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Guerra comercial entre EUA e China deve seguir até eleição americana, diz Citi

TÁSSIA KASTNER
*ARQUIVO* São Paulo, SP, 13.04.2007: Fachada do banco Citibank, que fica na Rua Estados Unidos, em São Paulo. (Foto: Leonardo Wen/Folhapress)

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - A guerra comercial travada entre Estados Unidos e China não deve ser encerrada antes da eleição americana, que ocorrerá no dia 3 de novembro de 2020. Essa é a avaliação do economista global do Citi, Cesar Rojas. Para ele, a disputa comercial deve sofrer o que chamou de metástase para uma guerra cambial.

Rojas afirmou que o banco trabalha com uma probabilidade de 60% de que não haja um acordo entre Estados Unidos e China antes da eleição e acrescentou que considera a janela para um acordo sem uma escalada na disputa está fechada.

Parte da explicação é justamente política: o presidente americano, Donald Trump, que já está em pré-campanha para ser o candidato à reeleição pelo partido Republicano, é o líder dessa disputa comercial.

O americano tem, segundo o Citi, a população a seu lado: dados do banco mostram que atualmente 70% da avaliação da população americana sobre a China é negativa e apenas 30% é positiva. Uma segmentação por formação acadêmica, faixa etária e partido mostra que em todas essas divisões, a visão sobre a China atualmente é negativa entre os americanos.

Trump elegeu os chineses como alvo em uma batalha tarifária para reequilibrar a balança comercial e também sob a bandeira sobre roubo de propriedade tecnológica. Politicamente, a estratégia se alinha com o slogan de campanha “Fazer a América grande novamente”.

Mesmo com a virtual reeleição de Trump, um acordo ficará ainda mais complexo e pode exigir da China concessões econômicas que até aqui o país não tem se mostrado disposto a fazer.

“Se não houver um acordo comercial antes da eleição, ele vai ficar ainda mais difícil depois. E para evitar mais quatro anos disso, podemos ver a China tentar fazer algumas concessões”, acrescentou Rojas.

Para o economista, um acordo entre os dois países pode ser danoso para economias que até agora tem se beneficiado da guerra comercial. Isso por que os chineses precisariam comprar mais produtos dos Estados Unidos em detrimento de outros países. O único caminho para não gerar dano econômico, seria o crescimento da demanda chinesa, o que não está no radar em tamanha magnitude.

Ele não atualizou a projeção de crescimento econômico por país. O Citi prevê crescimento da economia global em 2,7%, que poderia cair abaixo de 2% caso as disputas comerciais dos Estados Unidos se estendam para Europa e Japão –acordos estão em discussão com esses países.

Segundo Rojas, as tarifas impostas pelos EUA e as retaliações da China têm efeito neutro sobre o Brasil. Significa dizer que, apesar da primeira avaliação positiva, o impacto acaba minimizado.

Rojas reforçou que projeta uma escalada da guerra comercial para uma guerra cambial. Trump tem escrito no Twitter contra a valorização do dólar à medida em que o quadro comercial recrudesce e cobra que o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) reduza os juros do país em velocidade maior do que tem feito.

O economista afirmou que existe uma correlação entre a imposição de tarifas e a valorização do dólar ante moedas emergentes e que essa deve ser uma nova fronteira de disputa. Após uma das rodadas de imposição de tarifas, a China chegou a permitir a desvalorização de sua moeda, indicando uma mudança de registro na disputa.

Mas há ainda um reflexo da incerteza, que faz com que países aumentem a compra de dívida americana, elevando a saída de dólares de países emergentes e desvalorizando a moeda local.


*A jornalista viajou a convite do Citi