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Guignard, destronado por Tarsila como brasileiro mais caro, ganha duas biografias

·7 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em dezembro do ano passado, uma pintura de Tarsila do Amaral atingiu o maior valor de venda em leilão para uma obra brasileira. "A Caipirinha", de 1923, destronou um recorde de 2015, de Alberto da Veiga Guignard, com "Vaso de Flores", de 1930.

Guignard tem desde 1942 um de seus quadros no MoMA, de Nova York, que comprou só em 2019 a sua primeira Tarsila. Mas ele nunca levou filas de milhares a um grande museu e não figura em cenário de selfies nas redes sociais.

A popularidade do pintor de nome francês pode estar, contudo, prestes a aumentar. Duas novas biografias jogam luz sobre sua vida e sua obra. A Companhia das Letras lança neste mês "Guignard: Anjo Mutilado", escrito pelo jornalista mineiro Marcelo Bortoloti, que se junta a "Balões, Vida e Tempo de Guignard", do também jornalista mineiro João Perdigão, já publicada pela Autêntica.

Muito do que ficou sobre Guignard para a história tem a ver com o fim de sua vida. Descrito como generoso e até mesmo ingênuo, o pintor não fazia questão de vender suas obras, muitas vezes dando trabalhos de presente ou os trocando por bens de que precisasse. Com dificuldades financeiras e afundado num alcoolismo do qual por vezes se envergonhava, Guignard era hospedado por famílias endinheiradas de Belo Horizonte e chegou a causar disputas entre elas.

Se Perdigão, que foi aluno da Escola Guignard, se detém sobretudo na fase brasileira do artista, a partir de 1929, primeiro no Rio de Janeiro, onde se relacionou com importantes nomes da época, e mais tarde em Belo Horizonte e Ouro Preto, onde estabeleceu um ensino que influenciou gerações, Bortoloti dedica metade de seu livro ao que pouco se sabia até então da vida do pintor, o período anterior à sua volta ao país.

Bortoloti investiga a história dos avós, um cabeleireiro francês e um comendador católico e abastado de origem portuguesa, o encontro e casamento de seus pais no Rio de Janeiro, a estranha morte do pai, e a juventude europeia de Guignard, que deixou o Brasil aos nove anos com a mãe, a irmã e o padrasto.

"O que havia escrito de livros sobre Guignard era a partir de depoimentos dele, que se pautam muito pelo que ele falou, mas que não foram investigar os fatos", diz Bortoloti, que diz ter se proposto a se basear em documentos.

Ele então viajou a 12 cidades nas quais Guignard e sua família moraram na Europa, entre Alemanha, Suíça, Itália e França, além de recorrer a arquivos e acervos públicos e privados no Brasil. "Existe uma documentação de patrimônio preservada, documentos de heranças, de terrenos, dívidas. Na saúde e na educação, porém, quase nada ficou. As fichas dos hospitais em Minas Gerais onde ele se tratou foram queimadas", diz.

Os arquivos da Escola de Belas Artes de Munique, onde Guignard estudou, por exemplo, foram bombardeados na Segunda Guerra Mundial.

A saúde é um aspecto importante na existência do pintor. Guignard nasceu em 1896 com lábio leporino e uma fenda no palato, um buraco no céu da boca, que a ligava ao nariz e se estendia até quase a garganta.

Para além do impacto em sua fisionomia, o problema afetou a fala e a alimentação. Algumas intervenções cirúrgicas foram feitas, como quando, aos cinco anos, tentaram costurar seu palato com fios de cobre.

Guignard era uma pessoa com problemas físicos, emocionais e financeiros, o que pode tornar realmente saboroso conhecer sua vida em biografias, mas não há muita novidade em ler sua obra artística a partir dessas questões, diz Taisa Palhares, professora de filosofia da Unicamp que dedicou uma tese ao pintor.

