizeram” com a Venezuela ao impor aquele país bloqueios econômicos.

“Quando Alberto e Cristina ganharam na Argentina, a luz apareceu no meio do túnel, para começarmos a sair desse pesadelo”, discursou Dilma. “A luta democrática é pela eleição.”

O discurso de Dilma, em evento que antecede a abertura do Sétimo Congresso Nacional do PT, na capital paulista, foi aplaudido de pé por um público de cerca de 300 pessoas que já está no local.

Líderes internacionais

Antes de Dilma, discursaram à militância petista o ex-primeiro-ministro da Espanha Jose Luís Zapatero e o ex-ministro de Relações Exteriores da Argentina Jorge Taiana. Eles louvaram a libertação da prisão de Lula e pregaram a necessidade da união entre os partidos de esquerda da América Latina.

“Uma das razões do triunfo da esquerda na Argentina foi construirmos a unidade. Há que se unir até que doa”, afirmou Taiana, que é deputado do Parlamento do Mercosul. “Não é uma unidade homogênea, mas com matizes. Temos que construir uma força política ampla, flexível e unida em pontos centrais que nos permitam retomar nosso projeto na América Latina.”

Zapatero abriu sua fala afirmando que “se Lula está livre, estamos todos mais livres”. O espanhol atribuiu o surgimento da extrema-direita a uma reação às conquistas sociais do campo progressista nos últimos anos, como na área dos direitos das mulheres e dos LGBTQ+.

“A extrema-direita é racista, excludente e extremista”, afirmou Zapatero. Ele conclamou a união da esquerda nos países latinos e sugeriu em torno de um projeto comum. “A próxima vitória está por vir e será melhor que a anterior.”