"Há duas fases de recepção de Guignard, uma voltada ao lado biográfico -o homem solitário, sempre cuidado, o escândalo das famílias de Belo Horizonte que o estariam explorando, a desconfiança de falsificações- e uma outra, feita a partir dos anos 1980, que se detém nos aspectos formais, e que ganha corpo a partir de uma exposição organizada por Carlos Zilio acompanhada por textos que tentavam fazer uma leitura de Guignard a partir da grandeza de sua obra", diz Palhares.

A exposição se chamava "A Modernidade em Guignard". Embora o modernismo paulista esteja em voga por causa da aproximação do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, Guignard pouco tem a ver com essa sua versão.

"O Rio de Janeiro tem como marco de seu modernismo o Salão Revolucionário/Tenentista de 1931, no qual Guignard foi um dos destaques como artista", afirma João Perdigão.

Em Belo Horizonte, o marco foi a Semaninha de Arte Moderna de 1944, da qual o artista foi curador e onde também expôs. "Guignard não estava em 1922, mas em 1931 e em 1944 foi um dos baluartes", acrescenta Perdigão.

"O centenário vem para mostrar o quanto esse modernismo não é hegemônico. Existiam intelectuais e artistas pensando a arte moderna de outra forma", diz Palhares. A ideia da Semana de 22, a de uma ruptura com a tradição, não era defendida por Guignard, que vinha de anos numa Europa de vanguardas.

"Ele tinha a liberdade de olhar o passado e fazer dele algo seu, não ligado às vanguardas, mas a um conceito de moderno que encontramos no trabalho de Manet, por exemplo, que olha para Velásquez e Goya e faz uma arte extremamente moderna", comenta a professora.

Com grande conhecimento técnico e de história da arte, tendo passado tempo em Florença, Guignard voltou ao país sabendo o que queria, um modernismo que busca uma nova relação com a tradição.

Além de ter feito muitos retratos, as paisagens montanhosas são uma marca do pintor, algumas delas com balões de São João, como a do MoMA. Na opinião de Fran Chang, pintora de obras que reverberam as de Guignard, a observação, o lúdico, e uma sutileza e uma delicadeza que são, ao mesmo tempo, uma grande força, são os aspectos centrais das telas do artista.

Segundo Perdigão, um aspecto importante para compreender Guignard é a importância do ensino em sua vida. Desde o Rio de Janeiro o pintor atuava como professor, ensinando por anos num colégio de meninas filhas de militares.

Em 1944, o pintor foi convidado por Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, para dar aulas numa nova escola de artes, que hoje leva seu nome. "A escola era o motor dele e ele aprendia com os alunos", diz. Sua figura na cidade persiste.

"Guignard é uma lenda em Belo Horizonte, virou quase mitológico, as histórias se repetem, e sempre tem uma pessoa que diz ter um parente que tem um quadro de Guignard em casa", conta Perdigão.

A falta de acesso à obra de Guignard pode ter contribuído para sua baixa popularidade. "Ele é um grande artista e pouco conhecido porque suas obras estão em coleções privadas. São quadros que estão em mansões e dos quais não conhecemos nem reprodução em livros", diz Bortoloti.

Guignard não tem uma coleção expressiva em nenhum museu brasileiro. Organizar exposições suas é caro e trabalhoso, já que envolve empréstimos de colecionadores e seguros. "É um artista que ficou inacessível e que tem uma história fantástica e uma produção fabulosa", diz o jornalista.

Perdigão diz ser importante como próximo passo para se manter a memória do artista que se faça um catálogo raisonné de sua obra, que, desde que ele ainda era vivo, convive com falsificações. "É um assunto melindroso, pois envolve interesses privados, mas o catálogo tem de ser tocado pela Escola Guignard [em Belo Horizonte, ligada à Universidade do Estado de Minas Gerais] ou pelo Museu Casa Guignard [em Ouro Preto, também ligado ao governo de Minas]."

GUIGNARD: ANJO MUTILADO

Preço: R$ 109,90 (488 págs.); R$ 44,90 ebook

Autor: Marcelo Bortoloti

Editora: Companhia das Letras

BALÕES, VIDA E TEMPO DE GUIGNARD

Preço: R$ 64,90 (368 págs.); R$ 45,90 ebook

Autor: João Perdigão

Editora: Autêntica

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